13/09/2020

Fascismo só será combatido quando esquerda se unir aos conservadores, diz professor de Yale

Jason Stanley participou de mesa sobre neofascismo; para ele, reverter movimentos autoritários não é tarefa fácil

Por: Tiago Angelo

Corria o ano de 1921 quando Sigmund Freud, o "pai" da psicanálise, publicou o seu Psicologia das massas e análise do eu, obra que busca explicar as raízes do comportamento coletivo. No livro, o neurologista austríaco não cita algumas das palavras que definiriam as décadas posteriores, como "fascismo" e "antissemitismo". 

À época, o italiano Benito Mussolini apenas ensaiava as barbaridades que estavam por vir, enquanto Adolf Hitler acabava de se tornar líder do Partido Alemão dos Trabalhadores, precursor do partido nazista. 

Freud descreve como se dá o processo de diluição do pensamento individual em uma consciência coletiva. Para ele, grosso modo, tal fenômeno exige uma figura central: o líder autoritário, que não necessariamente é alçado a esse posto por ser uma pessoa excepcional. 

Ao contrário, o chefe da turba seria alguém que, de tão humano, se distinguiria somente por não ter a inibição que freia nossos instintos mais básicos. É aquele que agita a violência que nós escondemos em público. Coletivamente, por outro lado, essa inibição se esvai. 

Anos mais tarde, lastreados pela proposta freudiana, um grupo de intelectuais já habituado com os horrores de seu tempo passou a se debruçar especificamente sobre o fenômeno fascista. No ensaio Antissemitismo e propaganda fascista, o filósofo alemão Theodor Adorno destaca o caráter destrutivo da corrente, afirmando que sua pauta negativa —  o foco em destruir o "inimigo" interno ou a própria democracia —  tem mais relevo do que a pauta positiva —  a propositura de uma solução para problemas econômicos ou sociais, por exemplo. 

Todas essas ideias, ainda que sejam da primeira metade do século passado e não expliquem o mundo digital em sua totalidade, seguem tendo certa relevância: de lá para cá, os líderes fascistas mudaram muito pouco e a adesão a movimentos autoritários segue ocorrendo de modo semelhante no Brasil de Jair Bolsonaro, nos Estados Unidos de Donald Trump ou na Hungria de Viktor Orbán. 

Segundo Jason Stanley, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, os líderes fascistas são de fato mais conhecidos por suas semelhanças do que por suas diferenças. O autor de Como funciona o fascismo falou sobre o tema neste sábado (12), durante o 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Ele concedeu entrevista a Daniel Bramatti, do jornal O Estado de S. Paulo

Dentre os pontos comuns entre os líderes fascistas, destaca Stanley, há uma espécie de apego ao que chamou de "passado mítico". "Eles evocam o passado, fazendo com que as pessoas pensem que houve uma época maravilhosa e que tal época foi roubada de nós — sendo que, na verdade, ela nunca existiu. Dizem que havia esse passado em que a família era forte, em que a gente podia andar nas ruas com segurança e que precisamos voltar a esse tempo", afirma. 

Ele também identifica como constante a agressividade contra intelectuais. "[Sempre] dizem que as pessoas estão sendo controladas pelo marxismo. É o marxismo cultural. As instituições intelectuais, as universidades e a mídia são [consideradas] órgãos do marxismo cultural. Na Índia, falam isso em todos os lugares, na Hungria, a Universidade da Europa Central foi fechada. Viktor Orbán proibiu o ensino de gênero". 

O professor ressalta, ainda, que tais lideranças frequentemente se aproveitam de um clima de medo que, ao fim e ao cabo, é gerado por eles mesmos. Advogam, entre outras coisas, pela iminência de um ataque cometido por um inimigo interno, classificado geralmente como "comunista". Em seguida, apontam para a necessidade de haver lei e ordem. 

"Os oponentes dos governantes são pessoas sem lei, apoiadas pelos comunistas, e o governo é a favor da lei e da ordem. Há também um foco constante no aspecto cultural, de que eles [os opositores] estão destruindo a nossa cultura, destruindo nossos símbolos. As políticas fascistas atacam a democracia, colocando-a como algo ilegítimo", diz.

Do ostracismo à reorganização política

Embora seja um fenômeno da primeira metade do século XX, o fascismo voltou a ganhar espaço nas últimas décadas. Na Europa, a partir da crise econômica de 2008 e da explosão migratória, que atingiu seu ápice em 2015, diversos países viram o surgimento de representantes dessa matriz autoritária. 

Em 2010, apoiado em uma retórica anti-imigração, por exemplo, Viktor Orbán assumia o posto de primeiro-ministro da Hungria; na França, a já conhecida Marine Le Pen passava a ser ouvida por um número maior de adeptos; o Parlamento alemão, que desde o fim do nazismo não contava com representantes de extrema direita, viu o Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhar peso até conquistar, em 2017, postos no legislativo. A mesma tendência passou a ser vista na Polônia, Finlândia, Áustria, Dinamarca, entre outros. 

No Brasil, surgia pouco a pouco a figura de Jair Bolsonaro, que apontava o Partido dos Trabalhadores como o culpado por todos os males do país. Nos Estados Unidos, com o slogan make America great again e uma campanha pautada na disseminação de notícias falsas, surgia Donald Trump, evocando o "passado mítico". 

Segundo Stanley, tal surgimento coordenado de governos autoritários não é incomum. Também é normal que eles tenham alguma relação entre si. "É um movimento multinacional de extrema direita", diz. 

Reverter essa mobilização, afirma, não é uma tarefa fácil. "A história nos diz que quando encaramos o fascismo, temos que ter os conservadores do nosso lado. Precisa da esquerda e dos conservadores unidos contra um governo que quer apenas o poder".


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher
Criação de arte: Camila Araujo e Isabella Vieira
Aquarela: Nayani Real.

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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