13/09/2020

Como colaboração e dados fortalecem o jornalismo investigativo

Projetos de sucesso reforçam a importância de repórteres se aproximarem de outras áreas para inovar o acesso à informação

Por: João Benz, Katherine Rivas, Mariana Soares
Edição: Paola Perroti



“Antes o jornalismo era um exercício de lobo solitário, mas agora é impossível fazer um bom trabalho investigativo e de dados dessa forma”, afirmou Claudia Ocaranza, coordenadora do projeto PODER, no painel “Jornalismo colaborativo de dados”. Mediada por Pedro Burgos do Insper, a mesa aconteceu no Domingo de Dados da Abraji (13) e contou também com a participação de Mathias Felipe, jornalista e cientista de dados do JOLT

Com 15 projetos internacionais, o JOLT une pesquisadores, organizações de mídia e startups para inovar a forma de fazer jornalismo através da tecnologia, aliando conhecimentos de Machine Learning, métricas de audiência, jornalismo colaborativo e de dados.

Já o PODER, de Claudia Ocaranza, é uma ONG Mexicana que busca transparência de contratos entre governo e empresas na América Latina. “Nossa ideia é que qualquer pessoa possa solicitar uma informação e que a vigilância dos contratos possa ser feita por qualquer pessoa. Seja ela jornalista, defensora dos direitos humanos ou uma pessoa cujos direitos foram afetados por contratos do governo“, explica a coordenadora.
O PODER precisou agregar os quase 4 milhões de contratos disponíveis nos principais portais de transparência do México em um banco de dados. E usar 25 algoritmos para criar algo inteligível para a sociedade e para jornalistas que buscavam por contratos com indícios de ilegalidades.

Publicado no jornal Argentino La Nación, o projeto desenvolvido por Mathias Felipe processou 7 milhões de imagens de parques de energia solar em quase 3 milhões de km². Com intuito de acompanhar a implementação de promessas eleitorais em um momento de crise econômica e transição de governos na Argentina. Esse mapeamento só foi possível graças à união entre startups, universidades e veículos da imprensa.

“Trabalhar com essas tecnologias no jornalismo demanda colaboração com agentes especializados nisso. A questão é como fazer essa relação com a ciência”, problematiza Mathias. É justamente isso que o JOLT promove, desenvolvendo projetos de tecnologia digital inovadora no jornalismo. Mas Mathias também lembra que o custo desses projetos não é baixo.

Aliás, um dos principais pontos de debate do jornalismo investigativo e de dados é a necessidade de garantir recursos que não limitem a liberdade de expressão dos repórteres. Para Claudia, a autonomia é um empecilho no atual modelo de receita de veículos de comunicação. “O jornalismo nestas mídias sofre controle das narrativas ou da publicidade no lugar de ser um espaço de liberdade”, defende.

Essa falta de independência faz com que muitas mídias alternativas procurem suporte em organizações internacionais, por meio de campanhas de financiamento ou verbas para projetos. No PODER, esta foi a melhor alternativa encontrada, ao lado da diversificação da renda, recebendo recursos de diferentes órgãos - sem depender de dinheiro de empresas, governo ou políticos. Situação que se repete no JOLT.

Olhar transnacional

O debate também contou com uma mesa adicional que apresentou mais projetos internacionais colaborativos, dessa vez entre nações latino-americanas. Um deles foi o Convoca, da jornalista peruana Milagros Salazar, cuja grande conquista foi levar a Operação Lava Jato para o Peru. Enquanto no Brasil as investigações surgiram antes da informação, no país vizinho foi o jornalismo independente que obrigou as autoridades a investigar. “Nada disso teria sido possível sem colaboração”, lembra Salazar que, na época, trabalhou em uma rede transnacional de 20 repórteres da América Latina e da África que apuraram o caso.

Durante a palestra, Eduard Borregón, também do PODER, reforçou que as redes latino-americanas de colaboração precisam mais da participação de profissionais brasileiros. “Unindo os nossos dados, as investigações podem levar metade do tempo”, destacou.

Os jornalistas também falaram sobre a importância de usar dados para trazer à tona histórias de interesse público na pandemia, nem sempre em torno da Covid-19. É o caso do setor extrativo, que continuou funcionando no período. “Investigar o setor pode nos aproximar de populações vulneráveis, trabalhadores em condições precárias e crimes ambientais na pandemia”, afirma Milagros, que aproveitou o evento para lançar a plataforma Deep Data (https://deepdata.convoca.pe/), com dados exclusivos para a investigação do setor.

Conheça mais algumas iniciativas de jornalismo colaborativo de dados ao redor do mundo:

Projeto PODER — Para melhorar a transparência e a responsabilidade corporativa na América Latina: https://bit.ly/2FoYExm

Pequeñas Inocentes — Mapeamento dos feminicídios de crianças e adolescentes na América Latina: https://bit.ly/32dNYu5

Mujeres en la bolsa — A presença feminina nos espaços de decisão da iniciativa privada em 16 países: https://bit.ly/3h9MZQ0

Voz Data — Análise de áudios que ajudou na resolução do caso Nisman, o promotor Argentino assassinado ao investigar ataque terrorista: https://bit.ly/3bMaiOH

Troika Laundromat — Revela um esquema multi bilionário de desvio e lavagem de dinheiro na Rússia https://bit.ly/35Bd6x4


Copy, Paste, Legislate— Como mais de 10 mil projetos de lei americanos foram quase inteiramente escritos por lobbies e grupos de interesse https://bit.ly/2FpsAJW


Convoca — 
Organização de jornalismo investigativo fundada por repórteres, analistas de dados e programadores no Peru https://bit.ly/3bVxDhd


See How the World´s Most Polluted Air Compares With Your City´s — visualização da poluição em várias cidades do mundo https://nyti.ms/35Bf4NY


A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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