12/09/2020

Educação midiática é o melhor remédio contra a desinformação

 Estratégia consiste em desenvolver senso crítico e ensinar sobre funcionamento das mídias, com potenciais impactos positivos para o jornalismo e para a democracia 

Por: Gustavo Honório e João Benz
Edição: André Martins


Caixão cheio de pedra para inflacionar os números da pandemia. Cocaína como prevenção à Covid-19. Vacina como causa autismo. Mamadeira de "piroca" e kit gay. Certamente, você já se deparou com alguns desses “fatos” de caráter duvidoso. Eles se disseminam mais rápido do que são combatidos – e a sociedade sofre com o estrago. No segundo dia do 15º Congresso da Abraji, foi discutida uma resposta eficiente para esse problema: a educação midiática.

“Trata-se de uma habilidade necessária para os dias atuais. A educação midiática habilita pessoas a acessar e interpretar criticamente toda a informação que recebem”, explica Patricia Blanco, presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta. Natália Leal, diretora de conteúdo da Agência Lupa, também presente na mesa, complementa: “Saber diferenciar uma informação verdadeira de uma falsa é uma discussão que precisa ecoar para toda a sociedade”. Ela, que também é professora do LupaEducação, braço de educação midiática da agência, reforça que esse debate não pode ficar preso no meio jornalístico. 

Segundo um estudo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, realizado em 2016, mais de 80% dos jovens norte-americanos não sabem diferenciar notícias de artigos de opinião ou de conteúdos patrocinados. Para Patricia, a educação midiática, atrelada à explicação de como o jornalismo é feito, reforça o método jornalístico profissional.

Com uma população bem informada, há um ambiente favorável ao progresso cultural, político e social. “As pessoas que conseguem desenvolver esse pensamento crítico tomam decisões mais qualificadas para sua vida e para a sociedade”, explica Natália. Conforme defende, uma série de situações é evitada quando os cidadãos estão cientes de seus direitos e deveres como consumidores e produtores de mídias.

“A educação midiática traz uma série de possibilidades cujo único objetivo é empoderamento do cidadão. Quanto mais você sabe, melhor você decide”, complementa Patricia. Para não cair na armadilha das fake news, ela apresenta uma “receita” de três passos resumida em: ‘Epa! Peraí...O quê?’.

EPA!
Desconfie. Não é todo dia que você vê algo tão chocante.

PERAÍ...
Questione. Qual a data da publicação? Há erros de português? É de um portal de notícias conhecido?

O QUÊ?
Olhe mais a fundo. Se for algo muito extraordinário, outros canais também vão publicar. Pesquise e apure.


O que os jornalistas ganham com a educação midiática?

Ao oferecer aos cidadãos as informações necessárias sobre como uma reportagem é desenvolvida, por exemplo, o profissional ganha credibilidade e atua para desfazer o mito de que jornalismo é a opinião do repórter ou de um veículo, conforme pontua Natália Leal. “A educação midiática traz uma nova roupagem no entendimento da sociedade com relação ao papel da imprensa”, acrescenta a diretora da Lupa.

Quando a população compreende bem os processos de um produto jornalístico, os consumidores se tornam mais críticos e mais conscientes da importância do seu direito à informação. Como resultado, esse movimento pode criar um ambiente menos hostil para que o jornalista desempenhe sua função, essencial à manutenção da democracia. O cenário também tem o potencial de melhorar a cobertura profissional. “Com esse tipo de consumidor, o jornalismo terá que ser feito com cada vez mais excelência”, constata Patricia Blanco. 


Polarização e dieta informacional

“O desafio da educação midiática no ambiente digital é também desfazer o processo de polarização”, argumenta Natália. De acordo com levantamento feito pela Reuters Institute of Journalism, o Brasil lidera o ranking de países que buscam consumir notícias alinhadas com seus pensamentos.

Como uma forma de reverter esse cenário, Patrícia deixa uma dica nutricional a todos: “Para construir seu ponto de vista e, com isso, tomar decisões mais próximas das suas necessidades, mantenha uma dieta informacional variada. Fure a bolha, busque informações que estão além daquelas que reforcem os seus preconceitos ou suas crenças”.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher 
Criação de arte: André Gonçalves

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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