29/06/2018

Editores defendem novos formatos, temas e equipes para o jornalismo investigativo

Diversidade e criatividade são essenciais para sair do lugar-comum da agenda investigativa

Por Hanna Oliveira e Dominique Tuane

Giampaolo Braga (Extra), Dione Kuhn (GDI) e Rodrigo Rangel (Crusoé) discutem novas possibilidades para o jornalismo investigativo durante o segundo dia de Congresso | Foto: Alice Vergueiro
Um ovo de galinha como narrador de uma matéria jornalística. Vindo do interior de São Paulo, ele percorreu as estradas paulistas até chegar nas mãos de um vendedor ambulante nos trens da Baixada Fluminense. Sem o cuidado e tempo necessário, esse poderia ser apenas um ensaio de alguma revista com foco em culinária, mas, na realidade, se trata de uma grande reportagem investigativa sobre o roubo de carga no estado do Rio de Janeiro.

A reportagem, conduzida pelo jornalista Giampaolo Braga do jornal Extra, foi apresentada durante palestra ‘Crie o seu Spotlight: como montar um time de investigação’, no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Durante a produção, o time de três jornalistas descobriu que o tempo entre o roubo da carga e a sua comercialização é de cerca de uma hora e meia. Ao todo, a investigação jornalística durou três meses, com 100 viagens de trem. 

Para Dione Kuhn, editora do Grupo de Investigação (GDI), lançado em 2016 pelo grupo RBS, além de tempo e aprofundamento, os riscos são fatores presentes numa equipe de jornalismo investigativo. As ameaças são constantes. Alguns jornalistas da sua equipe não revelam a identidade para evitar represálias.

Braga lida com os riscos de uma forma diferente: “faz parte, porque você expõe gente que não quer ser exposta”. Para o repórter, revelar figuras diretamente ligadas ao crime é mais complicado do que expor um político, por exemplo. O repórter recorda de um episódio que viveu durante a realização de uma matéria sobre um bicheiro carioca. “As matérias estavam saindo e não chegava nenhum e-mail, ninguém ligava. Dava a impressão de que iam fazer qualquer coisa a qualquer momento”.

A imobilidade dos jornalistas frente as investigações de órgãos oficiais também é um ponto sensível, segundo os integrantes do debate. Rodrigo Rangel, da Revista Crusoé, observou que, após a Operação Lava Jato, criou-se uma função nunca antes vista na redação: a de setorista do e-proc (sistema utilizado pelo poder judiciário para subir os processos). Criticando esse tipo de abordagem, Rangel afirmou que “estamos tentando sair da bolha da Lava Jato. Como jornalistas precisamos voltar a fazer apurações e investigações próprias”.

Em linha com novas abordagens críticas, Braga iniciou um trabalho dentro do jornal Extra com o objetivo de humanizar o caderno policial. O jornalista destacou a importância do jornalismo pautar a opinião pública e não apenas ser pautado por ela. “Jornalismo não tem a ver com fazer amigos”, explica.

Dentro do novo formato de coberturas sobre os direitos humanos adotado na editoria Guerra no Rio, o jornalista do Extra cita o assassinato de Marielle Franco. Ele relatou a dificuldade de manter a cobertura de um crime que já passou e colocar em prática um caráter mais investigativo.

Nos trabalhos do GDI um dos grandes esforços têm sido desvencilhar o jornalismo investigativo da cobertura de poder público. Para o grupo, existem outros agentes de igual relevância que afetam a sociedade. Um exemplo recente é a matéria sobre as contas do time Internacional, de Porto Alegre, que denuncia possíveis irregularidades na gestão dos gastos, entre 2015 e 2016.

Os palestrantes defendem uma equipe multidisciplinar e diversa de pessoas e saberes se para os grupos investigativos. A familiaridade com dados, conhecimento do Direito e vivência em diferentes editorias são fundamentais para se trazer novas perspectivas para essa área.

O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, McDonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

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