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25/06/2016

A missão do jornalismo é impactar a sociedade, afirmam Sakamoto e Torturra


Por Phillippe Watanabe 


Impactar a sociedade é ponto central da atividade jornalística. Segundo Bruno Torturra, coordenador do Fluxo, e Leonardo Sakamoto, fundador da Repórter Brasil, para alcançar isso é necessário apostar no trabalho em rede e esquecer o ego e a fama que podem vir com um furo.

Fotos: Alice Vergueiro
Os jornalistas participaram do painel "O non-profit tem futuro no Brasil?", que discutiu modelos de jornalismo sem fins lucrativos na manhã de sábado (25) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A mediação foi da advogada Ana Valéria Araújo, coordenadora-executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Sakamoto contou os bastidores da denúncia realizada pela Repórter Brasil em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego sobre a atividade análoga à escravidão na Zara, uma das maiores empresas do setor têxtil do mundo, e de como tudo foi pensado para atingir um determinado público e se disseminar pelas redes. "Por que escolhemos compartilhar primeiro com a BBC? Para internacionalizar a denúncia. Por que primeiro com a A Liga? Pela TV, para chegar aos jovens que usam a marca".

Outro exemplo de desapego pela exclusividade foi feito por Torturra. Após reunir uma boa quantidade de imagens sobre mães chilenas que plantam maconha para produzir remédios para os filhos, o Fantástico entrou em contato com ele demonstrando interesse pelo material.

"Se o vídeo fosse muito bem-sucedido no Fluxo, eu teria 20 mil visualizações e o público diria que eu faço um trabalho legal. Preferi que toda a família brasileira visse isso", disse Torturra.

SAÚDE FINANCEIRA

Para causar impacto, as redações precisam ser autossustentáveis. A Repórter Brasil foi fundada como ONG para conseguir pulverização de fontes de renda. Segundo Sakamoto, o financiamento internacional é responsável por cerca de 60% da receita da organização. As principais contribuições vêm da Holanda, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Os recursos estatais nacionais não chegam a 5%.

"Se a gente fosse uma empresa com fins lucrativos, com o que fazemos, seríamos acusados de alguma coisa o tempo todo", disse Sakamoto.

O caso do Fluxo é um pouco diferente. A iniciativa se mantém por doações dos leitores. "Não sou uma empresa com fins lucrativos porque eu não dou lucro mesmo", contou.

Torturra demonstrou preocupação com ofertas de dinheiro de instituições privadas em busca de conteúdo customizado. "É muito perigoso aceitar o dinheiro que está dado a sua frente, podemos virar refém".

Mesmo com as dificuldades de receita enfrentadas dentro do modelo non-profit, as iniciativas do setor se multiplicam. Torturra adiantou que, seguindo esse modelo, alguns de seus amigos estão para relançar a revista Bravo!, encerrada em 2013.

O fundador da Repórter Brasil diz que não tem mais vergonha de ir atrás de financiamento. "Peço dinheiro da mesma forma que dou bom dia", brincou.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

24/06/2016

"Delações desacompanhadas de provas técnicas podem gerar falsas alegações", diz perito da Lava Jato

Por Erick Noin


O perito criminal do departamento da Polícia Federal de Curitiba e integrante da operação Lava-Jato Fábio Salvador afirmou nesta sexta-feira (24), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, que testemunhos e deleções desacompanhadas de provas técnicas que lhes deem solidez podem gerar erros se baseadas em alegações falsas.  

Foto: Alice Vergueiro
Segundo Salvador, é justamente nessa questão que reside a importância da perícia e da produção de provas através de processos científicos. Sem a produção de provas suficientes, a atribuição de culpa a um acusado fica mais difícil, segundo o policial federal. 

Ele ressaltou que, até o momento, as delações premiadas homologadas na Lava Jato foram confirmadas. "O corpo comprobatório técnico-científico dentro da operação está sustentando as decisões de todo mundo, as investigações e as decisões judiciais".

O perito comandou o painel "Bastidores da Lava-Jato: o uso de tecnologia e desafios da perícia no combate à corrupção", que teve como mediador o repórter da Folha de S.Paulo Rubens Valente.

Formado em geologia, Salvador é apenas um dos "cientistas" que compõe o quadro de peritos na operação. Na equipe há engenheiros, contabilistas e técnicos de informática que, segundo o palestrante, são os mais importantes dentro da operação. Devido à elevada demanda de perícias nessa área, por envolver entre os investigados as maiores empreiteiras do Brasil, com complexo sistema de movimentação e lavagem de dinheiro e grande quantidade de dados gravados em celulares e computadores apreendidos, esses profissionais se tornaram indispensáveis.

