13/09/2020

Histórias também exigem dados para ganhar mais relevância

Buscar fontes confiáveis e oficiais, extrair dados, verificá-los, limpar a base e analisar estão entre as principais funções do jornalista de dados, além de narrar histórias com esses números

Por: Patrick Freitas e Mariana Lima


Novas narrativas podem surgir de todos os lugares, inclusive de tabelas. O jornalismo de dados é uma das áreas que mais cresce dentro das redações do mundo todo, e a sua importância é mensurada pela qualidade daquilo que se pode produzir com os dados. Estes devem ser tratados com cuidado, uma vez que, “quando torturados, os números podem dizer qualquer coisa", como afirmou a jornalista Amanda Rossi, no 2º Domingo de Dados, do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Junto de Rossi, Natália Mazotte, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil e co-fundadora da Escola de Dados, ambas participaram da mesa “Jornalismo de dados, dê seus primeiros passos”, que destacou a importância de trabalhar os dados com histórias humanas. “Há histórias que sem os dados ninguém consegue saber que existe. Navegando pelas bases de dados se descobre histórias inéditas, furos de reportagem”, aponta Rossi.

Narrativas e dados andam juntos

“Se você enche a reportagem de números, as pessoas não vão ler. Saber construir uma narrativa com dados é fundamental para que o conteúdo tenha relevância. Fazemos a reportagem para além dos números. Não somos especulativos. Não estamos procurando dados para embasar certezas”, pontua Rossi.

No jornalismo de dados, a partir da curiosidade, criam-se hipóteses para guiar e possivelmente responder aos questionamentos levantados, mas que devem estar abertas para serem refutadas. 

“A hipótese é uma afirmação provisória. Não pode ser apenas para confirmar algo que acreditamos. Tem de ser desafiada e, no final, deixar os resultados abertos para que outros possam refutar. Deixe interrogações, não exclamações. Não torture os dados em busca de uma confirmação pessoal”, argumenta Mazotte.

Cuidados com os números

A co-fundadora da Escola de Dados aponta que um dos caminhos para evitar as frustrações ao trabalhar com dados é saber perguntar. “Faça perguntas relevantes para os dados. O que queremos descobrir? O que o dado tem a nos oferecer? É importante entender que os dados têm limitações e que podem não ter todas as respostas.”

Como exemplo, ambas citaram a reportagem que produziram para a Gênero e Número, em 2016: “Partidos recorrem a candidatas “fantasmas” para preencher cota de 30% para mulheres”. Na produção da reportagem, elas buscaram responder se a Lei de Cotas, que reserva 30% das candidaturas dos partidos para mulheres no Brasil, estava sendo cumprida e se havia um retorno na presença feminina na política. 

“Os dados nos responderam isso. Quando analisamos e vimos que algumas candidatas tinham zero votos, sabíamos que tinha algo ali”, relembrou Mazotte.

Apesar da experiência positiva, em que as respostas foram obtidas, Rossi pontua que é necessário estar preparado para que o trabalho não saia do lugar.“O jornalista de dados é um explorador. Você tem que ter consciência de que às vezes vai encontrar um diamante e em outras, apesar de um trabalho longo, não vai sair nada”, diz.

Características para uma boa apuração

Mazotte e Rossi refletiram sobre as principais características do que esperar do jornalista de dados: um bom analista de estatísticas, um bom produtor de reportagens e paciência, pois a boa análise de dados leva tempo para ser apurada.

Houve a apresentação do fluxo de trabalho, também conhecido como Data Pipeline, com passos que vão da indagação, obtenção dos dados, verificação, até apuração e apresentação. Muitos jornalistas de redações e freelancers utilizam este passo a passo. Ainda devem existir os cuidados com os erros, como de leitura e exclusão de dados, além dos chamados vieses cognitivos, onde o nosso cérebro pode querer nos enganar por meio de falsas confirmações.  

O futuro do jornalismo de dados

No bate-papo ao vivo com as palestrantes, foi perguntado sobre como o jornalismo de dados vem avançando como uma matéria nas universidades brasileiras. Sobre isso, Mazotte disse que o tema vem crescendo em cursos de pós-graduação, mas ainda são raras as universidades que oferecem o jornalismo de dados na grade curricular do curso de jornalismo.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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