29/06/2017

Os 5 mandamentos do freelancer bem-sucedido

O jornalista e empreendedor Alexandre de Santi compartilha seus erros e aprendizados após 10 anos fora das redações 

Veronica Goyzueta (BCReport/ABC) e Alexandre de Santi falam sobre a experiência de freelancer. Foto: Alice Vergueiro



Por Maria Vitória Ramos

Durante o consultório “Como viver de freela?”, do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, o jornalista e fundador da Agência Fronteira, Alexandre de Santi, realizou sessão interativa com jovens jornalistas que pretendem iniciar a carreira em voo solo e profissionais já experientes em grandes redações que agora buscam se reinventar. A transformação do mercado de jornalismo é tema recorrente no evento.

Editora de ‘ITunes de notícias’ aponta caminhos para financiar jornalismo

Micropagamentos e diversidade de conteúdos fazem parte da estratégia da startup Bendle

A jornalista holandesa Jessica Best em palestra sobre o Blendle. Foto: Alice Vergueiro 


Por Fidel Forato

Entre os desafios do jornalismo na atualidade está a dificuldade em gerar uma receita viável e que seja capaz de sustentar uma redação capacitada. Numa tentativa de trazer novas alternativas para esse cenário, a editora chefe de redação da startup Blendle, Jessica Best, compartilhou suas experiências no 12º Congresso da Abraji, nesta quinta (29), em São Paulo.

Empresas aderem à gestão de governança transparente



Curso com Fernando Torres (Valor Econômico) sobre investigação de dados de grandes empresas. Foto: Alice Vergueiro

Aumentar a qualificação e romper com a resistência à liberação de dados de interesse público é um dos diferenciais de grandes empresas no cenário atual

Por Fernanda Santos e Luana Nunes

Atualmente, grandes empresas buscam cada vez mais disponibilizar suas informações por meio de portais de transparências. Porém, para quem não é familiarizado com essas ferramentas, encontrar esses dados não é tarefa fácil.

Durante o painel “Como investigar empresas com dados públicos”, o jornalista e colunista do Valor Econômico Fernando Torres tratou dos principais mecanismos para a obtenção de documentos públicos.

Em um minicurso para jornalistas, Torres explicou a importância das bases de dados de empresas e ensinou caminhos para explorá-las. Sites oficiais como o Diário Oficial e CVM (Comissão de Valores Mobiliários) disponibilizam informações com detalhes minuciosos de instituições públicas e privadas.

A Receita Federal é o site mais utilizado para pesquisar dados de corporações. Ele disponibiliza informações sobre razão social, nome fantasia, logradouro e se a empresa se encontra ativa ou não para o mercado. Porém, segundo Torres, essa busca não proporciona a quantidade de detalhes que deveria conter.

É possível encontrar nesses portais todos os relatórios referentes a essas entidades, desde nomes de sócios até processos e dividas no mercado com prazo para pagamento ou não. Já negócios menores e com pouca visibilidade no mercado de investidores não possuem essa mesma obrigação, sendo interessante para eles, porém, disponibilizarem suas informações para atrair investidores e se alavancarem no mercado que atuam.

Torres também explicou o que são as Bolsas “Nível 1”, “Nível 2” e “Novo Mercado”, que se referem às empresas mais tradicionais, e explicou como funciona esse posicionamento no mercado e como isso interfere no banco de dados de cada uma delas. Conforme o colunista, empresas recém-formadas não fazem parte dessas três listagens.

De acordo com o jornalista, o intuito de diferenciar as empresas em níveis é atrair mais investidores e espantar a desconfianças de clientes ao tornar mais claro quais dessas instituições seguem boas práticas de governança.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Plataformas independentes desafiam o monopólio do eixo RJ-SP


Os idealizadores dos projetos Meus Sertões, Marco Zero e Livre.jor compartilharam os percalços para expandir e democratizar o centro de produção jornalística no País

Por Maria Vitória Ramos

Com o avanço da tecnologia, os custos de produção e distribuição de informações foram reduzidos, permitindo a consolidação de novos negócios independentes fora do polo comercial do País. Esse tema foi debatido na mesa Novo Jornalismo fora do eixo RJ-SP, durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Após ser demitido em um corte coletivo no Jornal da Tarde, Paulo Oliveira decidiu se afastar de vez da mídia tradicional e perseguir sua paixão: contar as histórias das pessoas esquecidas. Criou o projeto Meus Sertões e trocou de meio definitivamente. “Jornal para mim acabou, não tem mais função social. Trabalhei por muito tempo com uma listinha de nomes que não podia mencionar embaixo do meu computador”, relembra Oliveira.

