Lucro para as empreiteiras e prejuízo para a população. É esse o cenário previsto pelo professor da Universidade Federal Fluminense e geógrafo, Chris Gaffney, para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016. Há dois anos ele estuda os impactos das obras e os benefícios gerados no cenário urbano e social.
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| Chris Gaffney Foto: Vinicius Gorczeski |
Ele criticou as mudanças que estão projetadas no Rio de Janeiro na área de transporte. Segundo o geógrafo, o projeto está priorizando a zona sul, onde a demanda de transporte é menor. Em compensação, o alto número de passageiros de Niterói e da zona norte não está sendo considerado.
A mesma falta de lógica, de acordo com ele, está presente nos projetos dos novos estádios. “A arquitetura exuberante está sendo valorizada, em compensação, estão deixando de lado a interação com o público, prevendo espaços maiores para áreas vips, diminuindo a capacidade dos estádios”, disse. Ele questiona o argumento de que tais empreendimentos trarão desenvolvimento e novos investimentos para as cidades, uma vez que os estádios não funcionam diariamente.
“Estamos com uma previsão de oito bilhões de reais, sendo cinco bilhões de investimentos públicos em estádios, e sabemos, de antemão, que quatro deles serão elefantes brancos: Natal, Manaus, Cuiabá e Brasília, onde não há times de futebol nem na terceira divisão”, frisou Gaffney. Para garantir a manutenção desses estádios, será necessário, segundo o especialista, um investimento anual de no mínimo seis milhões de dólares.
O Maracanã foi citado como exemplo do mau uso do dinheiro público. Em 1999, foram investidos 60 milhões de reais para colocação de cadeiras para o mundial da Fifa. Para as obras do Pan, foram gastos R$320 milhões para uma nova adequação e, quatro anos depois, tudo o que foi feito foi demolido para a Copa do Mundo. “Vamos chegar a quase dois bilhões de reais investidos no estádio do Maracanã nos últimos dez anos. Em compensação a capacidade do estádio será reduzida de 180 mil para 75 mil pessoas”, destacou. O dinheiro poderia ser melhor gasto, por exemplo, se investido no esporte de base e melhoria da estrutura das escolas. Apenas 15% das escolas fluminenses têm áreas de lazer.
“A cidade constrói o estádio e tem que entregar para a Fifa durante o mês da Copa. Na África do Sul, durante a Copa, a dívida chegou a 6 bilhões de dólares enquanto que no mesmo período o lucro da Fifa chegou a 4 bilhões de dólares. É uma transferência de dinheiro público para os cofres da Fifa”, finalizou.
O geógrafo fez uma denúncia. Falou do impacto negativo para a administração pública das cidades com a renúncia fiscal gerada pela construção da hotéis no padrão cinco estrelas: “O que vai acontecer com esses hotéis, que não tem que pagar IPTU até 2022 e são financiados pelo BNDES no Brasil inteiro?”.
O pesquisador destacou a importância de se identificar a geografia de interesses existentes por trás das grandes obras, seja por motivos políticos como econômicos, para que os profissionais da imprensa não se tornem meros reprodutores das declarações da FIFA e da COI. Para completar, citou uma lista com as empresas mais beneficiadas com as obras da Copa e da Olimpíada: Odebrecht, OAS, Carioca, Carvalho Hosken, Delta e empresas internacionais de aço, concreto, engenharia. “Temos que saber quais são os interesses econômicos, políticos, qual a geografia desses interesses”.
A palestra “Impactos urbanísticos das obras para Copa e Olimpíada no Brasil” foi realizada das 9h às 10h30 de 2 de julho de 2011, na sede da universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, como parte do 6º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji (www.abraji.org.br). Palestrante: Chris Gaffney (UFF) geostadia@gmail.com. Moderador: José Roberto de Toledo (O Estado de S. Paulo/Rede TV/Abraji). Clique para download da apresentação.
