11/09/2020

Cobertura do trabalho escravo exige cuidados e sensibilidade do repórter

Leonardo Sakamoto e Piero Locatelli relatam suas experiências em reportagens sobre violação de direitos trabalhistas

Por: Natasha Meneguelli


A cobertura do trabalho escravo exige cuidados específicos na apuração e nas informações colocadas na reportagem. No minicurso “Como cobrir trabalho escravo e outros direitos trabalhistas”, os jornalistas Leonardo Sakamoto e Piero Locatelli trouxeram dicas e relatos de anos de experiência no assunto. Ambos compartilham o vínculo com a Repórter Brasil, uma das referências para a cobertura do tema no país.

Dentro da programação do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, os repórteres explicaram que não é todo caso grave de violação trabalhista que corresponde ao trabalho escravo.

Contudo, isso não significa que ele não mereça ser noticiado. “Isso lembra o fato de que o trabalho escravo é uma cesta de crimes. Tem muito tema para cobrir, pauta não vai faltar, devido à quantidade de conexões do problema”, destacou Sakamoto.

Outro ponto da oficina, explicado por Locatelli, é a necessidade de se ater aos documentos como forma de checagem e de aprofundamento da reportagem. Ele destacou que o jornalista não deve se limitar ao release, mas ler os relatórios por completo, inclusive os anexos. Sua reportagem “Domésticas das Filipinas são escravizadas em São Paulo” é resultado dessa atenção aos detalhes.

O jornalista apontou também a opção de comparar documentos de diferentes fontes e analisar cronologias, como é o caso de “Trabalhador queima metade do corpo após Justiça liberar máquina interditada”.

Há documentos essenciais para a cobertura, como os autos de infração, os relatórios de fiscalização, ações civis públicas e sentenças judiciais, que devem ser analisados de acordo com o seu papel na verificação de violações trabalhistas.

Como muitos desses registros incluem informações pessoais das vítimas, há o cuidado extra com a proteção delas, que estão em uma posição de vulnerabilidade. “Não é sobre tratar a pessoa como inferior, mas de tomar cuidado com a maneira com a qual essas informações são divulgadas”, explicou Locatelli.

O jornalista apontou que a vítima normalmente não possui o entendimento completo do funcionamento da imprensa, e que é dever do jornalista avaliar o que deve ser exposto e o que não. Os riscos incluem não só ameaças da empresa denunciada, mas também de intermediários. “Quando a gente tá falando de trabalho escravo, muitas vezes estamos falando de tráfico de pessoas”.

Locatelli e Sakamoto ressaltaram que deve haver muito cuidado com interpretações gerais sobre o assunto. Apesar de existirem estimativas e estatísticas nacionais e internacionais, não há um dado confiável sobre o número de pessoas em situação de trabalho escravo.

As possibilidades de análise incluem a quantidade de resgates e se a política pública foi mais aplicada do que no ano anterior, por exemplo, com o cuidado de diferenciar o número de operações e o número de resgatados.

Outro ponto de partida são denúncias feitas a partir de entrevistas com testemunhas. Contudo, por ser um tipo de documento mais frágil do que um atestado pelo estado, a apuração das informações precisa ser ainda mais minuciosa.

“Os trabalhadores também mentem, então é necessário checar”, identificou Piero Locatelli. Ele colocou entre as opções de checagem entrar em contato com a própria empresa envolvida no relato, e sempre com antecedência, nunca perto do fechamento da matéria.

Leonardo Sakamoto finalizou o curso com a explicação de que a denúncia da persistência do trabalho escravo e do tráfico de seres humanos não é uma novidade, mas um lembrete de que há um processo abolicionista inacabado.

Ele apontou que é papel dos jornalistas investigar e mostrar as histórias para a população, e como isso está incluído na economia. “Trabalho escravo não uma é doença, é um sintoma de que a nossa sociedade não está bem, e poucos são capazes de gritar tão alto quanto os jornalistas contra a escravidão”.


Direção de arte: Isabella Vieira e Mikael Schumacher. 
Criação de arte: Vitória Macedo

A cobertura oficial do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é realizada por estudantes, recém-formados e jornalistas integrantes da Redação Laboratorial do Repórter do Futuro, da OBORÉ, sob coordenação do Conselho de Orientação Profissional e do núcleo coordenador do Projeto. Conta com o apoio institucional da Abraji, do Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão em Políticas Públicas e Sociais (IPFD) e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em cooperação com a Oficina de Montevideo/Oficina Regional de Ciências para a América Latina e Caribe.

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