11/09/2020

Infodemia: a pandemia de covid-19 e a viralização de fake news

Cientista e jornalista comentam a confluência das duas áreas em um esforço conjunto pode conter a desinformação

Por: Mikael Schumacher e Miréia Figueiredo

Edição: Mariana Soares

Além de ter exposto problemas estruturais graves de países do mundo inteiro, como a falta de um sistema de saúde público, a pandemia da covid-19 também apontou para duas fissuras no avanço do desenvolvimento humano: a desvalorização da imprensa e da ciência. 

Este foi o ponto central da mesa “Desafios na cobertura do jornalismo científico durante a covid-19”, do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que contou com a participação de Roberta Jansen, jornalista do Estadão especializada em saúde e ciência, e do cientista-membro do Comitê de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste, Miguel Nicolelis.

“Uma avalanche de artigos”

Desde que a disseminação mundial do vírus se iniciou, já foram lançados mais de 50 mil artigos sobre a doença. “Nunca antes na história, nós produzimos tanto conteúdo científico num espaço tão curto de tempo”, pontua Jansen. A vacina contra o Sars-Cov-2, se entregue até o início do ano que vem, como foi proposto, será a mais rápida já produzida.

O momento de alta produtividade científica é colocado pela jornalista como uma das dificuldades da cobertura. Essa grande quantidade de informação também pode gerar outros problemas, uma vez que os artigos científicos estão sendo publicados com menos burocracia para facilitar a troca de informações entre os cientistas nesse período emergencial. 

Essa pressão por agilidade faz com que alguns artigos de qualidade duvidosa sejam publicados. O trabalho do jornalismo científico consiste em analisar esses documentos e peneirar as informações confiáveis que podem ser levadas ao público. “É a primeira pandemia da época da hiperconectividade, o mundo inteiro participa de tudo em tempo real”, explica Jansen.

Em sua fala, Nicolelis destacou o modo de produção científica e como muitas vezes o público não-especializado desconhece como a ciência opera. “A ciência não é o que é publicado nas grandes revistas.” Nelas, a competitividade e o jogo político determinam o crivo do que será ou não publicado, mas nem sempre fazem jus aos trabalhos de maior qualidade. 

Os perigos da velocidade na internet

Do mesmo modo que uma notícia positiva sobre o avanço dos experimentos com vacinas pode ser transmitida em alta velocidade, uma notícia falsa sobre os motivos de não se vacinar também. Na verdade, alguns pesquisadores do tema, como o jornalista e professor Muniz Sodré, acreditam que as fake news possuem um potencial “virótico” muito maior.

Problemas relacionados à qualidade e acurácia das informações acometem até mesmo revistas científicas de renome. A The Lancet, por exemplo, publicou um artigo favorável ao uso da cloroquina para tratamento da covid-19, que foi divulgado pelos jornais. Mais tarde, então, o estudo foi revisado e tirado do ar. “Esse caso já foi o suficiente para pipocar diversas teorias da conspiração”, expõe Roberta Jansen.

Para o cientista, deveria haver um comitê científico de ajuda permanente em cada um dos países. O tempo da ciência é diferente do tempo da disseminação de informação na era digital. Apesar da velocidade cada vez mais acelerada da produção científica, uma vacina ainda demora a ser criada. Assim, organizar uma equipe seria um preparo para reduzir os impactos de futuras crises na área de saúde. “Eu agora tenho uma pandemia… vocês [cientistas] que não têm dinheiro, não tem apoio político, venham resolver o meu problema”, ironiza Nicolelis sobre a conduta dos gestores na atual conjuntura.

A ciência tão popular quanto o futebol

O teórico Carlos Vogt é um dos principais nomes no Brasil quando o assunto é cultura científica. Para ele, a ciência estará difundida no país quando for pauta de debate público, tão comentada quanto o futebol. Esse pensamento vai ao encontro da perspectiva de Roberta Jansen: “Esperamos mais visibilidade para a ciência e o jornalismo científico, também queremos que esse espaço se mantenha após a pandemia”.

Por sua vez, Nicolelis, descreveu com todas as palavras a consequência de uma população alheia à ciência: “A desinformação mata”. E relembrou o recente caso nos EUA, onde adultos e crianças deixaram de se vacinar contra sarampo, foram contaminados pela doença e vieram à óbito. Mais ainda, aproximou essa ideia do que vivemos atualmente e alertou para a organização de um movimento antivacina da covid-19, antes mesmo dela ser criada.

Ao que tudo indica, enquanto jornalistas e cientistas não entrarem em um discurso comum sobre a importância da ciência na vida das pessoas, gestores continuarão negando investimentos nessa área. “Não há projeto de soberania nacional sem investimento em saúde pública, educação de alto nível e ciência. Investimento no povo, no potencial humano”, conclui Nicolelis.



Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher. 

Criação de arte: Camila Araujo. 

Ilustração: Mikael Schumacher

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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