12/09/2020

Entrevista exclusiva: Neena Kapur, do The New York Times, revela bastidores do combate a ameaças digitais

O que a gerente de inteligência de um dos maiores jornais do mundo tem a dizer sobre a proteção de dados de jornalistas

Por: Gustavo Honório e Rafael de Toledo

Edição: Wender Starlles

Tradução: Artur Alvarez, Gustavo Honório e Rafael de Toledo

Liderar uma equipe e traçar estratégias de segurança digital em um dos jornais mais importantes do mundo é uma tarefa desafiadora. Neena Kapur faz esse trabalho desde 2019. Interessada em geopolítica e nas interações que os países mantêm com o ciberespaço, ela encontrou uma maneira de disseminar a importância do assunto.

Desde então, Kapur trabalha no combate e na prevenção de ataques e abusos sofridos por jornalistas no ambiente virtual. Uma das formas de ameaça com a qual a especialista lida é o doxing - prática de obter dados privados de uma pessoa e torná-los públicos na web-, tema do painel "Doxing e outras ameaças de segurança digital contra jornalistas", mediado por Patricia Campos Mello, repórter especial da Folha de S. Paulo, no primeiro dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Em entrevista exclusiva, a responsável pela proteção digital dos jornalistas do The New York Times destaca bastidores da segurança e comenta sobre a importância de ensinar pessoas se prevenirem de ataque.

Confira a entrevista:

Repórter do Futuro: O que exatamente é o trabalho de uma gerente de inteligência de segurança em um dos jornais mais importantes do mundo?

Neena Kapur: Meu papel é fazer a segurança proativa e pesquisas de monitoramento. Muitas equipes de segurança, especialmente as menores, têm que reagir quando alguma coisa ruim acontece. Elas se mobilizam para consertar os problemas. Nossa equipe está um pouco maior agora, podemos nos dedicar mais na busca de ameaças que tenham como alvo os jornalistas e seus artigos. 

O que motiva você no trabalho?

Trabalhar com a defesa de jornalistas é único. Ao longo do dia, a notícia tem que sair. Se a segurança compromete a publicação, isso significa que ela não é boa. Por isso, pensamos em como as práticas de proteção podem ser incorporadas à rotina desses profissionais. Por meio da troca de experiência com outros jornalistas também é possível aprender novas técnicas.

Como você se interessou pela área e por que decidiu trabalhar com segurança de dados no jornalismo?

Participei de jornais no Ensino Médio. Quando estive na faculdade, as notícias sempre estiveram próximas a mim. A oportunidade de trabalhar no The New York Times surgiu e senti que, assim, ajudaria jornalistas a proteger pessoas que realizam trabalhos importantes. Leio os jornais todos os dias e é estimulante fazer parte disso. 

Minha primeira função é olhar para diferentes agentes cibernéticos de vários países, motivados por razões distintas. Não somente sobre aqueles que atuam com propósito político em Estados-Nações, mas também sobre como grupos criminosos, que muitas vezes sofisticam suas ferramentas, podem lucrar com essa atividade e como influenciam em eventos globais. Em períodos eleitorais, eles conseguem oportunidades alavancando perfis falsos. Observá-los ajuda a entender como camadas da sociedades estão mapeadas pelo ciberespaço. 

O mundo e o jornalismo estão se movendo em direção a um espaço cada vez mais digital. Como você enxerga o futuro da imprensa em relação à segurança na internet?

Uma das coisas que eu devo dizer aqui sobre segurança digital: esse tema é essencial. Todos deveriam aprender. Na teoria, meu trabalho não precisaria existir. As pessoas poderiam utilizar métodos que aprenderam nas escolas e faculdades.

Uma das funções do jornalista é promover o trabalho nas mídias sociais e interagir com seu público. Isso é ótimo, mas, ao mesmo tempo, assédios e abusos se tornaram algo estranhamente comum. Por isso, devem existir discussões e suporte no entorno destas práticas. É difícil ouvir que jornalistas são resistentes e conseguem lidar com isso. Internamente, eu penso: “por que eles têm que lidar com isso? Por que não pensamos de uma forma diferente?”.  

Nós oferecemos alguns sistemas de suporte para os verdadeiros monstros: o ódio e o abuso nas redes sociais. Acredito que esse seja um componente essencial às perspectivas de saúde mental na internet. 

Os jornalistas também podem se aproveitar do doxing?

Jornalistas não são doxers. Eles estão fazendo pesquisas e publicando informações e, às vezes, cometem erros, mas não intencionalmente, o que é muito diferente do doxing. Por isso, acho que a mistura desses dois conceitos possibilita argumentos para pessoas que acham que o jornalismo atua de maneira suja, quando, na verdade, não é o que acontece.

O jornalismo pode levar pessoas a querer realizar doxing em relação a outras pessoas. Essa é outra discussão, mas não acho que o doxing beneficia o jornalismo. Acredito que, de alguma maneira, as pessoas tentam alegar que a imprensa pratica o doxing e, por isso, justificaria fazer isso contra os próprios jornalistas. 

Você conversou com a Patrícia Campos Mello sobre doxing. No Brasil, além de sofrer esse tipo de ataque, ela foi publicamente ofendida pelo presidente Jair Bolsonaro. Essa notícia reverberou nos Estados Unidos?

Sim. Acho que mostra que há muitas semelhanças entre os presidentes dos EUA e do Brasil. Eles descreditam o trabalho de jornalistas para proteger a si mesmos e passar uma impressão falsa ao povo de que estão fazendo bom trabalho. 

Trump trata os jornalistas como os inimigos do povo nos Estados Unidos. Por exemplo, o NYT é chamado de “New York Times Falido”. Isso tem muito poder na sua base eleitoral, e os faz pensar que é aceitável atacar jornalistas. Ou seja, vemos comportamentos muito semelhantes por aqui, não só nas palavras do líder, mas nas ações das pessoas que o apoiam. As redes sociais têm muito poder nisso. 

Em algumas semanas, haverá eleições presidenciais nos EUA. Os esquemas de segurança adotados pelos jornais mudam por conta disso?

Uma das coisas que fazemos é focar no assunto que estamos tratando e quais tipos de agentes estamos buscando. 

As eleições dos EUA são um exemplo de evento global. Então, focamos nossos esforços em identificar ameaças que podem afetar as eleições, os jornalistas e o New York Times. Isso nos ajuda a construir defesas. Ensinamos os jornalistas a como se comunicar nesse ambiente de risco mais elevado. 

Recentemente, no Brasil, uma extremista de direita expôs dados de um criança de 10 anos que foi estuprada e submetida a um aborto legal, para tentar impedir o procedimento. Qual seria a maneira mais efetiva de fazer as redes sociais removerem com urgência conteúdos em situações tão graves como essa?

Inicialmente, a melhor ação seria reportar e fazer com que outras pessoas reportem. Não é uma boa resposta, mas diria que a segunda coisa seria tentar contatar alguém que trabalhe na plataforma, seja por meio de um advogado ou algo do gênero. Essas coisas se espalham como fogo. Mesmo com a remoção de um post, nada vai adiantar, porque ainda haverá muitos outros posts iguais. Então, eles têm que estar a par da situação. 


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Cassiane Lopes
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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