12/09/2020

Bolsonaro vê imprensa como 'inimiga útil', diz Thaís Oyama

Presidente ataca jornalistas porque isso faz suas redes sociais crescerem, diz autora de “Tormenta”

Por: Rafael Sampaio
Edição: Leandro Melito

Meses de investigação sobre bastidores do governo Jair Bolsonaro, de apuração com fontes no Planalto, checagens de informações vindas de ministros e assessores, além de incontáveis viagens a Brasília e ao Rio de Janeiro. Esta foi a rotina da jornalista Thaís Oyama para escrever Tormenta - o Governo Bolsonaro: Crises, Intrigas e Segredos.

O livro revela os bastidores do primeiro ano do governo bolsonarista através de relatos e depoimentos de fontes próximas ao presidente. Trata-se de uma obra fundamental para entender Bolsonaro e seu círculo mais íntimo, além de servir como panorama para a nova onda conservadora que tomou a política institucional brasileira de assalto nos últimos anos.

Em entrevista ao Repórter do Futuro, Oyama menciona um fato curioso: fontes do Planalto revelaram que a passagem do livro que mais incomodou Bolsonaro foi uma frase no último capítulo. “A frase fala que Bolsonaro não se dobrou de uma vez à velha política, ele foi se curvando aos pouquinhos”, comenta a jornalista.

 Oyama atualmente é colunista do UOL e comentarista da Jovem Pan. Ex-redatora-chefe da revista Veja, onde atuou por 18 anos, a jornalista também tem passagens pela TV Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.

O lançamento do livro Tormenta faz parte da programação do 15º Congresso Brasileiro de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Leia abaixo a entrevista completa:

Repórter do Futuro: Como você avalia o tratamento dado pelo presidente Bolsonaro à imprensa?

Thaís Oyama: O que eu vejo é que o Bolsonaro trata a imprensa como inimiga, mas como uma inimiga útil em alguns momentos. Explico: como deputado, Bolsonaro era ignorado pela imprensa. Era um deputado de baixo clero, desprezado pela imprensa, e ele se ressentia disso.

Depois, mais tarde, ele passou a ter uma espécie de deslumbramento em relação à imprensa, que passou a cobri-lo quando ele começou a despontar como candidato viável. Esse deslumbramento ficou nítido em vários momentos. 

Eu conto no meu livro, [por exemplo] quando ele aparece sacudindo um print de uma matéria do New York Times que dizia que ele era um político que homenageia torturadores e que preferia ver o filho morto a ter um filho gay. Era uma matéria muito crítica, mas ele nem se importou, porque ele estava no New York Times. Ele ficou visivelmente deslumbrado com isso.

"Bolsonaro sabe que falar mal da imprensa é um grande negócio para unificar a sua base"


Agora, como presidente, Bolsonaro se sente perseguido pela imprensa. Perseguido por uma imprensa que não podia fazer outro tipo de cobertura que não a cobertura crítica. E daí [na Presidência] ele passou a reagir com o autoritarismo costumeiro, habitual, mas também com oportunismo.

Por isso eu digo que ele vê a imprensa como uma inimiga útil. Porque ele monitora as redes sociais, [ele] tem um grupo justamente para isso. Bolsonaro sabe que falar mal da imprensa é um grande negócio para unificar a sua base.

Eu falo sobre isso no livro: uma pesquisa da consultoria Bites mostra que Bolsonaro ganha seguidores diariamente. Claro que, como presidente da República, ele ganha, mas os momentos de pico, os momentos em que ele mais ganha seguidores é quando ele posta críticas à esquerda e à imprensa nas redes sociais.

"É sem dúvida a pior relação que um presidente já teve com a imprensa no Brasil"



Sabedor disso, Bolsonaro gosta de atacar a imprensa porque ele sabe que é bom para ele. Então eu acho que essa relação não muito simples que o presidente Jair Bolsonaro tem com a imprensa faz dele, sem nenhuma dúvida, um dos presidentes com a pior interação com os jornalistas e com a imprensa profissional.

Neste momento eu acho que ele está partindo para uma terceira fase [na relação com a imprensa], que é essa incursão dele no Nordeste e nas regiões em que as redes sociais não tem grande penetração. Então eu acho que essa ligeira mudança dele no trato com a imprensa tem um pouco a ver com isso. O fato de ele saber que as redes sociais não bastarão [para chegar aos grotões] e que só esse périplo que ele faz no Nordeste (ele está indo pela segunda vez para a Bahia agora) também não vai dar conta de espalhar por essas regiões a mensagem eleitoral dele, ou eleitoreira, como queira chamar.

