12/09/2020

Jornalistas ansiosos se tornam um perfil comum na cobertura da Covid-19

A pandemia amplificou em cerca de 61% os casos de jornalistas com transtornos emocionais, mas protocolos sobre saúde mental ainda são pouco debatidos nas redações

Por Douglas Figueiredo e Rafael de Toledo
Edição: Dario Vasconcelos


Falar sobre saúde mental no campo profissional, para muitos, ainda é um tabu e com o jornalismo não é diferente. Relatos de transtornos de ansiedade e estresse não são novidades nas redações de grandes veículos. No entanto, estudos mostram que a pandemia alterou significativamente o lado psicológico de jornalistas que alegam, por exemplo, o aumento da pressão no trabalho.

Neste sábado (12), o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, convidou os jornalistas Meera Selva, diretora do programa de bolsas do Instituto Reuters para Estudo de Jornalismo, no Reino Unido, e Guilherme Valadares, fundador e diretor do Papo de Homem, para revelar quais são esses desafios para os profissionais da imprensa.

Com mediação de Luiza Bodenmüller, gerente de estratégia do Aos Fatos, os profissionais falaram sobre a “Saúde Mental dos Jornalistas em Tempos de Pandemia”, tema da mesa de discussão.

Influência da pandemia na saúde mental dos jornalistas

Meera Selva ressalta que “o fato de grande parte dos jornalistas não serem especializados em cobertura de saúde, fez com que eles se sentissem incapazes de transmitir a informação adequadamente, e isso provocou uma pressão psicológica neles”.

A declaração da jornalista retoma o resultado da pesquisa sobre condições de trabalho dos profissionais de comunicação em meio à cobertura sobre o novo coronavírus, realizado pela Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ). O estudo apontou que 61,25% dos jornalistas brasileiros tiveram aumento do nível de ansiedade e estresse com o trabalho, durante o período pandêmico.

Para Guilherme Valadares, “ser jornalista, hoje, é ainda mais estressante do que sempre foi”, mas, segundo ele, as instituições chegaram a um ponto em que não se consegue pensar em um único setor da redação que não necessite de terapia. O profissional destaca que cuidar da sua saúde emocional “é um ato de responsabilidade consigo próprio, com os colegas de redação, e com quem nos lê, nos assiste e nos escuta”.

Cultura do silêncio

O silenciamento de jornalistas perante à saúde mental possui um histórico antigo, sustentado no encobrimento de longas jornadas de trabalho, baixa remuneração e constante ameaça à integridade física e moral de comunicadores. Uma das práticas que assevera o fato é a ausência de uma política de saúde ocupacional.

Além da constante pressão interna, profissionais se veem minados pelos ataques sofridos nas redes sociais. Desde perfis isolados até organizações que buscam deturpar a prática jornalística, as ameaças surgem como formas de silenciamento e punição por discordância, geralmente, ideológica.

Para Meera é importante que os jornalistas se defendam dessas práticas pautando o trabalho na transparência de quem são, e de como as reportagens são realizadas. A informação deve ser o foco da atenção da população, de maneira imparcial e apartidária. Apresentar a diferenciação de temas - no caso, política e saúde - pode proporcionar à população maior compreensão sobre a gravidade da pandemia.

Redução de danos

A conquista de novos modelos de comportamento nas grandes redações é um dos passos para melhorar conjuntamente o modus operandi de trabalho. Segundo Valadares, a presença de um psicólogo nas redações é um caminho a ser trilhado ainda pelo jornalismo. O jornalista revela, ainda, que “é mais fácil o coletivo se estruturar e tentar se posicionar para a liderança”, do que uma pessoa se manifestar sozinha.

O início do diálogo nas redações pode ser acompanhado de treinamentos e protocolos de saúde mental. Contudo, essa mudança também pode ser traçada a partir do âmbito individual.

Segundo Bruce Shapiro, diretor executivo do Centro Dart para Jornalismo e Trauma na Universidade Columbia, citado por Valadares, é necessário que o jornalista achate a curva de estresse, promovendo momentos de inatividade em sua rotina. Desta forma, a resiliência requisitada no jornalismo seria conquistada também por meio do descanso dos profissionais que atuam na área.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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