12/09/2020

Ataques virtuais são nova forma de censura, diz Patricia Campos Mello

Repórter especial da Folha diz que redes virtuais de ódio são “ecossistema” descentralizado e que tentam intimidar jornalistas

Por: Rafael Sampaio
Edição: Leandro Melito

 
Uma das mais premiadas jornalistas brasileiras da atualidade, a repórter especial da Folha de S. Paulo, Patricia Campos Mello relata em entrevista ao Repórter do Futuro como os ataques de ódio e a disseminação de fake news via aplicativos e redes sociais, como WhatsApp e Facebook, tornaram-se uma nova forma de tentar calar quem faz jornalismo no país.

Ao contrário da crença comum de que a distribuição de mensagens de ódio e fake news partem de algum comando central ou da ação de robôs, Mello pondera que, antes de tudo, essa prática tem a seu favor o fato de ser descentralizada.

Os propagadores de ódio virtual contam com um “ecossistema”, que inclui desde os perfis de redes sociais do presidente Bolsonaro e de seus filhos, blogs conservadores, canais de YouTube de influenciadores de direita, perfis de legisladores bolsonaristas e muita gente de carne e osso - pessoas que leem e acreditam nas mentiras disseminadas na internet.

“Quando você tem governantes endossando esse tipo de mensagem agressiva, ou mesmo estimulando, isso ganha uma amplitude muito maior”, analisa Mello. Para ela, jornalistas não devem se calar. Conseguir “viralizar” uma reportagem apurada, checada e com sólida base em informações é um dos desafios principais nas redações.


 Mello é autora do livro A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital, cujo lançamento faz parte da programação do 15º Congresso Brasileiro de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

 

O livro tem como ponto de partida uma série de reportagens da jornalista sobre a compra de disparos em massa via WhatsApp nas eleições de 2018, mas não se atém apenas a este caso - a importância crescente das redes sociais em eleições pelo mundo também é abordada - Mello cobriu eleições nos EUA em 2008, 2012 e 2016, e na Índia em 2014 e 2019. 

 

A obra debate como aplicativos de mensagens e redes sociais tem servido de arena para manipulações de líderes populistas e seus seguidores pelo planeta.
 

Leia abaixo a entrevista completa:

Repórter do Futuro: Como tem sido, para você, ser alvo de tantas fake news e de ódio nas redes sociais desde que começaram as suas investigações?

Patricia Campos Mello:
Eu e vários outros jornalistas [nos tornamos alvos]. Isso se tornou um método, é uma coisa muito sistemática feita por parte de apoiadores do governo [federal] que tem o intuito de intimidar e de fazer com que paremos de fazer investigações.

Eu não sou a única, tem vários jornalistas [sendo alvos]. Posso falar principalmente das mulheres - Miriam Leitão, Vera Magalhães, tem muitas. E é claro que é super agressivo e é muito assustador, mas a gente tem que continuar fazendo nosso trabalho.

Uma “máquina do ódio” como a que você identificou é mais grave quando nasce do seio de um governo? Por quê?

Eu chamo de “máquina do ódio” porque não acho que exista uma coisa única. Todas essas operações de desinformação são muito descentralizadas. Você pode ter uma parte disso que é ligada ao chamado “gabinete do ódio”, ligada ao governo, onde você tem gente fazendo análise de redes sociais, determinando quais são os focos do dia, mas tudo isso [grupos de ódio e fake news] só funciona porque é um ecossistema.

É um ecossistema em que você tem, por exemplo, os perfis de redes sociais do próprio presidente [Bolsonaro] e dos filhos deles, dos aliados, dos legisladores bolsonaristas, mais os influenciadores de direita, mais os blogs bolsonaristas, e mais pessoas de carne e osso que acreditam nisso e que amplificam isso. Então todo esse ecossistema é necessário para você poder amplificar.

É claro que quando você tem governantes endossando esse tipo de mensagem agressiva, ou mesmo estimulando, isso ganha uma amplitude muito maior.

Como você avalia que esses grupos de ódio e de disseminação de fake news afetam o trabalho dos jornalistas brasileiros?

Eu acho que, de alguma maneira, isso funciona como uma nova forma de censura. Durante a ditadura militar, você tinha aquela censura “clássica”, que era o censor dentro de uma redação, obrigando a retirar textos, jornais tendo que publicar poemas de Camões no lugar. Hoje em dia, você tem esse tipo de operação de assassinato de reputação ou de perseguição sistemática, e isso tem um efeito. 


"Nosso desafio  é fazer viralizar as checagens de informação, as matérias jornalísticas verificadas, apuradas, equilibradas, porque é uma competição desigual. As notícias falsas viralizam muito mais do que as notícias verdadeiras"


 

É óbvio que, quando a gente vai escrever alguma coisa, vai fazer uma matéria, você para pra refletir. E pensa: ‘nossa, isso é uma matéria delicada, é uma investigação. De onde será que vem o ataque [das redes de ódio]? Será que vão agredir a mim? Será que vão agredir minha família? O que vai acontecer dessa vez?’
 

É uma coisa [esses ataques de assassinato de reputação] que tem objetivo de intimidação e obviamente que isso assusta.

As redações precisam se adaptar a essa nova realidade para superá-la? Ou iniciativas como as de fact-checking são suficientes para inibir “fake news”?
 

