Grandes redações e jornalistas tradicionais tentaram se manter distanciados do tema, porém com a pandemia foram forçados a se adequar à nova realidade
Por: Thuany Gibertini e Pâmela Chagas
Edição: Pâmela Chagas
A crise no jornalismo é debatida já há algum tempo entre profissionais da área. Abordando perspectivas diferentes das tradicionais para fazer do jornalismo um negócio sustentável, a diretora de produtos do portal Jota, Paty Gomes e o coordenador do Google News Lab no Brasil, Marco Túlio Pires, apontam como principal erro dos veículos de comunicação o atraso em se adaptar às novas tecnologias.
Para ambos os jornalistas, é preciso ter uma nova mentalidade de produto e experiência do usuário como alternativa para o fortalecimento da prática jornalística. “É um olhar que a gente importa das empresas de tecnologia para tornar o jornalismo mais essencial”, explica Gomes.
Ele aponta que o modo de trabalho no Jota vai de encontro a essa ideia, “se não for para resolver um problema do usuário, é melhor não fazer".
"Hoje temos uma relação com o conteúdo e a informação de um jeito dinâmico. Então essa visão de resolver um problema é primordial”, conta.
Dessa forma, diferentes áreas de conhecimento irão integrar as redações tornando o ambiente mais plural. Gomes complementa: “Usamos jornalismo e ciência de dados, um melhorando o outro o tempo todo”.
Sobre os impactos da pandemia no modelo de negócios do Jota, Gomes conta toda a reformulação que houve na redação para se adequar ao contexto e garantir as entregas de produtos que ajudassem o assinante a atravessar esse momento de turbulência. Isso fez a empresa crescer ainda mais durante a crise. “Hoje, alguns dos produtos que a gente lançou veio para ficar”, conta.
“O jornalismo passou a ter um papel na rotina da pessoa, criando valor nessa interação. E é isso que vai desenvolver o jornalismo, pois mais pessoas vão experimentar esses conteúdos, que numa situação diferente [sem pandemia] não teriam oportunidade”, afirma Túlio se referindo ao aspecto fundamental de serviço à sociedade que o jornalismo tem, na informação sobre a pandemia do coronavírus.
Como exemplo de uma redação que já estava preparada e adequada às novas tecnologias, Túlio cita o Projeto Comprova como vanguarda. Criado em 2018 e reunindo 28 veículos de comunicação para investigar e desmentir informações falsas, a redação do Comprova já nasceu remota. “Isso os colocou em uma posição de vantagem para poder trabalhar durante uma crise como foi essa pandemia, em que foi exigido o isolamento social”, explica.
Tanto Gomes quanto Túlio concordaram que existe uma carência de investimento e tempo para conseguir aplicar essas mudanças em mídias independentes e pequenas redações. Como solução, a diretora de produto do Jota deu algumas dicas para começar.
“Precisa ficar de olho em grandes players como o Google News Initiative que estão aí apoiando e financiando o jornalismo. Tem que pensar no que você pode fazer, que ninguém está tão bem posicionado como você pra fazer, e resolver um problema urgente, pensando no produto que o assinante irá querer pagar por isso.”
A jornalista acredita que as empresas de tecnologia valorizam muito o erro, mas chama atenção para o fato de que no Brasil não podemos errar tanto, porque não temos dinheiro para bancar esses erros. Em outros países é normal o financiamento não só de produtos ou projetos, mas de um negócio que traz faturamento recorrente.
“Sendo assim é preciso se preocupar com o modelo de negócios desde o início e entregar valor mesmo que pequeno. Precisa fazer mais com menos e trazer soluções criativas”, acrescenta.
Para Túlio, estamos falando em uma mudança de cultura muito radical que não tem saída fácil. É preciso pensar na tecnologia, no editorial e no modelo de negócio ao mesmo tempo. Ele faz uma crítica às escolas jornalísticas, que como instituições não trazem referências na área, principalmente em português.
“Precisamos buscar conteúdo fora do Brasil e entrar no negócio de construção de relações e de valor”. Os conteúdos que recomenda são os materiais gratuitos da McKinsey para modelos de negócio e da Nielsen Norman Group para experiência do usuário.
“Tenho certeza que se tem um jeito de trazer novos ares para o jornalismo é colocando uma visão de produto nele”, afirma Gomes. E Túlio acrescenta: “Temos uma oportunidade grande de desenvolver esse pensamento, não como a bala de prata que vai salvar o jornalismo, mas é uma iniciativa muito forte para ajudar no crescimento de negócio e fortalecimento do jornalismo como empreendimento sustentável.”
Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher.
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