12/09/2020

Falta de dados é método do Estado para ocultar violência policial

Jornalistas do Fantástico contam os bastidores de reportagem que mostrou que, a cada 84 minutos, a polícia mata uma pessoa no Brasil.

Por Camilo Mota e Cassiane Lopes
Edição: Raquel Brandão


Encontrar números que mostrassem que a violência policial estava se intensificando e fazendo mais vítimas nas periferias do país, foi o grande desafio para a repórter Sônia Bridi, a editora Nancy Dutra e os produtores James Alberti e Mônica Reolom, do Fantástico, programa dominical da Rede Globo.

Como não existe no Brasil órgão federal que consolide os registros da violência nos Estados, os produtores tiveram que montar sua própria base de dados, por meio de solicitações via lei de acesso à informação, para todas as secretarias estaduais. 

Com forte trabalho de apuração, a produção da reportagem teve início em setembro, mas ela só foi ao ar em janeiro deste ano, mostrando que em 2019 mais de 4 mil pessoas foram mortas pelas forças policiais brasileiras. Ainda, de acordo com o levantamento dos jornalistas, a cada 84 minutos, uma pessoa morre pelas mãos do Estado no Brasil.

Depois de muitos anos morando em outros países e se dedicando à cobertura internacional, uma das principais questões para Sônia era entender a razão de tantos casos de violência no país.

Esse questionamento levou a repórter a propor duas pautas: uma sobre a letalidade das polícias militares e outra sobre o acesso às armas. Sônia e Nancy contaram os detalhes sobre o trabalho de apuração na palestra “Bastidores de Reportagem: violência policial e acesso às armas”, apresentada por Antonio Junião, diretor de arte e projetos especiais da Ponte Jornalismo.

Para desmistificar as histórias e o senso comum de que “bandido bom é bandido morto”, os jornalistas tiveram que juntar as narrativas, encontrar dados e deixá-los claros. “Esse discurso [‘bandido bom é bandido morto’] ajuda a dificultar o acesso aos dados, às informações públicas. Fomos atrás dos dados para mostrar que existe, sim, uma tendência: a polícia está matando mais e mata um tipo bem específico. São jovens negros, pobres e da periferia”, diz Nancy.

Essa racialização cada vez mais presente na cobertura jornalística foi um dos pontos destacados por Junião na condução do painel. “O jornalismo está respondendo aos apelos dos movimentos sociais. Tem que falar a cor para mostrar que é um problema existente. Os corpos negros e periféricos são alvo [da violência].”

Um dos episódios que melhor representou as dificuldades encontradas pela equipe de reportagem envolveu a Polícia Militar do Rio de Janeiro, onde as forças do Estado responderam por um em cada três assassinatos e por 40% das mortes no Brasil. Sônia conta que na sexta-feira antes da reportagem ir ao ar, conseguiu uma entrevista com o porta-voz da PM do Rio, Mauro Fliess.

Na conversa, entre outros pontos, a morte da menina Ágatha Félix, de oito anos, foi questionada. “A dinâmica não foi boa”, lembra a jornalista, explicando que, depois disso, a pasta afirmou não ter os dados de dezembro de 2019, necessários para a conclusão do levantamento. No domingo, quando a reportagem iria ao ar, a equipe foi surpreendida com os números publicados em uma coluna de um jornal.

“A falta de dados é um método para esconder a realidade. Ela não é uma dificuldade em produção de dados, é um método para garantir a impunidade do Estado no abuso da força”, avalia Sônia. A jornalista diz que a polícia não segue as regras para o engajamento armado e ressalta que, o que se sabe ao ter algum contato com a realidade da violência no país é que “o excludente de ilicitude já existe e é exercido na falta de investigação nas mortes por policiais”.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Cassiane Lopes
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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