O trabalho de perícia também é importante para evitar erros que afetem a confiança na operação e na própria instituição, segundo o perito. Salvador lembrou do caso da cunhada do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, que foi presa temporariamente por engano ao ser confundida com a esposa do petista devido à falta de apuração de elementos que identificassem a real procurada. "O erro da cunhada de Vaccari virou munição do PT contra a credibilidade da Lava-Jato e da PF", contou.

FUTURO DO COMBATE À CORRUPÇÃO

Salvador lembrou das dificuldades encontradas no início da operação, principalmente com a falta de peritos. "Ninguém sabia o que aconteceria quando tudo começou num posto de gasolina. Se no começo havia uma demanda de realização de 300 perícias com pouca gente, hoje a demanda é de mais de 1.300", revelou.

Quando o assunto é o futuro, ele se diz otimista. Perguntado se o presidente interino, Michel Temer, representa uma ameaça à investigação, ele negou prontamente: "Não, muito pelo contrário". 

O policial federal mostrou confiança no apoio manifestado pelo governo, citando a recente visita do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ao prédio da Polícia Federal em Curitiba. O perito também fez questão de frisar repetidas vezes que a condução da Lava Jato é "apartidária".

No entanto, ele demonstrou desconfiança com a desvinculação da Controladoria Geral da União realizada nos primeiros dias do governo Temer, o que pode ameaçar a autoridade do órgão no combate à corrupção. "Estamos inseguros, o momento é complexo".



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Na academia, pesquisadores exploram ferramentas, linguagens e ideias do jornalismo

Por Caio Nascimento

Exibida na manhã desta sexta-feira (24), a primeira rodada do "III Seminário de Pesquisa em Jornalismo Investigativo" destacou quatro projetos analíticos do gênero. Os selecionados nesta edição apresentaram estudos sobre liberdade de imprensa, segredo de justiça, Lei de Acesso à Informação e linguagem narrativa.

Foto: Alice Vergueiro
O pesquisador Rodrigo Daniel da Silva, pós-graduando em "Corrupção: controle e repressão a desvios de recursos público" pela Estácio-RS, apresentou seu artigo sobre segredo de justiça e a liberdade de imprensa.

Em sua pesquisa, Silva chegou à conclusão que a liberdade de imprensa e o direito à informação se tornaram vitais para a sociedade moderna. "Os desinformados são as primeiras vítimas na luta pela vida", afirmou.

Ele considera a liberdade de imprensa algo essencial para a sobrevivência humana e afirmou que ela ainda não é plena no Brasil, apesar de garantida pela Constituição. Para o jornalista, os juízes estão deliberando sentenças a partir de suas próprias decisões. "A concepção do Barão de Montesquieu de que o juiz é apenas a boca da lei ficou para trás. Hoje, eles têm um poder de decidir os rumos do país", disse.

Silva também pontuou o rompimento do segredo de justiça por parte dos jornalistas. "Os favoráveis à quebra do sigilo dizem que toda informação de interesse público deve ser publicada, mas não podemos nos revestir com esse manto para informar qualquer coisa e quebrar direitos como o da privacidade".

Em relação à proibição da divulgação de processos em segredo de justiça pelo artigo 156 do Código Penal, o pesquisador interpreta que, se o jornalista publica uma informação sigilosa que lhe foi passada, o sigilo já foi quebrado antes de chegar a ele. "O repórter não pode ser penalizado por isso", defendeu.


LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO

Verônica Rufino, mestranda em jornalismo pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), escreveu um artigo sobre a Lei de Acesso à Informação como ferramenta de combate à corrupção por jornalistas investigativos.

Orientada pelos professores Pedro Benevides e Sandra Moura, a jornalista analisou uma reportagem da série "Cadê o dinheiro que estava aqui?", exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, que trata do caso de desvio de dinheiro público nas prefeituras do Crato e de Juazeiro do Norte, no Ceará, para empresas de fachada com contratos superfaturados. "Utilizei algumas informações do Ministério Público Federal, da Controladoria Geral da União e da própria Câmara Municipal de Juazeiro do Norte", contou.