Hoje, ele busca apresentar o sertão brasileiro com uma nova narrativa, distante do estereótipo da família raquítica fugindo da seca, que povoa o imaginário dos paulistas e cariocas. Apesar do caráter regionalista de suas publicações, ele garante que, com a internet, não existe mais uma esfera local. “Os meus temas são universais. Falo da cultura moura, negra, branca e indígena, e atraio muito acesso de outros estados”, conta.

No nordeste, a Marco Zero Conteúdo, 
criado pela jornalista Carol Monteiro, é pioneira no desenvolvimento do jornalismo investigativo na região. Voltado especialmente para a capital e o interior de Pernambuco, o coletivo está estruturado em três pilares: Direitos Humanos, direito à cidade e democracia e liberdade. 

Em dois anos, a iniciativa já publicou mais de 400 conteúdos. Durante a eleição de 2016, firmou parceria com a Agência Pública no projeto de checagem Truco no Congresso, em que foram responsáveis pelo fact-checking das candidaturas para a Prefeitura de Recife. O projeto isolou-se dos espaços tradicionais, mas esse fato teve um contraponto positivo: a organização ganhou credibilidade dentre os jovens e foi o único veículo de comunicação autorizado a entrar nas ocupações das escolas no estado.

Para criar a Marco Zero, Monteiro estudou os mais diversos projetos de jornalismo independente que surgiam no País, à época, tentando encontrar a tão procurada fórmula para viabilizar financeiramente esse tipo de empreendimento.

As dificuldades de conseguir rentabilizar o modelo de negócio aflige também outro projeto. “Trazemos mais dúvidas acerca do financiamento do que respostas”, anunciou um dos criadores do Livre.jor, João Guilherme. O modelo que persiste no veículo é a ideia de não cobrar do consumidor final.

Situado em Curitiba, o Livre.jor é um portal de jornalismo fundamentado a partir de dados públicos e pautado principalmente pelo Diário Oficial da região. No ano passado, lançou o desafio de fazer uma reportagem por dia tendo como base a Lei de Acesso à Informação - iniciativa semelhante ao paulista Fiquem Sabendo, do jornalista Leo Arcoverde.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Cresce número de estudantes que escolhem livro-reportagem para o TCC


Apesar das dificuldades, Trabalho de Conclusão de Curso ganha liberdade na criação, e abre caminhos para investigações e textos autorais

Por Dominique Tuane

Juntar a reportagem e o literário em um trabalho de fôlego é uma forma de poder fugir do padrão diário da cobertura factual. Por conta disso muitos jornalistas, já antigos na carreira, estão escrevendo os seus livros. E também a nova geração de repórteres investe nesta vertente, muitos ainda durante faculdade.

As ex-alunas da Faculdade Cásper Líbero, Ana Carolina Lazarini, Luiza Donatelli e Mariana Sicchi são autoras do livro “Entre Véus e Vozes”, abordando histórias de mulheres que moram no Brasil e usam o véu por causa da religião. Todas as dificuldades que passam com o preconceito, a luta pelo respeito e os desafios de conviver com pessoas que não as compreendem, estão nos relatos. O tema foi escolhido por própria curiosidade das três, que não sabiam muito sobre assunto. Decidiram que escrever um livro seria a melhor opção para não limitar o tema.

André Molina Carmona, formado pela Faculdade FIAM-FAAM é autor do livro “Nós Somos os MODS”, que fala sobre um estilo musical e comportamental da cena cultural britânica dos anos 60, também adotado por jovens no Brasil. Conta histórias de músicos, bandas, colecionadores e simpatizantes que aderiram à essa cultura e mostra que o conhecimento da música também conta uma história política, social e experiências de vida.

