13/09/2020

Cinco dicas essenciais para uso de estatísticas no jornalismo

Muitos jornalistas fogem das estatísticas por acharem que o tema requer grande preparo técnico, mas isso está longe de ser verdade

Por: Paulo Yamamoto e Thuany Gibertini

Edição: Rafael Sampaio

Muitos jornalistas se afastam do estudo de estatísticas por pensarem que o tema é complexo e requer um grande preparo técnico. Isso está longe de ser verdade. Para desmistificar o assunto, o 15.º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) trouxe o 2.º Domingo de Dados, neste dia 13 de setembro, com várias oficinas e palestras sobre linguagens de programação, análise matemática e manuseio de dados.

A oficina de estatísticas para jornalistas foi ministrada pela jornalista de dados Renata Hirota, que trabalha na Associação Brasileira de Jurimetria, e pela cientista de dados Maria Marinho, que trabalha SulAmérica e atuou na área de TI (Tecnologia de Informação) como desenvolvedora de sistemas. Ambas fazem parte da comunidade R-Ladies, uma organização que promove a diversidade de gênero no universo de programadores em linguagem R.

A interação entre jornalismo e estatística pode ser relevante e construtiva, aponta a palestra ministrada. Veja cinco dicas compiladas pela equipe do Repórter do Futuro para ajudar jornalistas que querem entender melhor o tema:

  1. Estatística ajuda a interpretar corretamente as informações

Independente da editoria em que um jornalista atue, sua rotina será pautada pela checagem de informações. Em algum momento, será necessário trabalhar com números e dados - seja para saber a arrecadação de bilheteria de um filme, no caso de quem cobre Cultura, seja em previsões do resultado de uma partida de futebol, para quem cobre Esportes. Ou mesmo em setores que usam estatísticas em sua rotina, como Política e Economia.

Olhar os dados como aliados é importante, na opinião de Hirota. Não é preciso ter amplo nem profundo conhecimento em matemática. “Mas é sempre bom saber um pouquinho porque muitas vezes a gente tem dúvidas”, diz a jornalista. “Precisamos ter as ferramentas necessárias para questionar os direcionamentos das nossas pautas”.

A interpretação dos dados fazer com que ótimos leads surjam ou que reportagens caiam. Para ilustrar, Hirota conta uma piada ouvida do jornalista Daniel Bramatti: “jornalistas de dados dentro das redações são conhecidos como grandes zagueiros, porque derrubam pautas”.

    2. A escolha dos gráficos deve favorecer as informações

A cientista de dados Maria Marinho explica a importância de se ter conhecimento dos tipos de dados que serão coletados e utilizados para saber como aplicá-los no melhor formato de gráfico. Há dados qualitativos, que podem ser nominais ou ordinais, e quantitativos, que podem ser discretos ou contínuos.
                          

Sabendo categorizar os dados, há uma infinidade de possibilidades para traduzi-los em gráfico. “Gráfico de pizza, não!” essa é a “dica de ouro” que Marinho dá para os jornalistas. A utilização deste tipo de gráfico está banalizada e massificada, não informa os dados de forma clara. Existem alternativas melhores ao uso do “gráfico de pizza”.

A palestrante sugere o uso do gráfico de barras, por exemplo, porque, por meio dele, é possível ter uma visualização melhor da proporção das amostragens e facilita a leitura da informação. “É importante escolher os tipos de gráfico para os dados e para o público” explica Marinho.

Ela cita também os gráficos mais utilizados e em que situação cada um pode ser aplicado:

Gráfico de barras: É utilizado para resumir um conjunto de dados, comparando quantidades ou demonstrando valores pontuais de um determinado período.

Gráfico de linhas: É usado para analisar dados ao longo do tempo. É bastante utilizado para representar tendências nos dados quantitativos, pois mostra o crescimento ou decrescimento de um fenômeno/processo em um determinado período.

Gráfico de dispersão: Este tipo de gráfico é útil para analisar relação entre duas variáveis quantitativas.Uma delas é a variável independente (causa) e a outra, uma variável dependente (efeito).