A matéria analisada na pesquisa foi elaborada pelo repórter investigativo Eduardo Faustini, conhecido pela discrição.  Para Verônica, a função de Faustini na matéria é uma atividade fundamental para se revelar casos de corrupção. "O Eduardo é o autor social responsável pela exibição desses fatos voltados para a investigação da corrupção. Isso vai  de encontro com o interesse do bem comum", ressaltou.

Priscila Ferreira, aluna de jornalismo da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), integra a turma que produz o Lampião, jornal laboratório da faculdade. Com o auxílio da professora Karina Barbosa, ela elaborou uma pesquisa sobre o uso da Lei de Acesso à Informação no periódico universitário.

De acordo com a estudante, a norma não é trabalhada no ensino superior e muitos alunos só tomam conhecimento da lei quando entram no jornal laboratório, no 5º semestre da graduação. 

"O curso não dá assistência ao aluno para ele tomar conhecimento da lei", afirma. Priscila também aponta que a influência no processo de produção de um veículo que não faz uso de dados, acaba dando ao trabalho jornalístico um teor testemunhal. "No desastre socioambiental em Mariana, o jornal Lampião não tinha retorno dos órgãos públicos e ficamos reféns das informações da Samarco", disse.

NARRATIVA JORNALÍSTICA

Recém-formada em jornalismo, Gabriele Koster traçou em seu TCC uma análise de conteúdo das reportagens da Publica, agência de reportagens de jornalismo investigativo, com a orientação do professor Felipe Simão, quem a representou no painel.

De acordo com Simão, o objetivo do projeto foi a apuração da estrutura narrativa dos textos do veículo a partir das ideias do jornalista Luiz Gonzaga Motta, conhecido pelo estudo da narrativa.  

Segundo o professor, a Publica tem uma grande preocupação com a narrativa da matéria. "As reportagens deles têm liberdade na narrativa literária, mas o trabalho de investigação jornalística caracteriza muito a singularidade do trabalho jornalístico em oferecer dados que são a própria narrativa", conclui o professor.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


Especialistas questionam credibilidade de mídias tradicionais e novas

Por Caio Nascimento 

Ao discutir a relação entre novas mídias e mídia tradicional durante o primeiro dia do 11º Abraji (Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo), nesta quinta-feira (23), Dimmi Amora, repórter da Folha de S. Paulo, Bruno Torturra, fundador da Mídia Ninja, e o doutor em Ciência Política Fernando Lattman questionaram a credibilidade da imprensa. 


Fotos: Alice Vergueiro
Para Dimmi Amora, a mídia precisa seguir um Estado Democrático de Direito consolidado para não ser cooptada por interesses de instituições, conseguindo, assim, manter um discurso relevante para seu público. O jornalista disse que a competitividade entre as mídias, uma boa estrutura econômica do veículo e a diversidade de opiniões dentro dele garantem recursos suficientes para aguentar a pressão dos grupos de interesses. 

"As redações em geral são poucos diversas. Elas são formadas por grupos da sociedade muito homogêneos e isso reflete no que será publicado e nas fontes que formarão a opinião pública", afirmou Amora.

De acordo com o repórter da Folha de S.Paulo, esses fatores são necessários para a credibilidade do trabalho jornalístico. Amora relaciona a pluralidade do veículo à proximidade que ele tem com o seu público. 

Segundo o profissional, uma causa da falta de confiança do leitor é a mistura entre publicidade, opinião e informação. "Hoje não se separam essas três coisas e isso tem colaborado para que confundamos jornalismo com militância. Duas palavras que devem andar separadas", ressaltou. Para Amora, a militância desequilibra a notícia e não mostra os dois lados da moeda, dando ao leitor um só direcionamento. "Esse desequilíbrio leva ao radicalismo e fica nítido nas redes sociais", salientou.


Torturra reforçou essa posição, afirmando que as empresas da informática, como o Google e o Facebook, estão monopolizando o mercado da informação. Segundo o fundador da Mídia Ninja, essas plataformas quebraram a estrutura do modelo de negócio pelo qual a notícia se dava e modificaram a produção da informação. 

Para Torturra, essa nova arquitetura digital leva à fusão dos departamentos comercial e editorial, visto que os "likes" nas redes sociais funcionam como um endosso e angariam visibilidade ao veículo. "Essa união é o fenômeno mais perigoso pelo qual estamos passando hoje", destacou.

Abordando organização de um veículo, Fernando Lattman ressaltou que a institucionalização e a abertura comercial e empresarial dos meios de comunicação no passado colaboraram na construção de uma ética para o jornalismo. 