Acho que as iniciativas de checagem de fatos são absolutamente essenciais, são um serviço muito necessário. Porque o grande objetivo dessas operações de desinformação são criar uma quantidade tal de notícias, e cada uma dizendo uma coisa, que as pessoas já não sabem o que é verdade.

Checagem de fatos servem para ter uma baliza, e também os jornais fazendo verificação de informação, publicando matérias muito bem apuradas e equilibradas, tudo isso contribui [para enfrentar as fake news].
 

Agora, o nosso desafio [nos jornais] é fazer viralizar as checagens de informação, viralizar as matérias jornalísticas, as matérias verificadas, apuradas, equilibradas, porque é uma competição desigual. As notícias falsas viralizam muito mais do que as notícias verdadeiras.

Como sua investigação sobre esse “mecanismo das fake news” pode impactar as eleições de 2020? Mudou a relação dos políticos com as redes sociais?

As investigações que a gente fez em 2018 tiveram alguns efeitos. O primeiro deles é que o Tribunal Superior Eleitoral [TSE], no ano passado, em novembro, incluiu na regulamentação a proibição de disparos em massa.

Antes, em 2018, disparos em massa pelo WhatsApp não eram proibidos. Eles só eram ilegais se fossem feitos com caixa dois ou se o que fosse veiculado fossem notícias mentirosas, fake news, desinformação ou ataques contra candidatos. 

 

"O atual governo é muito hostil em relação à imprensa profissional. Mas as mulheres recebem um tipo de ataque em um grau maior, uma agressividade maior, sempre com um teor misógino"



Não era ilegal você só mandar um santinho por disparo em massa [no WhatsApp]. A partir de dezembro de 2019, isso passou a ser coberto pela regulamentação do TSE, agora é ilegal, não pode ser feito. Esse foi um dos efeitos da matéria.

E também o WhatsApp, depois de admitir que a plataforma foi usada de forma irregular, passou a processar várias dessas agências de marketing. A plataforma está processando a Yacows, que é uma das empresas que a gente denunciou [como tendo feito disparos em massa]. Então acho que tudo isso deve ter reflexo na eleição deste ano.

Que medidas você avalia como positivas entre as recentes tomadas pelas plataformas (Facebook, Twitter, Whatsapp) para inibir fake news e discurso de ódio?

Eu acho que as plataformas tem tomado medidas que são bastante importantes. Eu acho que elas estavam sob muita pressão da sociedade civil para fazer alguma coisa em relação a isso, e as pessoas estão se dando conta de que a desinformação corrói a democracia.

Por exemplo: a iniciativa do Facebook de derrubar vários perfis que tinham um comportamento inautêntico. Houve derrubada de várias contas, inclusive contas ligadas a deputados bolsonaristas, ligadas a um dos assessores do presidente Bolsonaro. [As contas] eram registradas nos nomes deles e estavam se passando por coisas que não eram, por exemplo, [fingindo ser] veículos de notícia.

O fato de o Facebook ir atrás disso e derrubar essas contas é muito importante. Ou mesmo quando o Twitter rotula um tweet do presidente Donald Trump, por exemplo, quando ele faz glorificação à violência, ou quando ele põe em questão a integridade das eleições. Você ter alguma ação das redes sociais em relação a isso é bastante importante.

Qual sua avaliação sobre o papel do Judiciário com relação às fake news? E o papel do Legislativo?


Existe legislação no Brasil para crimes contra honra. Então se você tem alguém cometendo difamação ou calúnia nas redes sociais, contra uma pessoa, esta pessoa pode acionar a Justiça. Com esse processo na Justiça você descobre quem é a real pessoa fazendo isso.

Em relação ao Legislativo, existe um Projeto de Lei tramitando sobre as fake news. Tem pontos importantes [nesse projeto], é importante que haja regulamentação, mas tem muitos perigos. A gente tem que tomar muito cuidado para que isso não acabe se tornando uma restrição à liberdade de expressão e violação de privacidade.

Há um claro componente machista nos grupos que te atacam. Você acha que isso acontece com outras jornalistas? Por quê isso tem acontecido?

Eu acho que sim, tem um componente muito machista. A gente vê que os jornalistas homens também têm sido muito alvo de hostilidade, o atual governo é muito hostil em relação à imprensa profissional. Mas as mulheres recebem um tipo de ataque em um grau maior, uma agressividade maior, sempre com um teor misógino.

Raramente [os ataques] vão falar: “sua matéria está ruim, sua matéria está errada”. Este tipo de crítica é válida e é bem-vinda, a gente tem que corrigir o nosso trabalho, melhorar e se responsabilizar [pelos erros].

Mas o tipo de ataque que vem tem sempre a ver ou com aparência, dizendo que a jornalista é gorda, ou é feia, ou que oferece sexo, ou vão falar da família, do marido, do filho. Isso não é crítica, isso é um ataque à reputação das pessoas. É uma tentativa de intimidação.

Premiações

Patricia Campos Mello recebeu, em 2020, o prêmio Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade Columbia (EUA), por seu trabalho investigativo. Além disso, ela recebeu em 2019 o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa do CPJ (Comitê para Proteção de Jornalistas) e o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Em 2018, Mello recebeu o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha e, em 2017, obteve o Prêmio Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Em 2016, ela recebeu o Troféu Mulher Imprensa.



Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte: Isabella Vieira 
Aquarela: Nayani Real


A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.


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