12/09/2020

Colapso climático deve ser tema central no debate jornalístico

Para o editor global de meio ambiente do jornal The Guardian, o tema é o prisma para entender questões políticas, econômicas e sociais.

Por Matheus Menezes e Thuany Gibertini
Edição: Nayani Real


Onde costumam se localizar as reportagens sobre jornalismo ambiental nos veículos de imprensa? Sabendo das consequências do colapso ambiental e o impacto em toda a forma de habitar esse planeta, o jornalista britânico Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do jornal The Guardian, salienta que as matérias sobre meio ambiente não devem ser restritas ao canto de uma página, de uma editoria específica, especialmente porque muitas pessoas já evitam olhar para o tema. 
 
“O meio ambiente precisa estar em todo o jornal, ao invés de ficar em sua periferia”, pontua.
A relação humana com a natureza impacta em todas as esferas da vida, desde política e econômica até as interações sociais. De acordo com ele, os cientistas e os governos de todo o mundo já estão cientes dos riscos de um colapso ambiental há muito tempo.

“A humanidade não respondeu. Emitimos mais dióxido de carbono, cortamos mais árvores e matamos mais animais”, diz. O relatório “Planeta Vivo”, divulgado esta semana endossa o cenário trágico: houve uma queda de 68% no tamanho das populações de mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis desde 1970.

Esses são apenas alguns exemplos que demonstram como falhamos em conter essa crise. “Parte dessa falha é nossa, como jornalistas. Os governos, as empresas e os consumidores não foram convencidos da urgência da situação”, explica.

Diante disso, o jornal The Guardian vem encorajando mudanças na sua própria organização a fim de alinhar a postura de sua cobertura às práticas redatoriais. Entre elas estão, por exemplo, o comprometimento em ser mais transparente em todo o processo jornalístico e o não aceite de publicidade de empresas de extração de combustíveis fósseis. “Nós deveríamos ser uma parte do sistema nervoso do planeta, os neurônios que dizem para o cérebro quando os dedos estão queimando.”

“Não há uma solução climática sem a Amazônia”

O desmatamento no Brasil vem aumentando. O jornalista morou no país, entre 2012 e 2017, e conta que observou de perto esse crescimento, que nos últimos dois anos atingiu um novo nível. Ele cita o ataque às ONGs e organizações do próprio governo, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). “É como se a boa política estivesse sendo queimada.” A situação impacta no mundo todo.

Muitos governantes e empresas buscam isentar-se quando o assunto é a redução dos impactos ambientais, sob o discurso de prejudicar a economia. Segundo Watts a pandemia do Covid-19 mostra que é possível sim puxar o freio. “A doença não é uma solução para nada, mas mostrou uma perspectiva de mudança”.

Em alguns lugares do mundo, como em Londres, onde vive atualmente, o isolamento social ocasionou a diminuição da poluição e a natureza teve uma pausa dos impactos da ação humana. “Isso nos mostrou que podemos ser mais ambiciosos nas nossas metas climáticas,” analisa.

Ainda assim, a mesma pandemia que traz uma esperança nesse sentido, agrava injustiças sociais. No Brasil o surto do novo coronavírus trouxe problemas para o meio ambiente. A falta de fiscalização acelerou o desmatamento na Amazônia, além de acentuar a vulnerabilidade dos povos indígenas. “É um genocídio. Esses líderes indígenas são insubstituíveis. Os grileiros vão se beneficiar disso porque terão as terras que querem.”

“O papel do jornalista é ser honesto”

A linguagem também representa uma questão central para a cobertura de meio ambiente. O jornal The Guardian, por exemplo, passou a adotar os termos “emergência ou crise climática” no lugar de “mudança climática” para denotar a gravidade do tema. “Os jornalistas de meio ambiente acabam escrevendo matérias de degradação e corrupção, porque é exatamente isso que está acontecendo. As coisas estão piorando.”

Watts acredita que apelar às emoções é muito importante, pois humaniza as histórias. O jornalista conta que sempre termina suas entrevistas perguntando aos cientistas como se sentem para além da profissão, como seres humanos, a fim de trazer maior impacto para o leitor. “Você precisa sentir que o que você faz irá provocar a diferença.”

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Miréria Figueiredo
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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