Segundo o doutor em Ciência Política, a notícia tem um valor de uso e um valor de troca ligados à credibilidade. "Você compra a notícia ao comprar jornais, assinar canais pagos etc. A notícia só pode ser feita pelo seu valor de uso", afirmou o sociólogo.

Torturra discordou. De acordo com o fundador da Mídia Ninja, a credibilidade não significa valor monetário como no passado. "A confiança não é mais essencial para o sustento financeiro de uma instituição porque, hoje, o valor que se extrai da sociedade não vem necessariamente da credibilidade. Os tempos mudaram", apontou. 

Para o jornalista, as empresas visam a produzir conteúdos interessantes para acessar o leitor, mas não o contrário. "O público compra um veículo porque acha que ele é mais ou menos crível ou por questão de identidade, mas o que a mídia vende ao seu cliente não é a informação, mas o acesso a esse público", ressaltou Torturra.

 'IMPRENSA MONARQUISTA' 

Segundo Torturra, o problema das mídias tradicionais brasileiras é a forma como os veículos que as cobrem são concentradas no país, enquanto que a mídia alternativa é mais diversa. "A República não chegou à grande imprensa, que ainda é monarquista, uma vez que são os sobrenomes que falam mais alto".

Torturra também criticou a radicalidade que a mídia alternativa pode alcançar. "Acho que o problema é que quando se assume uma narrativa com um só foco, se estabelece uma versão da realidade que o repórter da nova mídia leva ao público", disse. "Isso tem implicações muitos sérias; pode gerar discursos radicais."

Para reverter esse quadro, Amora reforça a necessidade de as novas gerações entrarem nos jornais, ocuparem os cargos e pensarem diferente do modo "monárquico" que,  na visão deles, caracteriza o atual jornalismo. 

"A forma monárquica passa dos superiores para os subordinados", apontou Amora. Segundo o repórter, a falta de diversidade faz com que o jornalismo careça de uma visão igualitária sobre o que acontece na sociedade. Além disso, afirma que muitos jornalistas, tanto da nova mídia quanto da tradicional, levam preconceitos do cotidiano para a redação. "É preciso renovar a mídia tradicional. A visão de muitos jornalistas ainda funciona sob o modelo Casa Grande-Senzala", conclui Amora.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

23/06/2016

Jornalistas lançam associação para aprimorar cobertura educacional na imprensa

Por Jeniffer Mendonça

A cobertura especializada em educação é um nicho pouco explorado pelos jornalistas brasileiros. Segundo pesquisa, 99% dos profissionais que cobrem a editoria na grande imprensa não receberam preparação para atuar na área. Foi esse cenário o ponto de partida para o lançamento da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação), no painel "Novas e melhores formas de cobrir educação", nesta quinta-feira (23), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji.

Foto: Alice Vergueiro
O mesa foi composta por Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Antonio Gois, colunista do jornal O Globo e um dos fundadores do projeto, Rodrigo Ratier, editor-executivo da revista Nova Escola e Alejandra Velasco, superintendente do Movimento Todos pela Educação com mediação de Renata Cafardo, da TV Globo e uma das fundadoras do Jeduca.

A ausência de cursos na área durante a formação do profissional e a crise econômica são fatores que influenciam a falta de espaço para se aprofundar o debate sobre o tema, segundo os palestrantes.

 "É necessário entender que a educação é uma ciência e o jornalista precisa ser capaz de entender esses conhecimentos", explica Gois, presidente da Jeduca.

A associação formada por e para jornalistas visa aprimorar a cobertura de educação por meio de guias, matérias, discussões e atendimento aos profissionais em todo o país.

 "As redações estão com cada vez com menos condições de reter talentos e debate sobre educação é fundamental. Nesse vácuo, precisa ter alguém para qualificar o jornalista", conta Gois, que ganhou o Prêmio Esso na categoria em 2012.

A aquisição de informações qualificadas sobre questões educacionais e a leitura e interpretação de dados também são dificuldades para os profissionais. O direcionamento para assessorias de imprensa e resquícios da Ditadura Militar, como as "leis da mordaça", que proíbem que funcionários públicos falem de forma depreciativa do governo em alguns Estados, são alguns dos obstáculos no setor.

Para Cara, a discussão depende da clareza das fontes oficiais e o parlamento é "sensível" para o que sai na imprensa. "Se a fonte que informa o jornalista for superficial, vai influenciar no debate público", ponderou. . 

O coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, por outro lado, enfatiza que a cobertura da imprensa é decisiva para a agenda pública em meio a repercussão de informações via redes sociais. "Há novas formas de comunicação, mas o veículo tem o poder de pautar o governo. Quando conseguimos pautar uma matéria na Agência Brasil, temos uma repercussão maior porque é muito replicada". 

A superintendente do movimento Todos Pela Educação acredita que o debate sobre o tema vem evoluindo com a discussão de rankings educacionais e políticas públicas. No entanto, ela ressalta que é preciso qualificar e ampliar a cobertura do tema. "Temos que deixar de pensar na educação como uma área restrita, e sim como um investimento. É um desafio a interlocução com setores regionais". 

Além disso, com o pouco tempo e espaço para a editoria nas redações, Gois explica a necessidade de acompanhamento cotidiano do tema, visitando escolas, conhecendo e estudando a área. "A experiência de assimilar as políticas públicas na prática é fundamental para enriquecer a matéria. Não é só uma aspa, uma foto bonita, é um aprendizado. Não é só ouvir dois lados." 

PERFIL

Ao revelar em sua tese de doutorado "Jornalismo e jornalistas de educação no Brasil: um olhar sociológico multifocal sobre história, estrutura, agentes e sentidos" que 99% dos profissionais da área não tiveram contato com a área na graduação, Ratier ressalta a ausência de formação específica nas faculdades.

 O editor-executivo da Nova Escola também identificou o perfil dos comunicadores da área: 74% são mulheres e 46% com idade até 30 anos. Os mais jovens representam 27%, sendo 8% com até dois anos na área, enquanto os com mais de 20 anos de carreira são 7%.

Para Ratier, o setor é desprestigiado e dificilmente os jornais destacam uma matéria sobre o assunto. "Em uma entrevista com o ministro de Educação, a equipe dessa editoria é deixada de lado e vão os repórteres de política", afirma.  


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Ferramenta de análise de dados gratuita pode auxiliar na divulgação e marketing de veículos digitais


Por Bianca Baptista

Seguindo os passos do técnico campeão da última Copa do Mundo, Joachim Löw, Tite, ao assumir a seleção brasileira de futebol na segunda-feira (20), "escalou" dois analistas de dados para o time canarinho.

Não só eles, como também todos os clubes de futebol da primeira divisão da Europa possuem especialistas no Analytics, ferramenta oferecida gratuitamente pelo Google e apresentada por Guilherme Paes na tarde desta quinta-feira (23) no curso "Conheça os hábitos de seu público: como medir audiência na web" durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Foto: Alice Vergueiro
O Google Analytics é um mecanismo de análise de dados quantitativos e qualitativos que permite a melhoria continua de experiência de seus usuários.

No caso esportivo, são registradas e avaliadas referências físicas e de desempenho que podem influenciar em uma escalação.

"Verifica-se quantos quilômetros um jogador correu na última partida, qual foi sua média, se está cada vez mais rápido ou devagar", explica Paes. "Se a velocidade tem diminuído e o espaço crescido, então ele está cansado", diz.

O mecanismo, porém, não tem função unicamente futebolística e pode ser utilizado na análise de números de audiência de produtos jornalísticos, por exemplo.

Para Paes, o futuro da análise de dados está em "deixar de usar a informação isolada e usá-la em um contexto", como no caso de blogs, onde seria possível verificar o engajamento e frequência dos leitores.

A principal técnica de análise de dados, segundo o palestrante, é a segmentação. "Podemos colocar filtros até descobrir quem faz parte de uma audiência", conta o especialista do Google. Essas ferramentas permitem descobrir idade, sexo, raça e endereço do público que acessa as páginas na internet.

A Analytics também expõe comportamentos de dia, horário e devices. "Se feita de um mobile, a leitura se torna linear e só se mantém uma aba aberta. No caso de um desktop, normalmente o usuário interage com várias abas ao mesmo tempo e pode haver a presença de links externos, favorecendo a efetividade de anúncios", explica Paes.

Outra funcionalidade do Analytics voltada para o uso jornalístico é o Pace (Page Analytics Chrome Extension), que permite a visualização em tempo real de acessos em sites. "É possível ver quantas pessoas estão vendo, clicando e com o mouse em cima de um determinado espaço da página", diz. A partir do estudo desses resultados, pode-se verificar o real proveito de layouts e da localização de conteúdos pela página.

