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12/09/2020

Educação midiática é o melhor remédio contra a desinformação

 Estratégia consiste em desenvolver senso crítico e ensinar sobre funcionamento das mídias, com potenciais impactos positivos para o jornalismo e para a democracia 

Por: Gustavo Honório e João Benz
Edição: André Martins


Caixão cheio de pedra para inflacionar os números da pandemia. Cocaína como prevenção à Covid-19. Vacina como causa autismo. Mamadeira de "piroca" e kit gay. Certamente, você já se deparou com alguns desses “fatos” de caráter duvidoso. Eles se disseminam mais rápido do que são combatidos – e a sociedade sofre com o estrago. No segundo dia do 15º Congresso da Abraji, foi discutida uma resposta eficiente para esse problema: a educação midiática.

“Trata-se de uma habilidade necessária para os dias atuais. A educação midiática habilita pessoas a acessar e interpretar criticamente toda a informação que recebem”, explica Patricia Blanco, presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta. Natália Leal, diretora de conteúdo da Agência Lupa, também presente na mesa, complementa: “Saber diferenciar uma informação verdadeira de uma falsa é uma discussão que precisa ecoar para toda a sociedade”. Ela, que também é professora do LupaEducação, braço de educação midiática da agência, reforça que esse debate não pode ficar preso no meio jornalístico. 

23/06/2016

Jornalistas lançam associação para aprimorar cobertura educacional na imprensa

Por Jeniffer Mendonça

A cobertura especializada em educação é um nicho pouco explorado pelos jornalistas brasileiros. Segundo pesquisa, 99% dos profissionais que cobrem a editoria na grande imprensa não receberam preparação para atuar na área. Foi esse cenário o ponto de partida para o lançamento da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), no painel "Novas e melhores formas de cobrir educação", nesta quinta-feira (23), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Foto: Alice Vergueiro
O mesa foi composta por Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Antonio Gois, colunista do jornal O Globo e um dos fundadores do projeto, Rodrigo Ratier, editor-executivo da revista Nova Escola e Alejandra Velasco, superintendente do Movimento Todos pela Educação com mediação de Renata Cafardo, da TV Globo e uma das fundadoras do Jeduca.

A ausência de cursos na área durante a formação do profissional e a crise econômica são fatores que influenciam a falta de espaço para se aprofundar o debate sobre o tema, segundo os palestrantes.

 "É necessário entender que a educação é uma ciência e o jornalista precisa ser capaz de entender esses conhecimentos", explica Gois, presidente da Jeduca.

A associação formada por e para jornalistas visa aprimorar a cobertura de educação por meio de guias, matérias, discussões e atendimento aos profissionais em todo o país.

 "As redações estão com cada vez com menos condições de reter talentos e debate sobre educação é fundamental. Nesse vácuo, precisa ter alguém para qualificar o jornalista", conta Gois, que ganhou o Prêmio Esso na categoria em 2012.

A aquisição de informações qualificadas sobre questões educacionais e a leitura e interpretação de dados também são dificuldades para os profissionais. O direcionamento para assessorias de imprensa e resquícios da Ditadura Militar, como as "leis da mordaça", que proíbem que funcionários públicos falem de forma depreciativa do governo em alguns Estados, são alguns dos obstáculos no setor.

Para Cara, a discussão depende da clareza das fontes oficiais e o parlamento é "sensível" para o que sai na imprensa. "Se a fonte que informa o jornalista for superficial, vai influenciar no debate público", ponderou. . 

O coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, por outro lado, enfatiza que a cobertura da imprensa é decisiva para a agenda pública em meio a repercussão de informações via redes sociais. "Há novas formas de comunicação, mas o veículo tem o poder de pautar o governo. Quando conseguimos pautar uma matéria na Agência Brasil, temos uma repercussão maior porque é muito replicada". 

A superintendente do movimento Todos Pela Educação acredita que o debate sobre o tema vem evoluindo com a discussão de rankings educacionais e políticas públicas. No entanto, ela ressalta que é preciso qualificar e ampliar a cobertura do tema. "Temos que deixar de pensar na educação como uma área restrita, e sim como um investimento. É um desafio a interlocução com setores regionais". 

Além disso, com o pouco tempo e espaço para a editoria nas redações, Gois explica a necessidade de acompanhamento cotidiano do tema, visitando escolas, conhecendo e estudando a área. "A experiência de assimilar as políticas públicas na prática é fundamental para enriquecer a matéria. Não é só uma aspa, uma foto bonita, é um aprendizado. Não é só ouvir dois lados." 

