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12/09/2020

Jornalismo tem poder para questionar as narrativas históricas que sustentam desigualdades, defende a ganhadora do Pulitzer Nikole Hannah-Jones

Em entrevista exclusiva, a repórter do New York Times fala sobre o sucesso do projeto 1619, que recontou a História dos Estados Unidos pelo ponto de vista da experiência dos negros americanos; 'O Brasil precisa de um projeto como esse'

Por: Giulia Afiune


E se a História do Brasil fosse recontada pelo ponto de vista das pessoas escravizadas? Foi um esforço parecido que rendeu um Prêmio Pulitzer em 2020 para a jornalista Nikole Hannah-Jones, que cobre direitos civis e injustiças raciais para a revista do New York Times.

O "1619" é um ambicioso projeto jornalístico que propõe outro ponto de vista para a História dos Estados Unidos, centrado nas contribuições que os negros americanos deram para a construção do país. 

Os ensaios que compõem o especial mostram como diversos fenômenos contemporâneos da vida nos Estados Unidos – desde a música popular, passando pelo alto índice de consumo de açúcar, até, claro, a violência policial – são desdobramentos da escravidão que perdurou por séculos e gerou um país extremamente desigual. 

A partir desse mergulho profundo na História americana, Nikole argumenta que o princípio de liberdade que estava presente na fundação dos Estados Unidos era falso, e que foi a luta dos negros para abolir a escravidão e conquistar seus direitos que trouxe esse ideal para mais perto da realidade. Por isso, a data de nascimento da nação não deveria ser 1776, quando a célebre declaração de independência americana foi assinada, e sim, 1619, quando os primeiros negros escravizados desembarcaram na costa da Virgínia.

Redações reproduzem o racismo e não se mobilizam por mudança, dizem jornalistas negras

"A imprensa, por ser um reflexo da sociedade, é racista e excludente", de acordo com Flavia Lima, ombudsman da Folha de S. Paulo

Por: Carlane Borges e Weslley Galzo
Edição: Vitória Macedo


“Quando participei desse congresso em 2018, vi cinco jornalistas negros. Dois estavam em um painel sobre raça. Isso é problemático em um país com uma população negra tão grande como a do Brasil. A Abraji e a imprensa precisam se responsabilizar sobre isso”, disse Nikole Hannah-Jones, repórter da revista do The New York Times (NYT) e vencedora do Prêmio Pulitzer de Comentário pelo Projeto 1619, na sua fala de abertura da mesa “Racismo dentro e fora das redações”.

No painel – mediado pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Flavia Lima, e com participação da ex-repórter da revista Piauí, Yasmin Santos – as experiências do processo de escravidão nos Estados Unidos e no Brasil foram discutidas a partir do trabalho das jornalistas. 
 
O Projeto 1619, criado por Nikole, reconta a história dos negros norte-americanos desde a chegada do primeiro escravizado angolano nos portos da Virgínia até os dias de hoje.