12/09/2020

Violência digital contra mulheres jornalistas estimula censura

Discurso de ódio nas redes sociais evidencia vulnerabilidade do gênero

Por Cassiane Lopes e Nayani Real
Edição: Vitória Macedo



Mulheres jornalistas estão duplamente propensas a ser vítimas de violência: por exercer sua profissão e por conta de seu gênero feminino. Isso é o que diz o site sobre o tema, feito pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). A popularização das redes sociais nos últimos anos dá vazão a um novo formato de ataques a essas profissionais.

Na palestra “Ataques virtuais contra mulheres jornalistas na América Latina”, Sandra Chaher, presidenta da Asociación Civil Comunicación para la Igualdad na Argentina, conta que a preocupação a nível global sobre o assunto aumentou por conta da intensificação das violências contra as profissionais na internet. “Esse espaço está reproduzindo a violência estrutural que temos na sociedade", explica. Junto à argentina, construíram o debate a colombiana Lina Cuellar, diretora e co-fundadora da Fundación Sentiido, a boliviana Isabel Mercado, diretora da Página Siete e a venezuelana Gabriela Buada, fundadora do Caleidoscopio Humano.


O impacto nas vozes femininas


Enquanto estatísticas da ONU mostram que 23% das mulheres sofreram violência nas redes sociais, pesquisa da International Women's Media Foundation, junto a 600 jornalistas mulheres, aponta que 63% já sofreram assédio ou ameaças digitais. “Isso afeta a liberdade de expressão das mulheres, que já são parte de um grupo vulnerável”, aponta Chaher. Sandra conta ainda que por conta desse cenário, 40% das entrevistadas se retiraram do debate público. 

A reação evidencia um panorama de desigualdade, marcado anteriormente pelas limitações impostas ao desenvolvimento profissional delas, que prejudica o acesso a determinados cargos, por exemplo.Todavia, convém lembrar que esse não é o maior dos problemas, “Este é um tema pequeno em relação à enorme violência que há referente à morte de mulheres, a violência física que informamos diariamente”, ressaltou Isabel, diretora do jornal Pagina Siete da Bolívia.

Apesar disso, o relatório Mulheres jornalistas e liberdade de expressão, da CIDH, mostra que a porcentagem de mulheres repórteres na América Latina aumentou - inclusive com relação à média global: em 2015, 43% das pessoas frente às notícias eram mulheres. O número é 15% maior do que em 2000.O país se encontra como o primeiro que registra os maiores índices de violência contra a mulher na América Latina.

A diferença de encalços entre homens e mulheres é bem clara. Lina exemplifica que as agressões comumente envolvem alguma fala contra a própria mulher, em vez de criticar o trabalho produzido por ela enquanto profissional. Em pesquisa realizada no Twitter, Cuellar identificou o uso de linguagem tóxica e expressões discriminatórias por meio de hashtags. Entre os xingamentos destacam-se termos como “terrorista”, “desmiolada” e “pseudo jornalista.” Para ela, as mulheres sofrem ainda mais violência quando abordam a questão.

Censura e solução


As consequências podem ser vistas nos números: 67% das jornalistas deixaram de postar sobre tópicos ao supor que poderiam gerar agressões, outras saíram do Twitter por um período e diminuíram a frequência com que realizavam postagens. Essas perseguições atuam como censura, afetando o jornalismo produzido, o que corrobora com o cerceamento da liberdade de expressão, e consequentemente aflige a democracia.

A fundadora do Caleidoscopio Humano destaca o papel da cultura machista como endosso às práticas violentas. Gabriela enfatiza a necessidade da mobilização internacional somada à local no auxílio às jornalistas diante desses cenários. Para ela, uma alternativa é a implementação de protocolos de auxílio em área laboral para que os abusos cometidos não se repitam.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte: Vitória Macedo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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