11/09/2020

Como cobrir educação: das visitas às escolas ao ensino remoto na pandemia

Os jornalistas Paulo Saldaña, Renata Cafardo e Thais Borges destacam o significado político do tema nos últimos tempos e a importância do contato direto com os educadores

Por: André Martins e Miréia Figueiredo
Edição: Samara Najjar

Vagas em creches, desigualdades e falta de infraestrutura nas escolas, qualidade do ensino, trocas de ministros, educação remota, volta às aulas, financiamento... Se antes já não faltavam pautas, o governo Bolsonaro e a pandemia da covid-19 agregaram novos elementos ao jornalismo de educação.

“O jornalismo de educação passou por grandes mudanças ao longo dos últimos anos”, aponta Renata Cafardo, repórter especial do jornal O Estado de S.Paulo que cobre o tema há 20 anos, dando o tom do debate.

Ao lado de Paulo Saldaña, repórter da Folha de S.Paulo, e Thais Borges, repórter do Jornal Correio, os três ministraram o curso “Como cobrir educação: escola, pandemia e Bolsonaro”, promovido pelo 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Segundo Cafardo, um dos fatores que levou ao aprimoramento da cobertura foi o aumento dos indicadores educacionais do país, como o Censo Escolar e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que têm divulgações anuais. Até os anos de 1990, o governo não tinha dados sobre a educação, o que impossibilitava saber até mesmo quantos estudantes estavam matriculados no ensino médio, por exemplo. 

Se por um lado, o entendimento macro da educação no Brasil se dá a partir da cobertura do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e de outras avaliações; por outro, o trabalho de jornalistas como o da Thais Borges situam a discussão em escala regional.

Como repórter do Jornal Correio, da Bahia, ela pôde visitar escolas e entrar em contato com a realidade do ambiente escolar, noticiando temas recorrentes nas coberturas locais e que por vezes fogem das pautas veiculadas no eixo Rio-São Paulo.

Paulo Saldaña, repórter da Folha de S.Paulo, comenta os sobre elementos adicionados recentemente à agenda da educação: o Congresso Nacional e o Ministério da Educação (MEC) como palcos para além da escola. A mudança foi tão significativa que, após a eleição de 2018, Saldaña se mudou para Brasília para acompanhar mais de perto a pauta sob o então novo governo.

“O Ministério da Educação virou o microcosmo do governo Bolsonaro”, comenta o jornalista, lembrando de episódios recentes na pasta, como as saídas dos ministros Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub. 

No entanto, reconhecer o atual impacto do MEC como um local de disputa política e ideológica não anula a melhor forma de conhecer o cenário educacional no país. Para os três jornalistas, apesar dessa nova abordagem, o caminho não deixou de ser o contato direto com alunos e professores.

Somado a todo esse cenário, a pandemia da covid-19 resultou em diferentes assuntos e abordagens para o jornalismo de educação. Uma implicação é o ensino remoto, pauta há muito tempo deixada de lado na cobertura e que agora ocupa, inclusive, posição de destaque.

Entender o papel do docente nos modelos pedagógicos tornou-se interesse público e, neste momento, pode aquecer o debate para o que Renata Cafardo considera a chave para a melhora de ensino no Brasil: a valorização dos educadores.

Sem trégua, os reflexos da doença e de sua disseminação nas vidas de crianças, jovens, familiares e educadores estão desde março em voga nos noticiário. E não há expectativa para que a educação deixe de estampar as primeiras páginas dos jornais. Nessa linha, Paulo Saldaña finaliza a apresentação minicurso indicando que “a pandemia ainda vai trazer muito desafios na cobertura de educação”.

Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher

Criação de arte: Miréira Figueiredo

Charge: Miréira Figueiredo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe. 

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