28/06/2018

Projeto reúne 24 veículos jornalísticos para combater a desinformação no Brasil

Após consolidar iniciativas semelhantes nos EUA e Europa, a pesquisadora Claire
Wardle deu uma prévia da versão brasileira, intitulada “Comprova” 

Por Carolina Moraes


Pesquisadora Claire Wardle quer consolidar projeto de cooperação jornalística no Brasil | Foto:Alice Vergueiro
Durante a corrida do pleito atual, políticos dialogam diretamente com os seus
possíveis eleitores, enquanto as notícias falsas viralizam nas redes sociais. Durante a mesa “Desinformação e a Internet: Desafios para o Futuro”, mediada pelo presidente da Abraji Daniel Bramatti, a diretora do Information Disorder Project e do First Draft, Claire Wardle, lançou um projeto à altura do desafio jornalístico nesse cenário. 


O Comprova, que vai ao ar oficialmente no próximo 6 de agosto, reúne 24 empresas jornalísticas para combater a desinformação no país. “Acho que nunca esperei que a mídia brasileira colaborasse. Vocês são muito competitivos, gosto dessa vibração”, afirma a pesquisadora. “São várias redações que competem entre si, mas que se juntaram para fazer esse processo”.

O projeto nasceu com uma iniciativa do First Draft, organização ligada à

Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Criada em 2015, a ONG faz pesquisas e projetos para combater a desinformação na internet. “A única solução para esse problema é a colaboração. Todos têm que se reunir e lutar contra esse problema”, afirmou a diretora.

Wardle rejeita o termo fake news para falar das notícias falsas que circulam nas

redes. “Essa expressão está sendo tão usada que perdeu o sentido”, explica. Ao falar das informações incorretas, a pesquisadora ressalta que os jornalistas não sabem como falar sobre essas comunidades onlines que disseminam conteúdos enganosos. A ideia do projeto Comprova é também trabalhar essa questão. “Vamos trabalhar com táticas, não apenas fontes. Não é só uma questão de desmentir fotos e vídeos. Precisamos entender as táticas usadas por esses trolls”, esclarece.

Os membros da organização também esperam que o pioneirismo da iniciativa de

cooperação impacte na formação jornalística. “Esperamos que, ao promover essa iniciativa em tantas redações, isso deixe um legado para essas pessoas que vão dominar novas técnicas, ter novos conhecimentos e um domínio maior de uma expertise necessária para enfrentar esse universo novo da desinformação”, contou Bramatti.

Os diferenciais da iniciativa

“O espaço de desinformação é enorme, o que a gente vai tentar fazer é especializar. Uma redação vai cuidar da corrupção e outra do meio ambiente, por exemplo”, explicou Wardle. “E isso cria uma mega redação”, agitou a pesquisadora. A ideia é que tags indiquem os pontos errados de determinada notícia. De baixo de cada uma, será possível ver os logos das redações responsáveis. “Somente com a aprovação de três [redações], a gente púbica
uma informação”, explicou Wardle.

Além do conteúdo ser fruto de colaboração jornalística, a articulação entre redações amplifica a circulação do material produzido. No site, criado especificamente para o projeto, os elementos colaborativos foram centrais para o design e funcionalidade da plataforma.


Algumas técnicas também serão testadas no WhatsApp, chat que, segundo Claire, é nosso maior desafio. “O problema do WhatsApp é que você está em grupos com família e amigos, e é em quem você confia”, afirma. “Nós não entendemos o que circula ali. Por isso temos que pensar como um organizador de comunidade, de base, se organiza”, conclui a diretora.


O time do projeto

A organização foi gestada pelo First Draft, que fez sua primeira atuação em eleições em 2016 com o projeto Electionland. Em parceria com a Pro Publica, veículo americano de jornalismo investigativo, a entidade acompanhou a experiência dos eleitores nos Estados Unidos para investigar problemas eleitorais.

O Comprova, coordenado pela Abraji, é formado por grandes veículos brasileiros ou internacionais com base no país: AFP, Band, Band News, Canal Futura, Correio do Povo, Exame, Folha de S. Paulo, GaúchaZH,

Gazeta do Povo, Gazeta Online, Jornal do Commercio, Metro Brasil, Nexo Jornal, Nova Escola, NCS Comunicação, O Estado de S. Paulo, O Povo, Poder360, piauí, Rádio BandNews FM, Rádio Bandeirantes, SBT, UOL e Veja.

Além do apoio do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) e do

Google News Initiative e Facebook Journalism Project, outras instituições parceiras também fizeram o projeto acontecer: a ANJ (Associação Nacional de Jornais), RBMDF Associados, Escritório da Universidade de Harvard no Brasil, Torabit, Ideal H+K Strategies e Twitter são os parceiros institucionais. Para Wardle, reunir tantos veículos nesse tipo de projeto não seria possível em outras regiões como nos Estados Unidos ou no Reino Unido. “O que vocês
estão fazendo é muito pioneiro”, afirmou a pesquisadora.


O 13º Congresso internacional de Jornalismo investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald´s, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde a 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, orientados por profissionais coordenadores do Projeto e diretores da Abraji. 

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