12/09/2020

A mesma liberdade de expressão que garante a democracia pode derrubá-la, diz Jason Stanley

Professor de filosofia em Yale, o filósofo e autor do livro "Como Funciona o Fascismo" traça panorama sobre ações de governos autoritários  

Por: Patrick Freitas e Artur Ferreira

Edição: Rafaela Carvalho


O fascismo prospera no medo. É do receio coletivo que nasce a ânsia por um líder que assuma um papel de protagonismo patriótico, digno dos livros de História – mais precisamente, dos capítulos que mostram governantes totalitários e extremistas. Para Jason Stanley, professor de Filosofia e autor do livro Como Funciona o Fascismo, vivemos um desses momentos. Estamos em uma era neofascista.

Para o filósofo, líderes fascistas enxergam crises não como problemas a serem resolvidos em prol de uma nação, mas como algo que os prejudica ou não. Um exemplo recente no Brasil é o próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, que, por vezes, chamou o novo coronavírus de uma “gripezinha” ou "resfriadinho", por exemplo.

Stanley participou do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo neste sábado (12). Ele e Daniel Bramatti, jornalista e editor do Estadão Dados, conversaram sobre as principais formas como o Neofascismo se manifesta em governos autoritários de extrema direita pelo mundo. 

Um exemplo está na liberdade de expressão: Stanley aponta que líderes neofascistas declaram ser a favor dela ao mesmo tempo que ofendem a imprensa e intelectuais com visões opostas ao poder.

De acordo com o estudioso, outro traço do neofascismo é a retomada de um fantasioso passado mítico, quando tudo parecia ser melhor e mais seguro até um governo que se opunha aos ideais desse líder, trouxesse uma derrocada. 

Ele ainda apontou o antiintelectualismo, salientado pelo descrédito à ciência e à pesquisa, como traço da ascensão desse tipo de regime. E, por fim, apontou a defesa da lei e da ordem a todo custo, com alto investimento em forças de segurança. Brasil, Hungria, Índia, Polônia e Estados Unidos figuram entre os países que se enquadram nessas características atualmente.

Receio pelo futuro

Stanley, que é norte-americano, relatou sentir medo pelo futuro de seu próprio país. Com a desconfiança popular em relação aos jornalistas, a democracia se vê cada vez mais enfraquecida – o que pode ser especialmente prejudicial em um ano eleitoral. 

Quando perguntado sobre as eleições presidenciais de 2020, que acontecerão em novembro, o filósofo diz que o atual presidente Donald Trump não sabe lidar com os fatos. Hoje, o líder ridiculariza quem opta por votar pelos correios para não se expor ao risco de se contaminar com a Covid-19. "Para ele, o vírus é um problema dos democratas”.

O futuro da imprensa

Junto à crise de confiança que o jornalismo vive, está uma crise, também, de modelo de negócio. Bramatti questionou Stanley sobre o atual momento vivido pela imprensa, e como ele enxerga o futuro das coberturas jornalísticas. 

O filósofo afirmou que o futuro da notícia não deve se sustentar apenas em números de vendas ou em imagens voltadas puramente para a busca de audiência, já que isso fragiliza a qualidade da informação. 

Para o especialista, jornalistas investigativos devem resistir como peças fundamentais para a obtenção de respostas sobre como chegamos a um momento em que o fascismo está novamente presente na vida em sociedade. "Eu não tenho todas as respostas para esse momento histórico. É o jornalismo que irá trazê-las", diz. 



Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 


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