Os jovens jornalistas, desde o início, já tinham intenção de escrever um livro-reportagem para o trabalho final do curso, e nunca tiveram uma segunda opção em mente. Foi preciso em média um ano para a produção, com apoio dos seus orientadores e muita organização.


O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Jornalistas ainda encontram barreiras no uso da Lei de Acesso à Informação


Repórteres compartilham experiência em grandes reportagens utilizando a Lei de Acesso à Informação e Portal de Transparência

Por Nathália Durval

Após cinco anos da Lei de Acesso à Informação, que regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas, jornalistas ainda encontram dificuldades com a transparência de órgãos públicos. Este foi o debate central do painel “Acompanhando as políticas públicas com ferramentas de transparência” durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

As jornalistas Alana Rizzo, repórter da revista Época, Débora Salvador Hous, formada pela UFPR, e o repórter do Estadão Dados Daniel Bramatti, com mediação de Otávio Moreira Neves, diretor de Transparência e Controle Social da Controladoria-Geral da União (CGU), compartilharam a partir de suas experiências dicas de como utilizar as ferramentas para cruzar dados públicos e criar pautas de grandes reportagens.

Descobertas

Débora Salvador Hous, ainda como estudante da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aos 25 anos, descobriu através de informações obtidas pela Lei de Acesso à Informação um esquema de desvio de 7,3 milhões em bolsas na UFPR. Após reportagens publicadas no jornal Gazeta do Povo com dados obtidos pela estudante, a Polícia Federal abriu uma investigação sobre os desvios e foi criado de um comitê de gestão de bolsas na Universidade. “O mais legal dessa reportagem é o quanto ela inspira as pessoas a descobrir que existe a Lei de Acesso e irem atrás de dados públicos”, compartilha Débora.

Daniel Bramatti falou sobre a série de reportagens publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre gastos elevados do FIES com levantamento do Estadão Dados, com base em informações do Portal da Transparência. A pesquisa lhes rendeu o prêmio Esso de Jornalismo em 2015, e levou a então presidente Dilma Roussef a admitir que o Governo Federal cometeu erros no FIES e a fazer alterações na gestão do financiamento.

Direito à reposta

De acordo com a Lei, o órgão público tem até 20 dias para enviar uma resposta, a contar da data do pedido, que pode ser estendido por mais 10 dias com justificativa. Caso se recuse a passar as informações, o solicitante tem até 10 dias para recorrer e deve fazê-lo ao servidor superior que possui a informação. Em último caso, recorre-se à CGU.

Os jornalistas têm relatado muitas respostas negativas às solicitações e contam como lidam com a situação. A jornalista Alana Rizzo compartilha o que tem adotado nestas situações: “Toda vez que me negam um pedido, eu pego o nome, cargo e o motivo da negativa e faço uma denúncia dentro do próprio órgão. Isso tem tido um efeito positivo.”

Otávio Neves, afirma que as universidades públicas são os órgãos que mais omitem informações solicitadas pelas ferramentas de transparência. “Dentre os pedidos, a taxa de omissão é de 0,37%. Ou seja, de cada mil solicitações, três ficam sem resposta”.

Se há uma desconfiança sobre uma informação pública – em programas e projetos do Governo -, qualquer pessoa pode e deve verificar, usando os portais de acesso a dados, relatam os jornalistas. “Isso força o governo a alterar a forma que ele lida com as políticas públicas, diz a jornalista Alana Rizzo.

Novo Portal da Transparência

O diretor de Transparência e Controle Social da Controladoria-Geral da União, mostrou em primeira mão as novidades no Portal de Transparência que serão lançadas no final do ano. A ideia é criar uma plataforma mais visual e com maior facilidade de acesso aos dados sobre contas, contratos, licitações, despesas e receitas públicas.

“O portal foi criado em 2004 e hoje está sofrendo bastante com o desnível tecnológico”, afirma Neves. A proposta é trazer uma base de dados abertos mais estruturada, com nova ferramenta de busca para diminuir as dificuldades no acesso das informações. Entre as novidades, será possível se cadastrar para receber notificações sobre uma área ou órgão de interesse. “São ferramentas que vão ajudar a monitorar as políticas públicas. Vamos ter um trabalho de melhor acompanhamento das execuções orçamentárias”, conclui.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Coberturas internacionais que envolvem riscos exigem pré-produção e cuidados dos repórteres

Johanna Nublat, Patrícia Campos Mello e Fabiano Maisonnave discutem a cobertura da crise migratória. Foto: Alice Vergueiro.

