13/09/2020

“Jornalistas não têm respostas exatas para conter mentiras”, diz Jeff Jarvis

Rosental Alves e Jarvis analisam a cobertura da mídia do Brasil e dos Estados Unidos sobre seus governos e o novo coronavírus

Por: Thuany Gibertini e Nayani Real

Edição: Nayani Real


Em painel sobre lições de desigualdade e injustiça e o papel do jornalismo em seus países, o jornalista Jeff Jarvis conversou com Rosental Alves, professor de jornalismo na Universidade do Texas e criador do Knight Center for Journalism in the Americas.

Jarvis comenta que a imprensa de seu país não sabe como lidar com o comportamento negacionista de governantes como Trump, Bolsonaro e outros. Após o resultado das eleições de 2016 nos Estados Unidos, ele conta que pediu conselhos a uma amiga jornalista da Argentina. “Ela disse que a informação seria cortada, receberíamos insultos e censuras. A imprensa daqui não está preparada para um governo tão autoritário”, pontua.


Como dizer a verdade

Jarvis destaca o papel das fake news enquanto estratégia política. O jornalista observa que, negar uma informação por vezes tem o efeito contrário, e isso acaba popularizando.

Por isso, sua sugestão para desmentir uma história é começar dizendo a verdade sobre ela. “Depois, contar que Trump disse o contrário e reforçar a mensagem verdadeira para finalizar”, exemplifica. O jornalista menciona o trabalho do The Washington Post, que contabilizou mais de 20 mil distorções de fatos feitas pelo presidente de seu país durante a gestão. A tentativa de minimizar os efeitos do coronavírus no posicionamento contra o isolamento social a partir de alegações negacionistas integra algumas delas.

Dar nome aos bois

Chamar uma mentira de mentira, racismo de racismo e, diante de violência policial, falar que o policial atirou e matou são coisas importantes. Os jornalistas optam por usar uma linguagem mais vaga com a intenção de tornar o trabalho mais objetivo. “Quando se usa uma abordagem direta, parece que iremos soar ativistas. É preciso admitir que somos ativistas”, declara o norte-americano.

A objetividade, analisa Jarvis, é um um mito que desumaniza os jornalistas, já que sugere superioridade. Além disso, ele divide ter aprendido que o conceito também é racista, considerando os padrões heteronormativos das redações. Logo, pedir que todos sigam suas diretrizes é silenciar a diversidade.

Em referência a outro painel do Congresso, “Racismo dentro e fora das redações”, Rosental enfatiza que, ao lidar com os direitos humanos e violações abertas, o importante é expor que aquilo não é certo, não se preocupar com objetividade. “Isso não é ativismo, é jornalismo em sentido mais comum”, conclui.

O método científico pode melhorar o jornalismo

Jarvis critica a cobertura atual por tratar a pesquisa científica como a última descoberta da história, sendo que a ciência não funciona assim. “Em uma semana fazem uma notícia falando que vinho tinto faz mal a saúde, na semana seguinte, o vinho tinto cura. É preciso dar o contexto da ciência que foi feita antes e depois.” Apesar das críticas, ele é otimista e diz que a pandemia está ensinando jornalistas a identificar especialistas.

Com a intenção de dar voz a epidemiologistas, virologistas e pesquisadores, ele criou uma lista no twitter que reúne diversos profissionais e suas pesquisas sobre a Covid-19. “Eu entrevistei quatro especialista sobre como deveríamos fazer a cobertura da pandemia. Todos querem dedicar tempo para ajudar os jornalistas a informar a sociedade”, comenta.

Para o professor, os jornalistas precisam investigar com psicólogos e cientistas cognitivos para entender como comunicar melhor o que é verdade. “Seria muito interessante se pudéssemos aprender o método científico, especialmente para abordar questões importantes da sociedade.” Pesquisas científicas anteriores, levantamento de hipóteses e teses para a construção da ciência podem colaborar para um bom jornalismo.

Finalizando a mesa, Jarvis traz uma visão otimista sobre o futuro da profissão. “Eu não tenho sido suficientemente radical. Enxergo o jornal no mundo analógico e sempre me forço a dizer que não sei o futuro. Os nossos estudantes irão inventá-lo de forma surpreendente.”, conclui.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Mikael Schumacher
Aquarela: Nayani Real


A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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