13/09/2020

"A recepção positiva do novo modelo de congresso superou nossas expectativas", diz presidente da Abraji

Primeiro evento virtual organizado pela instituição, a 15ª edição superou desafios e bateu recorde, com cerca de 10 mil inscritos

Por: Stéfanie Rigamonti
Edição: Stéfanie Rigamonti




O jornalismo tem enfrentado uma série de desafios e, neste ano, a pandemia se somou a eles, trazendo obstáculos à profissão. E claro que, para um congresso que se coloca como um espaço de discussões, intercâmbio de experiências e até mesmo levantamento de soluções, esses desafios se misturam com a própria organização do evento. Pela primeira vez, o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo foi realizado a distância.

No início, havia uma série de dúvidas em relação à viabilidade e aceitação desse novo modelo, mas o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, comemora a acolhida. "Nós não sabíamos muito bem o que esperar, pois este é o primeiro congresso virtual que organizamos. Os cerca de 10 mil inscritos estão acima dos números que prevíamos, sim, mas sobretudo a recepção positiva do novo modelo superou nossas expectativas", conta. Além disso, Träsel observa que 2020 teve "muito mais efervescência a respeito do congresso nas redes sociais do que em anos anteriores".

Pandemia presente no formato e temas


A pandemia esteve presente a todo momento, em todas as palestras, como uma sombra. "Até por conta da realização no formato online, acredito. Em diversas sessões, o tema surgiu de uma forma ou de outra, mesmo que em vários momentos o foco da discussão tenha sido outros temas", lembra o presidente da Abraji. E não é à toa a forte presença do tema no evento. Apesar de não terem seus trabalhos reconhecidos pela sociedade, como os profissionais da saúde, e, ao contrário, serem até mesmo alvos de discursos de ódio, os jornalistas estão na linha de frente nesta pandemia para fornecer informações relevantes para o público, estando sujeitos a todos os perigos.

Além disso, a crise econômica decorrente da pandemia atingiu em cheio as redações. Afora as demissões, vários jornalistas tiveram redução de jornada de trabalho e salarial. Fora os problemas psicológicos que, embora sejam um tabu e, por isso, pouco comentados, estão ali o tempo inteiro. De acordo com uma pesquisa da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), 61,25% desses profissionais tiveram aumento no nível de ansiedade e estresse com o trabalho durante o período pandêmico no Brasil. O dado foi apresentado em uma das mesas do congresso que tratou da saúde mental desse profissionais.

Mas, apesar de trabalhar intensamente nesta crise, como dito anteriormente, os profissionais das redações e repórteres são alvos de incontáveis discursos de ódio. E quando o tema é gênero, então, a situação piora. Segundo a presidente da Asociación Civil de Comunicación para la Igualdad na Argentina, Sandra Chaher, as jornalistas sofrem duplamente na internet: por sua profissão e por seu gênero. É um problema estrutural que acaba até afetando o dia a dia dessas profissionais, já que a violência digital aberta contra elas acaba estimulando a censura. Muitas preferem até se isolar da internet para se proteger desses ataques. É o que mostrou Chaher, em uma das palestras do congresso.

Discursos de ódio e desinformação


O meio virtual é um prato cheio para esses discursos de ódio, já que nele o propagador geralmente está protegido por uma certa impessoalidade que os perfis falsos e os robôs proporcionam. Junto com essas mensagens violentas, estão também as chamadas notícias falsas. Marcelo Träsel, inclusive, reforça que as "fake news" também se apresentam como um dos maiores desafios para a cobertura jornalística neste ano e, por isso, o assunto ganhou espaço amplo no congresso de 2020.

Além de uma mesa inteiramente dedicada à desinformação, inevitavelmente o assunto foi levantado em diversas palestras. E, como não poderia ser diferente, já que o coronavírus modificou muitos aspectos da vida a ponto de chamarem a atualidade de "novo normal", os conteúdos falsos nas redes sociais ganharam novas características com a pandemia. No painel "Desafios na cobertura do jornalismo científico durante a Covid-19", ficou patente como o período pandêmico apontou para duas fissuras no avanço do desenvolvimento humano: a desvalorização da imprensa e da ciência.