O agrupamento -- criação de categorias e estruturas lógicas da visualização de um site -- de conteúdo também pode ser compreendido através da análise de dados. "Quando se combina isso com o relatório de fluxo de comportamento dos usuários é possível ver quais são os diferentes caminhos que fazem para chegar a cada grupo de conteúdo", conta.

O entendimento da análise de audiência de produtos jornalísticos é importante para definir estratégias de divulgação e marketing. Além disso, possuir dados que comprovem o perfil de um público aumenta a probabilidade de vender anúncios, segundo o especialista do buscador.

"Modelos de publicidade do mundo inteiro já descobriram que anunciar pela internet é mais barato. A análise de dados pode ajudar a melhorar a performance de seus anúncios e a experiência de seus usuários", afirma Paes.

O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.



Recém-formados exploram linguagem multimídia nos trabalhos de conclusão de curso

Por Tiago Aguiar


Apresentada nesta quinta-feira (23) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, a mesa “TCCs de jornalismo: a produção multimídia dos recém-formados” destacou três ideias inspiradoras. Os jovens jornalistas selecionados pela Abraji para apresentar seus trabalhos no painel apostaram em inovação da linguagem para driblar a crise que assola o modelo de negócios do mercado tradicional. 

Foto: Alice Vergueiro
A primeira a apresentar seu trabalho foi Bruna de Faria, formada pela Universidade Federal de São João del-Rei. Ao desenvolver o livro-reportagem Realidades Musicais, uniu duas paixões: quadrinhos e música. O projeto, que aborda histórias de sujeitos e suas relações singulares com cancões, foi ilustrado e roteirizado pela própria autora.

“Minha intenção foi mostrar como os quadrinhos são uma alternativa para o fazer jornalístico e também levar esse assunto para o ambiente acadêmico”, diz Bruna, que começou a trabalhar com o formato anteriormente ao TCC, em uma pesquisa de iniciação científica.

Outro participante, Felipe Neves, adotou o formato audiovisual para mostrar em seu trabalho final do curso de jornalismo da PUC-SP (Pontíficia Universidade Católica de São Paulo) um retrato da complexidade das várias ramificações evangélicas existentes no país, que juntas somam 25% da população.

 “Durante toda a graduação sempre fiz a filmagem nos trabalhos das disciplinas de audiovisual. O documentário eu fiz sozinho, já estava minimamente preparado”, conta Neves.

O resultado foi o documentário “Púlpito e Paralamento” (67 minutos, 2015) que trata da relação de evangélicos enquanto eleitores e enquanto políticos.

O então estudante percorreu São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília durante o último ano da faculdade para captar as imagens e depoimentos do filme. Além das distância, Neves, que é evangélico e morador da periferia de São Paulo, encarou outro desafio: separar o pessoal do profissional.

“Tentei ser o mais jornalístico possível. Sei que o processo nunca é imune de subjetividades e por isso tornou-se um documentário”, diz.

Carlos Juliano Barros, diretor do documentário “Eu, Jean Willys”, sobre a atuação de Jean Willys na Câmara dos Deputados, foi referência para Neves durante toda a produção. De quebra, ele acabou participando da banca do estudante na PUC. O trabalho do estudante agradou tanto que o diretor acabou comprando imagens feitas por Felipe. “Foi a única arrecadação que tive no processo”.

 Veja o documentário “Púlpito e Paralamento”, de Felipe Neves:


Natália Blanco, Brenno Souza e Melissa Lima se uniram na Universidade Metodista de São Paulo, no final de 2015, para tratar sobre o programa Bolsa-Família. Inspirados por aulas de empreendedorismo e no modelo da Agência Pública, foram além do projeto inicial e resolveram criar a Esquiva: agência de Jornalismo Independente especializada em Políticas Públicas.

 A reportagem especial sobre o programa social foi feita, mas virou projeto-piloto. “O jornalismo on-line é bom porque permite publicar tudo sobre assuntos que nunca se esgotam, como o caso do Bolsa Família”, conta Melissa.

 Os três foram responsáveis por todo o processo, inclusive a programação do site. Na página, é possível encontrar informações em formato de infográficos, vídeos, textos e áudios.

 A intenção dos jornalistas é manter o projeto. “Assim como a Agência Pública, queremos dar continuidade ao nosso projeto através de crowdfunding”, afirma a fundadora do projeto.

