13/09/2020

Ao menos 31 jornalistas morreram por covid-19 em 2020

Levantamento da Abraji ainda detectou 27 mortes por outros motivos; entre eles, um caso de assassinato, do repórter Léo Veras

Por: Luísa Cortés

Edição: Raquel Brandão


Léo Veras jantava em casa com a família quando levou 12 tiros de pistoleiros, no dia 12 de fevereiro de 2020. O repórter, cujo assassinato é investigado pelo Programa Tim Lopes, uma rede de apoio que apura casos de jornalistas assassinados, já sabia que seria morto, desde pelo menos 2017, em decorrência de sua investigação sobre o narcotráfico na fronteira Brasil-Paraguai.

“Que não seja com tantos disparos de fuzil, porque aqui se o pistoleiro quer ter matar ele vem na sua porta, manda você abrir e vai te dar o disparo, espero que seja só de um disparo para não estragar tanto a pele”, disse em um documentário do programa em 2017.

Cinco dicas essenciais para uso de estatísticas no jornalismo

Muitos jornalistas fogem das estatísticas por acharem que o tema requer grande preparo técnico, mas isso está longe de ser verdade

Por: Paulo Yamamoto e Thuany Gibertini

Edição: Rafael Sampaio

Muitos jornalistas se afastam do estudo de estatísticas por pensarem que o tema é complexo e requer um grande preparo técnico. Isso está longe de ser verdade. Para desmistificar o assunto, o 15.º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) trouxe o 2.º Domingo de Dados, neste dia 13 de setembro, com várias oficinas e palestras sobre linguagens de programação, análise matemática e manuseio de dados.

A oficina de estatísticas para jornalistas foi ministrada pela jornalista de dados Renata Hirota, que trabalha na Associação Brasileira de Jurimetria, e pela cientista de dados Maria Marinho, que trabalha SulAmérica e atuou na área de TI (Tecnologia de Informação) como desenvolvedora de sistemas. Ambas fazem parte da comunidade R-Ladies, uma organização que promove a diversidade de gênero no universo de programadores em linguagem R.

A interação entre jornalismo e estatística pode ser relevante e construtiva, aponta a palestra ministrada. Veja cinco dicas compiladas pela equipe do Repórter do Futuro para ajudar jornalistas que querem entender melhor o tema:

Histórias também exigem dados para ganhar mais relevância

Buscar fontes confiáveis e oficiais, extrair dados, verificá-los, limpar a base e analisar estão entre as principais funções do jornalista de dados, além de narrar histórias com esses números

Por: Patrick Freitas e Mariana Lima


Novas narrativas podem surgir de todos os lugares, inclusive de tabelas. O jornalismo de dados é uma das áreas que mais cresce dentro das redações do mundo todo, e a sua importância é mensurada pela qualidade daquilo que se pode produzir com os dados. Estes devem ser tratados com cuidado, uma vez que, “quando torturados, os números podem dizer qualquer coisa", como afirmou a jornalista Amanda Rossi, no 2º Domingo de Dados, do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Junto de Rossi, Natália Mazotte, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil e co-fundadora da Escola de Dados, ambas participaram da mesa “Jornalismo de dados, dê seus primeiros passos”, que destacou a importância de trabalhar os dados com histórias humanas. “Há histórias que sem os dados ninguém consegue saber que existe. Navegando pelas bases de dados se descobre histórias inéditas, furos de reportagem”, aponta Rossi.

"A recepção positiva do novo modelo de congresso superou nossas expectativas", diz presidente da Abraji

Primeiro evento virtual organizado pela instituição, a 15ª edição superou desafios e bateu recorde, com cerca de 10 mil inscritos

Por: Stéfanie Rigamonti
Edição: Stéfanie Rigamonti




O jornalismo tem enfrentado uma série de desafios e, neste ano, a pandemia se somou a eles, trazendo obstáculos à profissão. E claro que, para um congresso que se coloca como um espaço de discussões, intercâmbio de experiências e até mesmo levantamento de soluções, esses desafios se misturam com a própria organização do evento. Pela primeira vez, o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo foi realizado a distância.