Por Géssica Brandino

Estabelecer contatos com outros profissionais que já estiveram em campo e pesquisar ao máximo o local são essenciais para aprofundar a cobertura e aproximar o leitor de outras realidades. O repórter, colunista e enviado especial da Folha de S.Paulo em Manaus, Fabiano Maisonnave, acompanhou no início do ano a travessia de brasileiros que tentam chegar aos Estados Unidos via Bahamas. Para contar a história que desejava, Fabiano recorreu à técnica da infiltração, se passando por outra pessoa e omitindo a informação de que era repórter, prática que ele próprio não recomenda. “Não é uma decisão fácil. O risco é enorme”, destaca.

Maisonnave havia estudado a fundo a realidade da migração no território e levantado todos os riscos que teria ali. “Jornalista precisa ter mais dúvidas do que certezas”, aconselha. Fazer a travessia até os Estados Unidos se mostrou inviável – era preciso pagar US$ 12 mil dólares, o que o jornal negou – mesmo assim, Fabiano pode viajar ao lado de brasileiros deportados e contar a história daqueles que estiveram presos no Panamá após a tentativa de atravessar a fronteira. 

Já a jornalista Johanna Nublat teve um percurso diferente para chegar ao destino de reportagem: a capital da Coreia do Norte. Ela foi correspondente na China pela Folha de S.Paulo e o desejo de conhecer a capital norte-coreana era antigo. A oportunidade veio no último ano, a convite da associação de cientistas sociais do país, com visto de trabalho pela embaixada. Mesmo ciente das limitações que teria ao fazer uma viagem guiada, a repórter aceitou e passou sete dias em Pyongyang, capital pelo país, em setembro.

“Foi a melhor experiência da milha vida, apesar de querer sair de lá todos os dias”, relembrou a repórter. O registro da viagem foi feito no bloco de anotações e num diário de sensações, descrevendo o medo que sentia de infringir alguma das regras básicas no país e acabar presa. “O que mais dificultou foi ter que ficar o tempo todo pisando em ovos”, sintetiza.

Na lista de seis mandamentos que Johanna formulou para jornalistas que desejam ir a Pyongyang, lições que seguiu à risca durante a cobertura: nunca se afastar do guia; não dobrar o jornal com a foto de Kim Jong-un, líder do país; não dizer Coreia do Norte, pois lá não se fala assim; não levar livros perigosos; não tirar fotos despreocupadamente; e levar dinheiro, porque não é possível usar cartão de crédito ou débito.  

Atenta às brechas e sem fazer abordagens bruscas ou contrariar os guias que lhe acompanhavam, Johanna conseguiu fazer questões que pretendia. Essencial para isso, foi a troca de informações com outros profissionais que estiveram na Coreia do Norte anteriormente e lhe ajudaram a perceber as limitações que teria. Para Fabiano, o contato prévio e a pesquisa feita pela equipe da Folha também foram essenciais. “Uma reportagem bem-sucedida raramente é trabalho de uma pessoa só”, frisa. 

Acesse as reportagens:



O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

“Se é biografia jornalística, ficção nunca”, ressalta Plínio Fraga

Carlos Maranhão (à esquerda) e Plínio Fraga (à direita) discutem estrutura de biografias. Mediação de Thiago Herdy (centro). Foto: Alice Vergueiro
Por Caroline Bueno de Oliveira

As biografias passaram a ser escritas por profissionais do jornalismo há poucas décadas no Brasil. O ambiente, que antes era dominado por historiadores, ganhou contornos jornalísticos tanto na apuração quanto na construção da narrativa, definida como “mais fluida” pelo jornalista e biógrafo Plínio Fraga, no 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O tema foi discutido na mesa “O desafio de escrever biografias”.