Esta edição do Congresso foi a que mais recebeu inscrições para apresentação de TCCs, segundo a diretora da Abraji Leticia Duarte e moderadora da mesa. “Dessa vez precisamos pedir um reforço na análise”, conta. Foram 35 trabalhos inscritos neste ano, o maior volume desde que se iniciou a seleção de trabalhos de conclusão de curso, há três anos. Além dos três trabalhos multimídia, foram selecionados outros três em formato de livro-reportagem, apresentados em painel à tarde.

04/07/2015

Participantes avaliam o 10º Congresso da Abraji

Por Ruam Oliveira

Foto: Bruno Martins 
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, que aconteceu nos dias 2, 3 e 4 de julho em São Paulo teve 72 painéis com os assuntos mais discutidos na mídia nacional e internacional. Com cerca de 120 palestrantes e 600 inscritos, o evento mesclou mesas, seminários e cursos para mais de 800 participantes - incluindo os palestrantes - de diferentes Estados, e do exterior.

"Eu vim para ficar um dia e estou ha três, adiei minha ida porque achei tão interessante, tem tanta coisa pra ouvir e para aprender com jornalistas mais jovens e que fazem coisas diferentes", conta a jornalista Miriam Leitão, da Globo. Ela enfatizou que todo jornalismo deve ser investigativo em sua natureza. Para Miriam, a investigação não está só no caso policial. "Eu acho que a Abraji virou a maior representação de jornalistas brasileiros no Brasil", afirma.

O evento reuniu jornalistas, estudantes de comunicação e recém formados na área, além de outros universitários que foram ao evento com objetivos específicos. Natália Nadai, estudante de Direito da Faculdade de São Bernardo, participou da mesa sobre Censura Judicial no Brasil. "É minha primeira vez no congresso, e achei que os palestrantes sabiam do que estavam falando", conta a estudante. Natália diz que veio exclusivamente para assistir este painel, mas que voltaria ao congresso outras vezes. Diferente de seu colega Dennys Camara, que apesar de ter gostado do painel, voltaria apenas para painéis específicos da área de direito. "Eu vim ver a parte jurídica", conta. 

Natália Nadai (Foto: Bruno Martins)
Durante o evento, os participantes destacaram a possibilidade de troca de informações. A rede social foi tema de uma das mesas do congresso, com a participação do diretor de jornalismo do Twitter no Brasil, Leonardo Stamillo. "Eu costumo falar para os jornalistas eles estão acostumados a enxergar o Twitter como se fosse uma boca, por onde você fala, por onde você dá sua opinião, mas ele é um ouvido super preciso da sociedade. Você só precisa entender como montar uma busca, uma pesquisa e você vai ouvir o que a população está falando sobre os mais variados assuntos.", diz.

Alguns estudantes colaboraram com o evento. Daniela Martins, do segundo semestre de Jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi destacou que o melhor de todo o congresso foi poder conhecer autores que leu durante o curso, destacando a ausência de alguns. "Faltou o Caco Barcellos, um dos autores de jornalismo investigativo que li e que senti falta."

"O congresso ajudou a me decidir sobre a área que quero seguir, onde trabalhar e onde não trabalhar", diz o estudante Matheus Mattos, que cursa o primeiro semestre de Jornalismo na mesma universidade.

Basile e Netto (Foto: Bruno Martins)
 O jornalista do Valor Econômico, Juliano Basile também destacou a interação dos participantes. Basile participou de uma mesa sobre os furos da Lava jato e aponta que gostou muito da "participação dos estudantes e dos assessores das empresas envolvidas". O jornalista ressalta que encontrar estes assessores é também "uma forma de pedir a eles que nos abram as suas fontes, e que eles contem o que aconteceu."

O diretor da Abraji e jornalista da TV Globo Vladimir Netto afirma estar satisfeito com os resultados da décima edição. "Conseguimos aprofundar temas que são importantes, discutindo as questões que estão realmente na linha de frente da cobertura nacional", diz. Este ano o congresso discutiu a operação Lava Jato, o caso Swissleaks, regulação da mídia, e outros temas discutidos em nível nacional. "A gente pode fazer o que realmente viemos fazer aqui, que é discutir a fundo as questões do jornalismo nacional neste ano", diz Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Para Grizotti, uso de câmaras escondidas em reportagens é benéfica para sociedade

Foto: Beatriz Sanz
Para Giovani Grizotti, repórter investigativo do programa jornalístico Fantástico, da Rede Globo, o uso de imagens escondidas em reportagens se justifica pelos benefícios que suas revelações geram à sociedade. Na visão do jornalista, o uso da câmara escondida em uma reportagem de denúncia passou de principal prova de um crime para elemento complementar no processo de apuração jornalística.