Então o Bolsonaro vai precisar de rádios e de televisão nesses rincões. Eu acho que isso tem a ver com essa pequena mudança de entonação [do presidente], mas é muito pequena. É uma péssima relação [com a mídia] e sem dúvida a pior relação que um presidente já teve com a imprensa no Brasil.

Você esperava as reações do governo federal quanto ao seu livro?

Eu esperava qualquer coisa deste governo, porque trata-se de um governo imprevisível. Mas o presidente Bolsonaro deu uma declaração logo depois da publicação sem que ninguém perguntasse. Foi uma declaração crítica e pessoal, como sempre, mas isso acabou até sendo bom, me ajudou a vender mais livros.

O curioso é que eu soube por uma fonte do Palácio que o que mais incomodou o presidente Bolsonaro foi uma frase que está no último capítulo do livro e que trata de uma primeira aproximação que ele teve com o Centrão. A frase fala que Bolsonaro não se dobrou de uma vez à velha política, ele foi se curvando aos pouquinhos.

Esta é a frase que, segundo essa fonte do Planalto, mais incomodou o presidente. Foi a frase da qual ele mais reclamou. Como a gente viu agora, não era uma frase que estava errada. Também fiquei bem satisfeita com o resultado [do livro], inclusive da parte do governo, porque não tive nenhum desmentido e muito menos nenhum processo. Nada do que está escrito foi desmentido, então fiquei muito satisfeita com isso.

Como foi o processo de apuração para criar o livro?

Eu trabalhei muito tempo na Veja, 18 anos, e meu último cargo foi como redatora-chefe da revista. Eu estava bastante cansada de ficar na redação sem sair para a rua. Eu queria deixar a função, deixar a redação, mas não queria deixar o jornalismo, não queria me afastar da notícia.

Isso foi em 2018, a eleição do Bolsonaro já era uma possibilidade, e eu achava que se isso acontecesse iria ser um momento no mínimo muito interessante para o Brasil. Daí então eu fiz uma proposta para algumas editoras [sobre o livro].

A Companhia das Letras topou na hora, e quando ela topou, no dia seguinte eu pedi demissão da Veja e passei um ano [escrevendo]. O ano seguinte [foi] muito feliz da vida porque eu fiquei o ano inteiro só trabalhando na apuração, trabalhando nas entrevistas, indo para Brasília, para o Rio de Janeiro.

"Como presidente, Bolsonaro continua sendo um deputado interessado em pequenas coisas"


Foi um ano delicioso, porque eu pude voltar para a reportagem, pude ficar imersa em um único assunto. É um assunto que me interessa muito, não só a eleição, mas o personagem Jair Bolsonaro e esse momento muito peculiar que o Brasil estava vivendo.

Então eu apurava, apurava, apurava. Viajava, viajava, viajava. Depois, eu voltava para São Paulo e no fim de semana, escrevia. Sentava no meu escritório e colocava tudo no papel. O livro foi escrito e entregue no prazo e foi uma experiência muito boa.

Quais foram os momentos mais difíceis para você durante a apuração?

Eu não diria que houve um momento particularmente difícil. Como em toda apuração, o mais difícil é você encontrar as melhores fontes, conquistar a confiança delas e conseguir boas informações por meio delas.

Tinha uma particularidade neste governo, que é [ser] um governo novo. Então ninguém conhecia ninguém, os personagens não se conheciam. Nem os personagens novos do governo conheciam a imprensa, nem a imprensa conhecia os personagens.

É diferente do governo do PT, do governo tucano, que já estavam em cena há tanto tempo. [Nos governos anteriores] os políticos conheciam jornalistas, os jornalistas conheciam os políticos, daí era uma questão de ir entrando no meio da selva e falando com as pessoas.

No governo Bolsonaro era diferente. [Os membros do governo] primeiramente eram muito desconfiados da imprensa. Da mesma forma que eu não sabia como pensavam os principais integrantes do governo, os principais ministros, os principais assessores - os principais assessores e principais ministros não sabiam exatamente qual é o apito que toca em cada veículo e cada jornalista. Era um clima de desconfiança mútua.

