12/09/2020

'A Máquina do Ódio' e 'Tormenta': jornalistas expõem entranhas do bolsonarismo em livros

 Patricia Campos Mello e Thaís Oyama falam sobre os bastidores da apuração jornalística que resultou nos livros que impactaram os meios político e jornalístico este ano

Por: Redação
Edição: Leandro Melito


Dois livros já em circulação nas livrarias brasileiras e que impactaram os meios político e jornalístico do país foram relançados nesta sexta-feira (11), no primeiro dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. 

Em comum, A Máquina do Ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital da jornalista  Patricia Campos Mello, repórter especial da Folha de S. Paulo e Tormenta - o governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, da jornalista Thaís Oyama, colunista do UOL, trazem elementos de investigação jornalística que ajudam a entender a formação do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e seu método de fazer política. 

A máquina do ódio

Clique na foto para ler entrevista exclusiva com Patricia Campos Mello
 
Em A máquina do Ódio, Mello parte de uma série de reportagens iniciadas ainda durante as eleições de 2018, quando revelou em uma reportagem publicada na Folha de S. Paulo a compra de disparos em massa via WhatsApp pela campanha de Jair Bolsonaro, que ela classifica como um político “populista digital”.

Para exemplificar o fenômeno do bolsonarismo e seus métodos de atuação, especialmente nos meios digitais, a jornalista recorre a outros líderes com o mesmo alinhamento político de Bolsonaro, como o  presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi. A jornalista cobriu eleições nos EUA em 2008, 2012 e 2016, e na Índia em 2014 e 2019.

Mello explica que a ideia inicial do livro era abordar a atuação digital desses candidatos populistas influenciar os resultados eleitorais durante suas campanhas, mas tomou outro rumo quando os ataques orquestrados por bolsonaristas nas redes se voltaram contra ela e seu trabalho jornalístico.

“Entrou minha história pessoal, que não tinha no começo, mas como é uma coisa relevante pra esse tipo de governo, acabei incluindo. Tem uma coisa muito específica com mulheres, uma coisa muito misógina. Conforme isso foi acontecendo, resolvi mostrar o tipo de ataque”, conta a autora.

Tormenta

A investigação de Thaís Oyama que deu origem ao livro Tormenta também começou com uma reportagem, quando ela atuava como redatora-chefe da revista Veja e acompanhava uma excursão de Bolsonaro, então um deputado federal do baixo clero, por estados do Nordeste em 2017.

Assim que desembarcou no aeroporto do Piauí, Oyama presenciou uma multidão eufórica que colocou Bolsonaro nos ombros, “que foi sendo levado por aquela onda de gente” aos gritos de mito.

“Foi uma viagem que me impressionou muito porque, onde ele ia, isso acontecia. Eu Já tinha feito a cobertura de várias eleições e nunca tinha visto nada parecido, nem com o Lula”, conta.

A matéria foi publicada na revista como “A Onda Bolsonaro”, com a percepção de que aquele seria um fenômeno passsageiro.

Em 2018, com a campanha presidencial em andamento, ainda levou um tempo até que a viabilidade eleitoral de Bolsonaro fosse encarada com um fato entre os profissionais da imprensa. “Demorou muito para a ficha de todo mundo cair. Nós jornalistas ficamos até o último momento nessa dúvida, sem saber se ele iria ser eleito”, lembra Oyama. 

Foi nesse momento que a jornalista decidiu que queria se dedicar mais ao tema. “Eu intuía pelo que eu tinha visto e pelo que eu conhecia desse deputado que, se ele ganhasse, ia ser um governo muito peculiar”, conta.

Com a vitória de Bolsonaro no primeiro turno, a jornalista propôs a algumas editoras a realização do livro e, ao receber uma resposta positiva da Companhia das Letras, pediu demissão da Veja - onde trabalhou por 18 anos - para se dedicar exclusivamente ao projeto. 

A jornalista ressalta que encontrou uma conjuntura favorável para realizar a apuração do livro mas considera, se fosse hoje, o trabalho não seria possível.

“Tive sorte porque era um governo novo, ninguém conhecia muito bem. Todo mundo estava pisando em terreno desconhecido. Acho que hoje eu não conseguiria fazer esse livro. Ele [Bolsonaro] não estava desarmado, mas estava pisando num terreno desconhecido, o que permitiu que eu tivesse acesso a determinadas fontes”, afirma.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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