No início, havia uma série de dúvidas em relação à viabilidade e aceitação desse novo modelo, mas o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, comemora a acolhida. "Nós não sabíamos muito bem o que esperar, pois este é o primeiro congresso virtual que organizamos. Os cerca de 10 mil inscritos estão acima dos números que prevíamos, sim, mas sobretudo a recepção positiva do novo modelo superou nossas expectativas", conta. Além disso, Träsel observa que 2020 teve "muito mais efervescência a respeito do congresso nas redes sociais do que em anos anteriores".

“Jornalistas não têm respostas exatas para conter mentiras”, diz Jeff Jarvis

Rosental Alves e Jarvis analisam a cobertura da mídia do Brasil e dos Estados Unidos sobre seus governos e o novo coronavírus

Por: Thuany Gibertini e Nayani Real

Edição: Nayani Real


Em painel sobre lições de desigualdade e injustiça e o papel do jornalismo em seus países, o jornalista Jeff Jarvis conversou com Rosental Alves, professor de jornalismo na Universidade do Texas e criador do Knight Center for Journalism in the Americas.

Jarvis comenta que a imprensa de seu país não sabe como lidar com o comportamento negacionista de governantes como Trump, Bolsonaro e outros. Após o resultado das eleições de 2016 nos Estados Unidos, ele conta que pediu conselhos a uma amiga jornalista da Argentina. “Ela disse que a informação seria cortada, receberíamos insultos e censuras. A imprensa daqui não está preparada para um governo tão autoritário”, pontua.

Fascismo só será combatido quando esquerda se unir aos conservadores, diz professor de Yale

Jason Stanley participou de mesa sobre neofascismo; para ele, reverter movimentos autoritários não é tarefa fácil

Por: Tiago Angelo

Corria o ano de 1921 quando Sigmund Freud, o "pai" da psicanálise, publicou o seu Psicologia das massas e análise do eu, obra que busca explicar as raízes do comportamento coletivo. No livro, o neurologista austríaco não cita algumas das palavras que definiriam as décadas posteriores, como "fascismo" e "antissemitismo". 

À época, o italiano Benito Mussolini apenas ensaiava as barbaridades que estavam por vir, enquanto Adolf Hitler acabava de se tornar líder do Partido Alemão dos Trabalhadores, precursor do partido nazista. 

Freud descreve como se dá o processo de diluição do pensamento individual em uma consciência coletiva. Para ele, grosso modo, tal fenômeno exige uma figura central: o líder autoritário, que não necessariamente é alçado a esse posto por ser uma pessoa excepcional. 

Ao contrário, o chefe da turba seria alguém que, de tão humano, se distinguiria somente por não ter a inibição que freia nossos instintos mais básicos. É aquele que agita a violência que nós escondemos em público. Coletivamente, por outro lado, essa inibição se esvai. 

Anos mais tarde, lastreados pela proposta freudiana, um grupo de intelectuais já habituado com os horrores de seu tempo passou a se debruçar especificamente sobre o fenômeno fascista. No ensaio Antissemitismo e propaganda fascista, o filósofo alemão Theodor Adorno destaca o caráter destrutivo da corrente, afirmando que sua pauta negativa —  o foco em destruir o "inimigo" interno ou a própria democracia —  tem mais relevo do que a pauta positiva —  a propositura de uma solução para problemas econômicos ou sociais, por exemplo. 

Jornalismo local também enfrenta fenômeno da polarização

Tecnologia muda a relação dos veículos locais com o público, que não só recebe a informação, mas se transforma em uma espécie de editor

Por: Lala Evan

Edição: Vitória Macedo


De 2004 até os dias atuais, muitas inovações tecnológicas significativas aconteceram no cenário jornalístico. Com a crescente polarização política nas redes sociais, a interação de veículos locais com a sua audiência sofreu mudanças. É o que apontam Érico Firmo, do jornal O Povo do Ceará e Dagmara Spautz, da NSC de Santa Catarina, no painel “Os efeitos da polarização na cobertura política local”, mediado pelo jornalista Thiago Herdy, do jornal O Globo.

O avanço da tecnologia permitiu às redações produzirem conteúdos mais elaborados. Firmo relata que hoje O Povo consegue fazer produções audiovisuais, por exemplo. Isso forneceu ao jornalismo, na opinião dele, uma riqueza de linguagens. Além disso, houve aumento da participação dos leitores, que ficou mais acessível e, com a polarização política, ganhou ainda mais peso.