Por isso foi um pouco mais difícil [minha apuração], mas eu tive sorte de encontrar pessoas-chave, pessoas muito próximas do presidente, e com isso a coisa avançou. Foi um processo muito prazeroso esse de mergulhar em um único assunto e mergulhar em um personagem tão rico como é Bolsonaro, com seus defeitos todos e também qualidades.

Passados vários meses desde que seu livro foi publicado, há algo que você acredita merecer ser "atualizado"?

Acho que o livro traz muitas histórias que ajudam a entender o que está acontecendo agora. Por exemplo, de onde veio essa bancada do PSL que está toda desmilinguida, toda esfacelada. Esse esfacelamento tem a ver justamente com a gênese deles, de onde veio cada um, como cada um foi eleito, essas histórias estão no livro.

Também muita coisa que a gente vê hoje é fruto dessa paranoia, das ideias fixas, dos medos que Bolsonaro apresenta desde o tempo em que era deputado - eu também relato [isso] com episódios no livro. A relação dele com o Carlos Bolsonaro, por exemplo, veio a ter muitos reflexos nesses dois primeiros anos de governo. Isso está bem descrito [no livro] com algumas histórias.

"Não é exagero dizer que o livro está bastante atual e que além de atual, ele traz histórias que explicam muitas coisas que estão acontecendo neste momento"



O fato de Bolsonaro, por exemplo, ter tanto interesse pelas pequenas coisas. No livro eu conto que ele sempre foi um deputado “presidente das pequenas coisas”. Os interesses dele nas coisas comezinhas, o fato de ele ter sido sempre um deputado interessado em defender pautas corporativistas, [que tem a ver com] o Código de Trânsito Brasileiro, carteirinha de estudante, e infelizmente Bolsonaro não mudou muito. Como presidente, Bolsonaro continua sendo um deputado interessado em pequenas coisas.

Tem também por exemplo a relação dele com o meio ambiente. O que está por trás dessa péssima relação com a política ambiental e que agora tem se revelado um desastre, inclusive do ponto de vista dos investimentos estrangeiros no Brasil. Essa reputação muito ruim que o Brasil está conquistando em relação à política ambiental é fruto de convicções antigas do Bolsonaro e também de muitos dos militares, e isso está descrito no livro.

Eu acho que não é exagero dizer que o livro está bastante atual e que além de atual, ele traz histórias que explicam muitas coisas que estão acontecendo neste momento.

Você acredita que as eleições de 2020 também serão pautadas por candidatos "antissistema", assim como foram as eleições de 2018?

Eu acho que hoje, principalmente por causa da pandemia, que por sua vez fez o governo criar o auxílio-emergencial, as pesquisas apontam Bolsonaro como candidato favorito [para as eleições de 2022].

Como se vê, ele está abocanhando o eleitorado petista no Nordeste. Com isso, a reeleição de Bolsonaro, se a votação fosse hoje, seria favas contadas. O melhor dos mundos para o governo Bolsonaro hoje é entrar no segundo turno com um candidato petista, um candidato que polarize com ele.

Tanto melhor para Bolsonaro se esse candidato for o próprio Lula e não alguém menos popular, como o [Fernando] Haddad, ou Tarso Genro, ou qualquer um [do PT]. Se for o Lula, é muito melhor para o Bolsonaro, porque isso vai acender de forma mais enfática o tal do sentimento antipetista, o medo do petismo, tudo isso que a gente conhece.

O governo, e eu sei disso por meio das fontes que eu tenho no Planalto, torce para que o maior adversário dele, o principal adversário dele seja um petista. Mas a própria corrosão do eleitorado petista no Nordeste ameaça essa possibilidade.

Agora pouco eu falei com o Maurício Moura, [fundador] do Ideia Big Data, e ele diz justamente isso. Que o fato de Jair Bolsonaro estar ganhando eleitores do PT no Nordeste faz com que ele corra o risco de enfraquecer demais os petistas a ponto de o partido ficar fora do segundo turno [em 2022].

Esse caso criaria o que seria o pior cenário para o Bolsonaro, que é enfrentar um candidato de centro, um candidato que unifique o centro no segundo turno, e com o qual ele não possa fazer o que mais sabe, que é polarizar. Seria um risco maior para ele, Jair Bolsonaro.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte: Isabella Vieira 
Aquarela: Nayani Real

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.
 

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