"O interesse público que está por trás de uma imagem torna ético o uso da câmara escondida", ressaltou o jornalista em painel do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, sob moderação de Fernando Molica.

Grizotti relembrou o caso de um acidente de ônibus escolar causado por problemas mecânicos, em 2004, no município gaúcho de Erechim, que resultou na morte de 16 crianças. Uma reportagem produzida pelo jornalista utilizando câmera oculta revelou fraudes em laudos de vistoria para ônibus de excursão envolvendo o engenheiro responsável e resultou na abertura de sindicância pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Sul (DAER).

O repórter conta que em casos de maior repercussão, como no caso da "Máfia das Próteses", ele acompanha o passo a passo das investigações e, geralmente, é chamado para testemunhar no processo. Sua reportagem sobre o esquema, exibida pelo Fantástico em janeiro deste ano, denunciou o pagamento comissões a médicos pela venda de próteses e resultou em duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Nacional.

Neste caso, Grizotti afirma que um dos representantes de uma empresa de próteses já tinha conhecimento sobre a investigação do Ministério Público, que corria em segredo, e sabia sobre a reportagem que viria ser publicada sobre o tema.

O reconhecimento, no entanto, é um problema para "o repórter sem rosto". Grizotti, que evita ser fotografado para garantir sua segurança, já fora reconhecido e ameaçado por pessoas denunciadas em suas reportagens. Além disso, conta, o vazamento de uma foto sua pode vir a prejudicar futuras investigações. 

Com 19 anos de experiência na cobertura investigativa da RBS, Grizotti ainda explicou sobre as técnicas que utiliza no processo de produção de uma reportagem. O repórter explica que, para evitar cair em eventuais armadilhas, nunca faz contato pessoal com suas fontes, exceto quando envolve recebimento de materiais. "A não ser que seja um funcionário público, só me encontro com fontes em shopping, praças e onde tem alguém observando', concluiu.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

02/07/2015

Estudantes pesquisam formas de perseguição e violência contra jornalistas


Por Phillippe Watanabe


Foto: Phillippe Watanabe
Um jornalista precisa se acostumar com ameaças e, ao mesmo tempo, entender que uma pauta nunca valerá uma vida. Essa é a opinião unânime entre as fontes ouvidas por um grupo de estudantes da Anhembi-Morumbi para seu trabalho de conclusão de curso.



A reportagem multimídia intitulada "Silenciados", que reúne linguagem acessível, fotos, áudios, vídeos e uma estrutura que dispensa a leitura em sequência, foi tema da mesa "TCC - Silenciados: a violência contra o jornalista no Brasil", nesta quinta-feira (2).

A ideia do trabalho surgiu em meio às manifestações que se alastraram pelo país nos últimos anos. Para o grupo, nas revoltas de junho de 2013 ficou evidente, mais visível e palpável do que nunca, o tratamento baseado em descaso e violência que parte da Polícia Militar direciona para a população em geral e para jornalistas.

"Em momentos trágicos é que começamos a pensar na segurança dos jornalistas. Infelizmente, ganha-se evidência em  tragédias como essas [nas manifestações]", diz Marcos Mortari, um dos seis autores do projeto.

Para o grupo, o tema escolhido toca a todos e  é relevante para a sociedade, não só para os profissionais da comunicação.

Quando se pensava que os exemplos de tais condutas policiais sumiriam do radar por um tempo, manifestações em 2014 trouxeram novamente, de forma impossível de ignorar, ao olhar público os abusos policiais.

Priscila dos Santos Pacheco, uma das realizadoras do trabalho, ressalta que o objetivo do grupo era evidenciar e conscientizar o público leigo sobre o tema da violência contra a imprensa, seja ela praticada pelo braço armado do Estado – ponto que tem destaque na análise, ou pelo crime organizado. 

Segundo Priscila, os leitores se surpreendem com o fato de que jornalistas ainda morrem no exercício da profissão no Brasil. De acordo com as Organizações dos Estados Americanos (OEA), entre 2011 e 2013, 15 jornalistas foram mortos no Brasil.

Outro ponto abordado no projeto foi o suposto glamour dos perigos enfrentados na reportagem investigativa. Os escritores contam que, inclusive, muitos veículos brasileiros já têm adotado técnicas e métodos para tentar evitar exposições de jornalistas aos riscos.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.