Segundo Fraga, autor da biografia Tancredo Neves, o príncipe civil, não só as técnicas mudaram, mas também o objetivo da obra ao narrar um acontecimento ou a história de um personagem. Os historiadores partem do eixo histórico do acontecimento, enquanto jornalistas “têm a função de deixar o texto menos técnico”.

Um dos exemplos citados por Fraga é o livro O paciente: o caso de Tancredo Neves, em que o autor e médico Luís Mir narra o caso a partir de uma visão da medicina, permeado de conceitos técnicos que deixam a escrita menos arejada.

Ficção ou realidade?

Carlos Maranhão, jornalista e autor de Roberto Civita, o dono da banda, entende que as biografias estão no escopo do trabalho jornalístico. “A forma pode ser um traço de quem escreve, mas precisa sempre partir de fatos”, conclui o jornalista que trabalhou mais de 40 anos na Editora Abril.

“Se a biografia é jornalística, deve se esperar a realidade, a ficção nunca”, afirma Fraga. O autor, que já passou por veículos de comunicação como Folha de S. Paulo e revista piauí, acredita que há uma confusão entre as técnicas jornalísticas, como a fluidez do texto e a construção de uma forma que traga surpresas para o leitor, e as ficcionais.

Mesmo as memórias das fontes, que são reconstruídas constantemente a partir do presente, devem ser cruzadas e comprovadas de acordo com a apuração. “Não posso trabalhar somente com uma fonte, eu devo reconstruir relatos a partir de vários registros documentais e testemunhais para checar, contradizer e contrapor”, entende Fraga.

“Claro que não é a versão verdadeira, no entanto, ainda está longe de ser uma ficção. É a história mais aproximada possível da realidade”, conclui o autor de Tancredo Neves, o príncipe civil.

Lições da biografia para o Jornalismo

O gênero biografia pode trazer para o jornalismo várias lições. O tempo de apuração é um deles. “Os elementos que esse boom de biografias pode dar ao jornalismo é profundidade, tempo de investigação e relatos articulados”, entende Fraga, que enxerga o tempo de trabalho como ponto crucial para um bom trabalho jornalístico.

“Eu acho errado profissionais do jornalismo acreditarem que o texto é apenas uma relato de fatos a partir de um recorte específico”, conclui Fraga.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Brasil ainda é visto como país do carnaval e futebol, contam jornalistas

Por Pâmela Ellen

O Brasil tem uma imagem construída no exterior com base no carnaval, futebol, mulheres bonitas, praia e verão. É o que expôs o fundador da plataforma online Plus55, Gustavo Ribeiro, durante a mesa “Pra Inglês ver: cobertura do Brasil para estrangeiros”, que contou também com a repórter de política da Thomson Reuters, Lisandra Paraguassu. No painel, eles discutiram sobre as dificuldades que jornalistas brasileiros encontram ao reportar as notícias sobre o Brasil paras estrangeiros.

Para desenvolver as matérias do Plus55, a equipe mapeia quais os temas mais pesquisados sobre o país. “A bunda da mulher brasileira”, segundo ele, já esteve entre os mais procurados do dia. “O brasileiro é hipersexualizado no exterior. O problema existe porque ajudamos a construir esses estereótipos e os reforçamos durante muito tempo em nossa publicidade sobre o país”, afirmou.

Para Paraguassu, repórter da Reuters, a imagem propagada pelo país vem mudando desde 2000, a partir de nova abordagem feita pela publicidade: “ao invés de utilizar mulheres de biquíni e as festas de carnaval como chamativo, as empresas passaram a disseminar fotos dos lugares e seus atrativos turísticos”. Ela acredita, no entanto, que o próprio brasileiro ainda se orgulha dessa imagem, de ser o país do futebol, carnaval e mulheres bonitas.

Um trabalho que exige esforço diário é justamente quebrar esses estereótipos existentes sobre o Brasil. A maior dificuldade, para Paraguassu, é traduzir tudo o que acontece aqui no país para quem é de fora. “Muita coisa é incompreensível para os gringos”, diz[PE1] .
 Um dos exemplos foi a cobertura do surto do zika vírus no país. Mostrar para o mundo o trabalho dos pesquisadores brasileiros, era o maior desafio: “Foi necessário mostrar que nós também somos um país capaz de desenvolver pesquisas”.