Histograma: Este modelo permite representar visualmente a distribuição de frequência dos dados (quantitativos contínuos).

Boxplot: É utilizado para avaliar a distribuição de dados quantitativos.

 

3. Cuidado para não usar dados reais e tirar conclusões falsas

A jornalista de dados Renata Hirota alerta que dados reais podem levar a conclusões falsas ou serem utilizados para induzir ao erro. “Dependendo de como você usa as suas medidas e os seus dados, pode dar uma distorcida na realidade”, diz ela - por isso é sempre importante ter um olho aberto na hora que chegar a uma conclusão com base em números e contar com a revisão de um editor ou chefe de reportagem.

Um exemplo utilizado na oficina para ilustrar este perigo é a conhecida “fálácia ecológica”, que ocorre quando a interpretação dos dados gera uma conclusão baseada em indivíduos a partir do comportamento de um grupo maior. 

O equívoco na interpretação de dados pode se dar, por exemplo, ao comparar - a nível mundial - o consumo de cigarro per capita com a expectativa de vida: nesta análise, é possível concluir que os países onde mais se consome cigarros têm maior expectativa de vida, como é o caso da China, país em que mais se consome tabaco no mundo e também obteve um aumento de 42 anos em um curto período histórico. Concluir que o uso da droga está correlacionada com a longevidade, no entanto, é uma falácia. Estes fatos são correlatos e aplicados em um contexto amplo (a nível de país e mundo), e não devem ser aplicados a indivíduos.

Assim, para evitar precipitações o profissional deve estar atento aos dados e sua devida interpretação. Dessa forma, a apuração ganha mais precisão.

4.Você escreverá melhor se aprender um pouquinho de estatística


O poder de interpretar a realidade cresce quanto mais cresce o conhecimento de um profissional sobre estatística e gráficos. Isso se reflete no texto e também nas escolhas visuais, como fotos e infográficos. É o que ensina a oficina dada neste domingo por Hirota e Marinho.

A cientista de dados da SulAmérica diz que didatismo é uma das partes mais importantes na hora de trabalhar com estatísticas. “É sempre bom pensar nessa forma de representação, qual a melhor representação do dado [em um texto]”, pondera. O que pode ser feito para garantir que a interpretação seja a mais fácil possível para o leitor? Eis a pergunta a ser respondida pelo jornalista.

Outra dica fundamental para o jornalista: pense como um designer. Isso significa fazer escolhas, contar uma história com os dados e com as imagens e focar a atenção do leitor onde se deseja, evitar dispersá-lo com informações exageradas ou excessivas.

Várias dicas apresentadas constam em um livro indicado por Marinho: Storytelling with Data, escrito por Cole Nussbaumer Knaflic.


5. Compare dados só quando é possível a comparação


Uma dica clássica ao trabalhar com estatística é: “sempre compare laranjas só com laranjas”. O que isso significa? Que é necessário evitar comparações de dados que foram coletados em diferentes amostras, diferentes períodos de tempo ou diferentes públicos.

Por exemplo: o jornalista deve evitar comparar uma pesquisa eleitoral sobre a opinião dos votantes a respeito dos prefeitos em Campinas (no interior de São Paulo) em 2016 com uma pesquisa de opinião sobre candidatos à Presidência da República em 2018. São dois universos distintos, com dois objetivos distintos e situadas em dois espaços temporais distintos.

Deve-se procurar, sempre que possível, comparar dados que tenham surgido do mesmo recorte de tempo, de espaço e com a mesma metodologia. Nem sempre isso é possível, mas é uma boa prática.

Hirota comenta outra boa prática a ser seguida por quem está interpretando dados na fase de apuração de reportagem. “É importante colocar [as informações] em um gráfico, explorar as variáveis antes de começar a tirar conclusões. Isso porque, às vezes, não se enxerga de fato o que os dados indicam”.

Lembre-se:dados de educação devem ser comparados com dados de educação, não de saúde - assim como laranjas devem ser comparadas com laranjas, não com abacaxis!


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Camilo Mota

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.  


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