12/09/2020

Bastidores do Prêmio Pulitzer: a investigação que revelou uma política de execuções extrajudiciais nas Filipinas

Em meio à incessante guerra contra traficantes e dependentes químicos conduzida pelo presidente Rodrigo Duterte, reportagem da Reuters usou apuração na rua e dados para romper a narrativa oficial de que a polícia atirava em legítima defesa

Por: Isabella Vieira e Katherine Rivas

Edição: Ricardo Rossetto

Em 2016, quando Rodrigo Duterte foi eleito presidente das Filipinas, os jornalistas da agência Reuters Andrew Marshall e Clare Baldwin logo identificaram, ali, uma história importante que deveria ser contada.

Conhecido por conduzir uma política antidrogas que provocou a morte de milhares de pessoas na cidade de Davao, onde foi prefeito por 21 anos, Duterte cumpriu a promessa de levar a nível nacional sua guerra incessante contra traficantes e dependentes químicos.

"Pouco tempo depois que Duterte assumiu a presidência, os assassinatos vieram às centenas, depois milhares”, conta Marshall. “Em uma favela que visitamos, encontramos uma mulher que tinha perdido quatro filhos nessa guerra às drogas. As testemunhas relatavam que bairros periféricos tinham se tornado um ‘rio de sangue’”, lembra Baldwin. 

Os jornalistas participaram da sessão “Bastidores de Reportagem: Investigando execuções extrajudiciais”, que teve a mediação do jornalista Marcelo Moreira, diretor da TV Globo e um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

A investigação conduzida pelos repórteres da Reuters revelou que o governo de Rodrigo Duterte encobria milhares de assassinatos nas favelas da capital do país, Manila, e em comunidades de cidades próximas. Com apuração na rua e uma base de dados construída do zero a partir de evidências recolhidas nos locais dos crimes, Andrew e Clare romperam a narrativa oficial de que a polícia atirava em legítima defesa. 

A reportagem, eleita vencedora do Prêmio Pulitzer em 2018, foi citada em resoluções do Senado do país e na Corte Internacional de Justiça, e fez com que um grupo de assassinos profissionais parasse com as mortes em um dos bairros da capital.

Confira aqui a reportagem especial publicada pela Reuters.

Desafios da reportagem

No início da apuração, o maior desafio da reportagem era encontrar uma maneira de “quebrar” a narrativa oficial do governo e identificar, dentro das operações realizadas pela polícia, o que era legítima defesa e o que era execução. 

Enquanto a polícia afirmava que as mortes ocorriam em legítima defesa – os agentes que faziam operações à paisana nas favelas apenas reagiam às agressões dos traficantes – as famílias denunciavam que a polícia já chegava com as armas nas mãos e executavam as pessoas a sangue frio. “Muitas testemunhas falaram que ouviam vítimas implorando por piedade antes de serem executadas”, relata Marshall.

Na primeira etapa da investigação, Andrew e Clare passavam noites em claro nas delegacias de polícia, junto com outros repórteres filipinos, aguardando informações das autoridades sobre tiroteios.

A dificuldade para se ter acesso a informações confiáveis atrasava o avanço da reportagem. “Fisicamente, era terrível para nós”, lembra Clare. “Passamos dias nessa rotina de ver as cenas do crime e conversar com testemunhas para tentar entender o que estava acontecendo”. 

A estratégia adotada pelos repórteres, então, foi construir uma base de dados a partir de evidências colhidas na investigação, para auxiliar na checagem das informações. Assim, com os relatos obtidos nas entrevistas e a ajuda da contagem de mortos realizada pelos fotógrafos que registravam as cenas dos crimes, os jornalistas da Reuters identificaram que quando a polícia abria fogo nas operações de combate ao tráfico de drogas, eles matavam 97% das pessoas.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Vitória Macedo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário