13/09/2020

“Dados permitiram trabalhar com reportagens que não poderiam ser feitas de outra forma”, afirma Jennifer LaFleur

Repórter norte-americana apresenta as tendências do jornalismo de dados para o futuro e aponta como são importantes para contar histórias

Por: Isabela Alves e Thuany Gibertini

Edição: Wender Starlles

Créditos: Núcleo de Arte

"Os dados são essenciais porque apresentam uma visão ampla dos assuntos, mas também são importantes para destacar histórias individuais." A afirmação é da jornalista Jennifer LaFleur, do Investigative Reporting Workshop, durante o encerramento do Domingo de Dados, do 15º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

“Dados permitiram trabalhar com reportagens que não poderiam ser feitas de outra forma”, diz LaFleur. A repórter aponta que existem várias ferramentas que podem auxiliar os jornalistas, como o Accountability Project e o Judgit!. No Brasil, em alguns casos, os profissionais podem recorrer a Lei de Acesso à Informação.
 

O poder dos dados


Segundo a jornalista, os dados ampliam as perspectivas e apresentam um cenário completo. A conexão deles também é poderosa, porque permitem pautar os melhores temas e até mesmo conseguir as melhores fontes. “Também podemos encontrar padrões reais com dados que não poderiam ser montados de outras forma”, afirma LaFleur.

Uma das reportagens mais marcantes de sua carreira foi realizada a partir de ferramentas de dados. LaFleur mostrou pessoas da Ásia presas em jaulas, submetidas ao trabalho escravo, na indústria da pesca. Após a repercussão do material, elas foram libertas por autoridades locais. 

Outro exemplo foi como a ferramenta View auxiliou jornalistas a encontrarem padrões de incêndios em áreas naturais nos estados do Oeste, dos Estados Unidos. Por meio de imagens de satélite, foram identificados como os incêndios progrediram ao longo do tempo invés de diminuir.

LaFleur também menciona a reportagem que, através do crowdsourcing – obtenção de dados através de uma comunidade online –, revelou porque bairros localizados em áreas mais vulneráveis de Baltimore, em Londres, eram mais quentes do que em outras regiões. “Os dados não revelam apenas as pequenas histórias, mas um padrão por completo”, ressalta. 

O jornalismo gerando dados


Nem sempre todas as informações estão disponíveis ou existem. Nesse caso, LaFleur pontua que jornalistas devem criar sua própria base dados. “Eu já trabalhei em redações de outros países que tive de ser criativa.”

Para a norte-americana, os dados produzidos por profissionais de imprensa precisam ser transparentes e mostrar publicamente como foram construídos. Ela comenta que no Accountability Project, curadoria de dados públicos voltada para jornalistas e pesquisadores, a metodologia utilizada para gerar informações está disponível para os leitores consultarem a qualquer momento. “Isso dá credibilidade e informa que não estamos inventando algo.”

O som dos dados


Um dos desafios do jornalismo de dados é deixar as informações mais acessíveis ao público. LaFleur aponta que a Reveal the Center for Investigative Reporting passou a desenvolver reportagens com o som de informações para deixá-las mais acessíveis para os ouvintes. No caso de um furacão, por exemplo, era possível compreender a intensidade da situação.

Tudo começou com o questionamento: como colocamos dados no rádio? Para fazer esse projeto, a equipe participou de várias conferências de ciência e conversou com outros setores. “Não precisamos inventar a roda, podemos aprender com outras áreas”, afirma.

Além disso, houve um esforço para que o gráfico sonoro ficasse claro para todos. “Explicamos muito bem como funcionava cada som, de maneira didática.” Na conversa, LaFleur destacou a importância do jornalista fazer com que o conteúdo fique claro, mesmo que parta de dados complexos. “O nosso trabalho é fazer com que o público entenda”, afirma.

O futuro do jornalismo de dados


Ao final da mesa a jornalista trouxe a sua perspectiva para o futuro da área. Para ela, as redações precisam mudar de pensamento e começar a incentivar os jornalistas a utilizarem dados nas reportagens. Além disso, temas que utilizem bases de informações retiradas de satélites para mapear desmatamentos e incêndios são a sua grande aposta.

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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