11/09/2020

Cobertura de questões indígenas: por onde começar

Jornalistas compartilham experiências, dicas e reflexões para quem pretende trabalhar nessa área

Por: Augusto Oliveira e João Benz
Edição: Augusto Oliveira e João Benz


A luta dos povos originários do Brasil é destaque na imprensa nacional e estrangeira enquanto suas vidas, cultura e territórios seguem ameaçados pela postura anti-indígena do governo federal. 

Nesse contexto, o jornalismo tem um papel central na ampliação das vozes dessas comunidades e na defesa do meio ambiente —  pautas emergenciais para esta geração e as próximas.

É o que apontam jornalistas que participaram da mesa Terra Indígena no Centro das Investigações, durante o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, nesta sexta-feira (11).

“Eu queria ressaltar a importância do jornalismo abrir espaço para a contratação de profissionais indígenas e desenvolver parcerias mais colaborativas. Isso vai levar a inovação que o jornalismo precisa”, defende Letícia Leite, jornalista do Instituto Socioambiental (ISA) que realiza o podcast Copiô, Parente desde 2017.

O projeto consiste em boletins semanais em áudio, produzidos junto com comunicadores indígenas, que alcançam diversas comunidades através do Whatsapp.

“Precisamos de cada vez mais vozes ecoando os problemas que acontecem aqui no coração da floresta, pro Brasil e pro mundo, para parar essa política de destruição das conquistas dos povos indígenas”, afirma Fabio Pontes, jornalista freelancer na cidade de Rio Branco, no Acre, e cobre o assunto há mais de uma década.

Além da pluralidade de vozes na cobertura sobre o tema, a repórter e documentarista Ana Aranha, editora responsável pela produção jornalística na Repórter Brasil, ressalta a necessidade de investigação jornalística para apontar os responsáveis pela violação de direitos dessas populações.

“Eu queria fazer um desafio para quem quer cobrir esse tema: descubram quem está por trás dessas invasões em Terras Indígenas. É preciso dar nomes aos bois. Quais são as empresas ligadas a isso?”, aponta.

Durante o encontro os palestrantes também ofereceram dicas aos profissionais que se interessam em mergulhar no tema. Confira as dicas que selecionamos:

Formas de fazer jornalismo sobre a questão indígena 

- Reportagem em campo: deve ser priorizada porque reduz os erros, humaniza a cobertura e permite ao jornalista sentir o modo de vida de seus personagens.
- Remotamente: investigação de dados e a edição de portarias, projetos de lei e processos pelo judiciário.

O que é preciso para ser um bom jornalista nessa temática? 

  • Afinidade e identificação com o tema são fundamentais, assim como empatia pelas populações retratadas nas reportagens.
  • Paciência! Não será possível cumprir prazos apertados como de costume nas redações.  Amplo conhecimento, desde antropologia e política até a compreensão da forma de pensar dos diferentes povos.
  • Desprendimento da zona de conforto.
  • Espírito de aventura e bravura.
  • Boas cordas, rede e MUITO repelente (os mosquitos não têm dó).

 Onde estão as melhores fontes? 

Para cobrir a temática indígena, as melhores fontes são os protagonistas desse tema, os próprios indígenas.

“As informações passadas pelas lideranças, que estão na ponta vivendo os problemas e as ameaças em seus territórios, são as mais preciosas para a produção de boas histórias”, explica Fabio Pontes. Muitas aldeias têm acesso à internet, a melhor forma de comunicação é pelo Whatsapp ou Telefone.

O contato com essas populações também pode ser realizado por meio das associações e organizações que os representam ou que trabalham diretamente com essa temática.

As principais são: Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Comissão Pró-índio (CPI), Instituto Socioambiental (ISA), Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB).

Para mais opções, confira a lista elaborada pelo ISA sobre as principais organizações que atuam nessa área.

Outro aspecto importante para cobrir a temática são as fontes documentais. Informações sobre atos, decretos, resoluções e processos de demarcação de Terras Indígenas estão no Diário Oficial da União (DOU). 

Os órgãos que podem emitir esses instrumentos legais são: a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Ministério da Justiça, o Ministério da Saúde (em especial, a Secretaria Especial de Saúde Indígena) e a Casa Civil da Presidência da República.

O Ministério Público Federal (MPF) é a fonte de informações mais confiável fora do Poder Executivo. O MPF é responsável por investigações e denúncias de violação dos direitos indígenas e de seus territórios.

Como ter acesso às Terras indígenas? 

Qualquer acesso às Terras Indígenas precisa de autorização da Funai. A lista de documentos e protocolos necessários, inclusive para captação de imagens, pode ser conferida aqui

Confiança e credibilidade 

Para conquistar a confiança dos povos indígenas é preciso compreender que entrar nesse mundo não é um processo fácil, demanda muito tempo e interesse legítimo. Superar resistências e ter disposição para se inserir nesse universo. Entender que é um universo marcado por cinco séculos de resistência. É preciso possuir e demonstrar empatia genuína pelas causas indígenas.

Para se manter atualizado nas questões indígenas no Twitter: 

@GuajajaraSonia
@apiboficial
@myekwana
@alkorap1
@betomarubo
@marivelton1
@cristianwariu
@luizeloyterena
@joeniawapichana
@midia_india


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher. 

Criação de arte: João Vitor Reis

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário