11/09/2020

As interações entre diferentes gerações qualificam o jornalismo


A tecnologia gera modificações e promove debates sobre o consumo e produções jornalísticas.


Por Maria Carolina Sousa
Edição: Luana Copini


Os podcasts têm sido uma sensação para quem precisa consumir e absorver conteúdo rápido e de maneira acessível. Basta ter acesso a um aparelho celular e fones de ouvido, que você pode navegar pelos serviços de streaming disponíveis e conhecer centenas de produtores de conteúdo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope, no ano passado, 40% dos 120 milhões de internautas brasileiros, já ouviram algum programa de áudio.

Assim, há mais de um ano, Flávia Oliveira e Isabela Reis, mãe e filha, resolveram tirar do papel a ideia de criar um podcast para falar sobre diversos assuntos que são do interesse coletivo, com muita leveza, informalidade, intimidade e uma pitada de ousadia. Depois de vários episódios pilotos gravados e aquele frio na barriga, surge o Angu de Grilo, que recentemente foi indicado ao Prêmio Ubuntu de Cultura.
O nome do podcast é uma homenagem a mãe de Flávia que, segundo ela, dizia a expressão (que significa confusão) com muita frequência. Na verdade, todo o trabalho desenvolvido por estas mulheres negras de diferentes gerações têm um significado ligado a suas trajetórias de vida. O logo, por exemplo, é uma junção da caligrafia da avó de Isabela e as ervas são utilizadas na candomblé, religião seguida por ambas.

Os problemas da podosfera

Para Isabela, que escreve sobre questões raciais, feminismo e política em seu Instagram, o jornalismo ainda peca ao utilizar o podcast como plataforma de engajar o público jovem, utilizando o rosto e a voz de jornalistas mais velhos, que é o reflexo da realidade de grandes redações, onde se predomina um grande número de profissionais homens, acima dos 50 anos, que se autodefinem como brancos.

Para ela, falta mais oportunidades para as novas gerações, que são igualmente capazes e possuem experiências com os novos meios tecnológicos, além de uma visão mais crítica relacionada as agendas que também merecem cobertura, como a comunidade LGBTQI+ e o movimento negro. “Tem que ter mais gente jovem e fora do eixo São Paulo”.

Diante deste cenário, Flávia ressalta que o jornalismo sempre lidou com o etarismo, e relembra quando começou a entender mais sobre a importância da presença jovem na produção de conteúdos jornalísticos, observando a movimentação de grupos ativistas em prol da comunidade negra e suas raízes ancestrais.

“É como se estes jovens estivessem se relacionando e aprendendo com seus avós”. Para ela, esta troca é fundamental para apostar em inovações. “Assim não se faz jornalismo estereotipado”.

A representatividade foi outro tema abordado, especialmente quando Isabela traz um recorte da falta de negros nas redação. Percepção que também é representada em números: na pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Diesse) de 2015, apenas 22% dos jornalistas com postos formais eram negros.

Flávia medita sobre a necessidade de mudar o catálogo de entrevistados e fontes, para que estas não sejam as mesmas “figurinhas carimbadas” que se tornam especialistas de tudo, da mesma forma que não se deve ter uma pressão profissional e de expectativa quando um profissional negro conquista seu espaço.

Desafios da produção

Uma das grandes reclamações dos podcasters é a falta de remuneração por seus trabalhos. Plataformas como Spotify e Soundcloud não retornam financeiramente todo o processo e os gastos de produção que existem por trás de cada episódio. Uma alternativa usada pelo Angu de Grilo é a plataforma Orelo, que segundo Isabela é uma possibilidade para quem quer obter lucro sobre sua própria criação.

Questionadas por um dos participantes da live sobre a relação entre mãe e filha, durante as gravações, Flávia diz que todas as discussões que elas promovem são saudáveis e quando existe alguma discordância, é por conta de conflitos geracionais. “A gente já tem no gene desta família o debate acalorado”, brinca.

Ouça o podcast Angu de Grilo

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher.
Criação de arte: Camila Araujo.
Aquarela: Nayani Real. 

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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