29/06/2018

Dificuldade em conseguir informação é um dos desafios na cobertura de segurança pública

Repórteres relataram obstáculos na rotina jornalística e como tentam driblá-los no dia a dia

Por Ana Paula Bimbati
Luís Adorno, Maria Carolina Trevisan (UOL) e Anabela Paiva (Vozerio) formaram a mesa com mediação de Marcelo Godoy (Estadão) 
Imagine começar uma reportagem com deadline apertado, enviar um pedido de Lei de Acesso à Informação para conseguir dados essenciais para a produção da matéria, e recebê-los apenas 8 meses depois. Foi exatamente isso o que aconteceu com o repórter do UOL Luís Adorno, responsável pela cobertura de segurança pública do portal, quando escrevia sobre a morte de presos em São Paulo.


As informações chegaram dois meses após o ouvidor das polícias enviar um relatório para Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Adorno compartilhou suas experiências ao lado de Anabela Paiva, do Vozerio, na palestra “Cobertura de segurança pública: temas e problemas”, mediada pelo jornalista do Estadão, Marcelo Godoy, com apoio da colunista do UOL Maria Carolina Trevisan.

Para Anabela, os obstáculos para conseguir informações podem ser uma estratégia do governo. “Um exemplo é a morte do adolescente de 14 anos na Maré. A polícia informou que havia 23 mandados naquela região, mas não disse quem prendeu, se prendeu, não se sabe a origem”, contou a jornalista.

Editora na revista online Vozerio, ela também relatou as dificuldades de conseguir informação até mesmo via LAI. “Já responderam que não têm equipe para responder a pergunta”, lembrou.

A grande dica, segundo Godoy, para os jornalistas, é fazer um planejamento. “Envie 10 pedidos por mês e não desista”, pontuou. A legislação permite entrar com até três recursos junto aos governos para pleitear respostas satisfatórias.

Outra dificuldade apontada pelos repórteres foi a própria segurança. “Faz 4 anos que não entro à noite na Vila Jacuí (em São Miguel, Zona Leste de São Paulo). Precisei abrir mão de estar lá. Também evito de publicar determinados assuntos nas redes sociais”, contou Adorno, que morava no bairro.

A colunista Maria Carolina disse que recebe ameaças até mesmo nas redes sociais. “Meu primeiro texto foi sobre o Massacre do Carandiru e, dos 350 comentários, todos foram negativos”, afirmou. Para ela, o repórter que cobre segurança pública precisa adotar algumas práticas para a sua própria segurança. “É importante, ao sair, avisar a chefia e alguém próximo onde você está, evitar andar sozinho e publicar nas redes sociais, por exemplo”.

Pesquisa analisou cobertura de 2004 e 2015

A jornalista Anabela Paiva apresentou uma pesquisa comparando a cobertura de violência pela mídia entre 2004 e 2015. Segundo os dados, houve 35% de redução das matérias veiculadas sobre o assunto nos seis jornais analisados: Estadão, Folha de S. Paulo, O Dia, Jornal Extra, O Globo e Agora. Para ela, isso também é um reflexo da redução de profissionais nas redações.

Além disso, o estudo apontou as principais fontes ouvidas nas reportagens dos veículos. Quase 27% das matérias não tem fonte, 33% tem apenas uma. Uma problemática levantada é que na maioria das vezes a única voz na reportagem é a do policial.

“É preciso cultivar uma relação de confiança com a população e tornar essa cobertura mais plural”, disse. Para a colunista Maria Carolina, é preciso entender que não é “jornalista militante, mas é a militância pelo jornalismo de qualidade”.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nenhum comentário:

Postar um comentário