É consenso entre os dois palestrantes que existem duas categorias de leitores estrangeiros: os que tem interesse econômico no país, com o intuito de investir no mercado brasileiro e, por esse motivo, querem saber tudo o que está acontecendo na política e economia, e aqueles os que só se interessam pelas “desgraças”.

Explicar para diferentes públicos a estrutura social do Brasil, segundo eles, é complexo. A repórter da Reuters explica que “o sistema político da América do Sul é totalmente diferente das outras regiões, as leis são diferentes, o judiciário, a cultura, tudo”. Ainda existe a imprevisibilidade. Como Ribeiro conta, “não tem como dar certeza sobre um caminho que a economia ou a política irá seguir, há reviravoltas a todo instante”.

A instabilidade política e economia do país, faz com que quem está de fora não entenda como o país ainda sobrevive. Para esclarecer o complexo cenário do país, segundo Paraguassu, “é preciso ver tudo com o olhar do estrangeiro, esclarecer as dúvidas e apresentar fatos concretos”.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

“Estamos criando uma nova linguagem com a realidade virtual”, afirma Tadeu Jungle

Por Karine Seimoha

As tecnologias imersivas têm crescido através dos produtos de entretenimento nos últimos anos, em especial, nos games, um dos setores mais rentáveis dos últimos anos. Além disso, surgiram alguns outros produtos como vídeos nas redes sociais e spin-offs de grandes produções cinematográficas que utilizam essa tecnologia.

Mais recentemente, esse tipo de produção de conteúdo chegou ao jornalismo - e, com isso, a promessa de uma nova forma de contar histórias, colocando o espectador no centro da ação. Discutindo sobre essa questão no painel “Jornalismo Imersivo: tecnologia a serviço da narrativa”, no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo de 2017, em São Paulo, Tadeu Jungle, o cineasta responsável pelos documentários “Rio de Lama” e “Fogo na Floresta”, acredita que esse tipo de produção traz mais empatia e transparência para o fazer jornalístico.

Por permitir que o espectador esteja no centro da ação, os vídeos em realidade virtual e 360º abrem a possibilidade de transmitir muito além de informações: é possível criar experiências, sensações e sentimentos no público, criando a impressão de que quem assiste também é parte daquilo. Porém, é preciso cuidado. De acordo com Erica Anderson, do Google News Lab, é de extrema importância que o jornalista saiba preparar o espectador para aquele conteúdo, com avisos e os chamados “alertas de risco” (do ínglês, triggered warning), a fim de evitar que ele se impacte de forma negativa.

Além disso, também há diversas questões éticas envolvidas no uso desta tecnologia, como, por exemplo, as filmagens em 360º com diversas pessoas em cena. Algumas delas podem, por exemplo, não querer aparecer no vídeo. Além disso, outra preocupação é o modo de produzir esses conteúdos. No Brasil, ainda não há uma agência de notícias especializada em realidade virtual - e poucos equipamentos disponíveis. Contudo, trata-se de uma tecnologia barata e que tem tudo para ganhar mais visibilidade no país em poucos anos.

YouTube 180

Uma nova visão - ainda que bastante embrionária no Brasil - é o YouTube 180. Trata-se de uma plataforma de vídeos em 180º, que contam com uma forma de produção um pouco mais simples que os vídeos em 360º, filmados em formato de esfera e planificados posteriormente. Dessa forma, o que se tem visto é um surgimento bastante diverso de técnicas e formatos de inserir o telespectador nas narrativas, ainda que somente como observador passivo.

Erica acredita que, até por conta disso, a tendência é que os formatos sofram uma convergência, e o resultado final seja algo surpreendente, mas ainda não sabe exatamente de que forma isso será feito e qual formato permanecerá. A única certeza, tanto de Erica quanto de Jungle, é que a realidade virtual não é apenas um modismo, mas sim, um formato inovador e que veio para ficar, graças a sua forma de conquistar o público com sua capacidade de estabelecer vínculos, criando emoções e proporcionando experiências por meio da livre exploração dos fatos e cenários retratados.

O 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google News Lab, Grupo Globo, Facebook Journalism Project, Mcdonald's, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Nexo Jornal, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, BuzzFeed, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Revista Piauí, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.