PERFIL

Ao revelar em sua tese de doutorado "Jornalismo e jornalistas de educação no Brasil: um olhar sociológico multifocal sobre história, estrutura, agentes e sentidos" que 99% dos profissionais da área não tiveram contato com a área na graduação, Ratier ressalta a ausência de formação específica nas faculdades.

 O editor-executivo da Nova Escola também identificou o perfil dos comunicadores da área: 74% são mulheres e 46% com idade até 30 anos. Os mais jovens representam 27%, sendo 8% com até dois anos na área, enquanto os com mais de 20 anos de carreira são 7%.

Para Ratier, o setor é desprestigiado e dificilmente os jornais destacam uma matéria sobre o assunto. "Em uma entrevista com o ministro de Educação, a equipe dessa editoria é deixada de lado e vão os repórteres de política", afirma.  


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

03/07/2015

Gaspari diz que imprensa 'comeu bola' no Fies

Por Karine Seimoha

Foto: Bruno Martins
Elio Gaspari, colunista da Folha de S.Paulo, veio hoje ao 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo, para falar de uma não-notícia: as mudanças do Financiamento Estudantil (Fies) ocorridas em 2010. Para ele, os jornalistas demoraram para perceber indícios de irregularidade no programa que custeia o estudo de milhares de jovens no Brasil.

Gaspari explicou que em 2010, Fernando Haddad, então ministro da Educação, anunciou uma série de alterações no Fies, que incluíam a possibilidade de um aluno que tinha zerado a redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) conseguir um financiamento. Pouco tempos após o anúncio das mudanças, em março do mesmo ano, o número de estudantes do Fies teve um crescimento de 485%, alcançando a marca dos 827 mil alunos. Desta forma, ⅓ dos estudantes das instituições privadas do país eram advindos do programa.

Em abril de 2010, Samuel Pessoa, economista tido como conservador, fez comentários elogiosos ao programa de acesso a educação. Ainda em 2010, desta vez no mês de setembro, o Banco Morgan fez a previsão, que viria a se concretizar apenas cinco anos depois: o dinheiro investido não retornaria aos cofres públicos.

A explicação para esse fato é relativamente simples. Segundo Gaspari, "com o Fies, as universidades privadas se livraram das mensalidades, pois transferiram o custo da mantenedora para a 'conta da viúva' (governo federal). Assim, segundo ele, "o programa deixou de ser um problema de Educação e passou a ser um problema de Economia".

A partir disso, as pautas relacionadas ao programa de financiamento de estudos migraram das editorias de educação e passaram a integrar os cadernos de economia sob duas possíveis perspectivas: os rombos nos cofres públicos e os "falsos problemas", que são, no fundo, uma crítica ao Ministério da Educação (MEC).

"Cobrir educação no MEC é como cobrir saúde no Ministério da Saúde. Simplesmente não funciona! O Ministério da Saúde funciona para campanhas de vacinação, não para hospitais. Cobrir um hospital que funciona é o Hospital do Capão Grande, é o Sírio [Libânes], é o [Albert] Einstein." E completou, "mais grave que isso é receber um press release do Fies e não perceber que aquilo é maluquice".

José Roberto de Toledo, colunista d'O Estado de S. Paulo e mediador da mesa, afirmou que, após levantamento feito pelo Estadão, verificou-se que algumas empresas de ensino receberam, em 2014, mais verba do governo que os empreiteiros presos na Operação Lava Jato. Corroborou a tese de Gaspari sobre a possível explicação para o não-crescimento do número de alunos na rede privada de ensino superior, "os alunos apenas migraram".

Paralelamente a isso, observou-se que o valor das mensalidades de tais instituições de ensino aumentou, bem como os valores das ações dos grupos aos quais pertencem as instituições. Após a publicação da matéria, Toledo afirmou que os valores relativos às ações da bolsa dessas empresas tiveram uma queda significativa.

Toledo ainda acrescentou que após a campanha presidencial e a reeleição, a presidente Dilma Rousseff (PT) assumiu que as modificações ocorridas no Fies em 2010 foram um grande erro do governo petista.

Ao final da mesa, Gaspari respondeu a pergunta com a qual abriu o debate: "tudo do Kennedy aconteceu em meia hora. Levamos cinco anos para descobrir uma mudança feita em 2010. Isso é uma maluquice!"

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.