Governo Bolsonaro utiliza lei da ditadura para processar jornalistas

A Lei de Segurança Nacional (LSN) ganhou visibilidade novamente com Bolsonaro, tendo o chargista Renato Aroeira como um de seus alvos

Por: Artur Alvarez e Beatriz Leite

Edição: Rafaela Carvalho

O chargista Renato Aroeira, que foi alvo de um inquérito de investigação com base na Lei de Segurança Nacional (LSN) em junho de 2020 por ter feito uma charge para o Brasil 247 associando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a uma suástica, não culpa somente o governo pelo processo que sofreu: "O apodrecimento do tecido social é causado por todos nós. Todos somos culpados pelo que está acontecendo no nosso país”.

O episódio ocorreu após Bolsonaro incentivar, no contexto da pandemia do novo coronavírus, que a população invadisse hospitais para mostrar se os leitos estavam realmente ocupados. 

“Ao fazer isso, o Estado deu um tiro no próprio pé: contou para o mundo inteiro que mandou a população entrar em hospitais para filmar UTIs”, observou Aroeira, que viu sua arte viralizar após o descontentamento do governo federal.

12/09/2020

A mesma liberdade de expressão que garante a democracia pode derrubá-la, diz Jason Stanley

Professor de filosofia em Yale, o filósofo e autor do livro "Como Funciona o Fascismo" traça panorama sobre ações de governos autoritários  

Por: Patrick Freitas e Artur Ferreira

Edição: Rafaela Carvalho


O fascismo prospera no medo. É do receio coletivo que nasce a ânsia por um líder que assuma um papel de protagonismo patriótico, digno dos livros de História – mais precisamente, dos capítulos que mostram governantes totalitários e extremistas. Para Jason Stanley, professor de Filosofia e autor do livro Como Funciona o Fascismo, vivemos um desses momentos. Estamos em uma era neofascista.

Para o filósofo, líderes fascistas enxergam crises não como problemas a serem resolvidos em prol de uma nação, mas como algo que os prejudica ou não. Um exemplo recente no Brasil é o próprio Presidente da República, Jair Bolsonaro, que, por vezes, chamou o novo coronavírus de uma “gripezinha” ou "resfriadinho", por exemplo.

Stanley participou do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo neste sábado (12). Ele e Daniel Bramatti, jornalista e editor do Estadão Dados, conversaram sobre as principais formas como o Neofascismo se manifesta em governos autoritários de extrema direita pelo mundo. 

Jornalismo tem poder para questionar as narrativas históricas que sustentam desigualdades, defende a ganhadora do Pulitzer Nikole Hannah-Jones

Em entrevista exclusiva, a repórter do New York Times fala sobre o sucesso do projeto 1619, que recontou a História dos Estados Unidos pelo ponto de vista da experiência dos negros americanos; 'O Brasil precisa de um projeto como esse'

Por: Giulia Afiune


E se a História do Brasil fosse recontada pelo ponto de vista das pessoas escravizadas? Foi um esforço parecido que rendeu um Prêmio Pulitzer em 2020 para a jornalista Nikole Hannah-Jones, que cobre direitos civis e injustiças raciais para a revista do New York Times.

O "1619" é um ambicioso projeto jornalístico que propõe outro ponto de vista para a História dos Estados Unidos, centrado nas contribuições que os negros americanos deram para a construção do país. 

Os ensaios que compõem o especial mostram como diversos fenômenos contemporâneos da vida nos Estados Unidos – desde a música popular, passando pelo alto índice de consumo de açúcar, até, claro, a violência policial – são desdobramentos da escravidão que perdurou por séculos e gerou um país extremamente desigual. 

A partir desse mergulho profundo na História americana, Nikole argumenta que o princípio de liberdade que estava presente na fundação dos Estados Unidos era falso, e que foi a luta dos negros para abolir a escravidão e conquistar seus direitos que trouxe esse ideal para mais perto da realidade. Por isso, a data de nascimento da nação não deveria ser 1776, quando a célebre declaração de independência americana foi assinada, e sim, 1619, quando os primeiros negros escravizados desembarcaram na costa da Virgínia.