No Brasil, tratando-se de um país polarizado politicamente – fato que também foi tema no congresso –, os conteúdos de desinformação sobre a pandemia ganharam mais uma camada de contorno especial.

Marcelo Träsel explica que é importante discutir o assunto da polarização e, junto com ele, o autoritarismo no Brasil, já que, com o governo atual, o País passou por tantos momentos marcados pelo cerceamento da imprensa que, hoje, ele acredita que estamos vivendo um retrocesso na democracia brasileira. "Embora não estejamos em um regime autoritário, o governo Bolsonaro está apertando esse nó", comenta o presidente da Abraji. O tema também foi palco do painel “Neofascismo: Modo de Fazer”, com o filósofo Jason Stanley e o ex-presidente da Abraji Daniel Bramatti.

Das redações para a sociedade: o impacto das estruturas sociais no jornalismo


Os jornalistas não são pessoas de outro planeta. Estão inseridos em uma sociedade e, assim, reproduzem as estruturas sociais em todo o lugar, inclusive nas redações. Assim é com a questão climática, por exemplo. Em uma das palestras do congresso, o editor global de meio ambiente do jornal britânico The Guardian, Jonathan Watts, afirmou que a humanidade falhou em relação a esse assunto, assim como o jornalismo. “Parte dessa falha é nossa, como jornalistas. Os governos, as empresas e os consumidores não foram convencidos da urgência da situação”, argumentou.

Por isso, Watts defende que o iminente colapso climático deve ser tema central no debate jornalístico. Para ele, o meio ambiente deve ser o prisma para entender pautas políticas, econômicas e sociais, e precisa estar nos espaços de destaque de todos os jornais.

Outro assunto que impacta as redações, apesar de a maioria branca não perceber, é o racismo, tema que também teve destaque no congresso deste ano. “Quando participei desse congresso em 2018, vi cinco jornalistas negros. Dois estavam em um painel sobre raça. Isso é problemático em um país com uma população negra tão grande como a do Brasil. A Abraji e a imprensa precisam se responsabilizar sobre isso”, disse Nikole Hannah-Jones, repórter da revista do The New York Times (NYT).

A fala ocorreu no painel "Racismo dentro e fora das redações", que mostrou como o preconceito racial ainda incrustado em nossa sociedade afeta os jornalistas pretos nas redações e, por outro lado, como esses profissionais têm se mobilizado para levar aos veículos pautas importantes para essa população.

Bastidores de reportagem


Além dos assuntos mais urgentes da atualidade, o congresso conseguiu também trazer mesas que são tradição no evento, como os painéis que revelam os bastidores de grandes reportagens. Foi o caso da mesa que mostrou como a BBC desvendou um crime brutal na África, envolvendo quatro vítimas, sete suspeitos e o governo camaronês. A partir de vídeos que circularam na internet, com informações controversas, jornalistas decidiram desvendar o crime utilizando-se de ferramentas digitais, como o Google Earth.

Também teve os bastidores de uma reportagem do Fantástico, cuja missão foi encontrar números que mostrassem que a violência policial estava se intensificando e fazendo mais vítimas nas periferias do Brasil. Durante palestra no congresso, Antonio Junião (Ponte Jornalismo), Nancy Dutra (TV Globo), Sônia Bridi e outras pessoas da equipe do programa semanal da Rede Globo mostraram como a falta de dados é um método do Estado para ocultar a violência policial no Brasil.

VII Seminário de Pesquisa e 2º Domingo de Dados


Um dia antes do início do congresso, na quinta-feira (10), aconteceu o VII Seminário de Pesquisa, um evento complementar que permite a discussão de pesquisas acadêmicas sobre o jornalismo investigativo. Foram 1,4 mil inscrições nesse dia. E, pela segunda vez, a Abraji reservou o domingo (13) pós-congresso inteiramente ao jornalismo de dados, com oficinas dedicadas desde a profissionais que querem dar os primeiros passos na área até para aqueles que já se consolidaram e querem aprimorar o conhecimento. Esse evento recebeu 2,3 mil inscrições.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Vitória Macedo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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