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26/06/2016

Repórteres que cobrem direitos humanos devem conhecer história e legislação, alertam jornalistas

Por Luan Ernesto Duarte


Em tempos polarizados, nos quais conceitos de direitos humanos estão "generalizados", repórteres que cobrem a área precisam dominar profundamente os conceitos da lei universal. É o que alertam os jornalistas Leonardo Sakamoto, da Repórter Brasil e Caio Cavechini, da TV Globo, que compartilharam suas experiências no painel "O papel do jornalista na defesa dos direitos humanos", neste sábado (25), durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.

Para Sakamoto e Cavechini, o jornalista deve conhecer a história e em especial a Declaração Universal dos Direitos Humanos e buscar reportar histórias que estão em desacordo com os direitos nela assegurados. A defesa dos princípios expressos na lei é, inclusive, item do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

"Nesse cenário, onde cobertura de direitos humanos virou uma coisa de esquerdista, temos que pensar na nossa habilidade de comunicação, estar bem informados e buscar boas histórias que possam dialogar com a pessoa que tenha resistência à essas questões", afirmou Cavechini.


Foto: Alice Vergueiro
Segundo Sakamoto, o conceito de direitos humanos vem sendo distorcido e a população acaba sendo influenciada pelo jornalismo "espreme que sai sangue", levando a defender a lei como "coisa de bandido". "Na verdade isso diz respeito a todos nós", disse.

Sakamoto conta que toda a tentativa de discutir a temática na sociedade é seguida de represálias violentas, como xingamentos e agressões à jornalistas que realizaram trabalhos na área."Há uma reação na sociedade a quem coloca em pauta os direitos humanos. O profissional que questiona a desigualdade, a injustiça, a questão de gênero com certeza será muito xingado."

O fundador da Repórter Brasil acaba de lançar o livro "O que aprendi sendo xingado na internet", no qual ele relata sua experiência. O jornalismo investigativo realizado pelo canal é especializado no rastreamento das cadeias produtivas que envolvam crimes como trabalho escravo e tráfico de seres humanos. 

Muitas denúncias realizadas pela Repórter Brasil acontecem em fazendas, carvoarias e outras unidades industriais que são flagradas violando os direitos humanos. A agência já identificou os caminhos feitos pelos produtos desses lugares até o mercado nacional e internacional.

"Nós conseguimos pressionar o sistema produtivo nacional e internacional e até o mesmo o financeiro para gerar mecanismos de bloqueio a quem se utiliza desse tipo de crime", contou o jornalista

As reportagens que mostram o trabalho escravo utilizado pelas empresas denunciadas geram impacto econômico, segundo Sakamoto. Companhias como Cosan, MRV Engenharia e a Zara tombaram na bolsa de valores após publicações que revelaram a prática de atividades análogas à escravidão. "O nosso foco, na Repórter Brasil, é mais o impacto do que necessariamente o furo", disse.

Desrespeitos à legislação trabalhista e um cotidiano de sofrimento, depressão e risco é o que revela o documentário "Carne e Osso", de Cavechini. O filme mostra como a cadeia produtiva de carne no Brasil viola os direitos do trabalhador, colocando o profissional em uma linha de produção que exige movimentos repetitivos e gerando consequências emocionais, físicas e motoras ao funcionário.

"Foram três anos de investigação e trabalho ininterrupto com base numa demanda de procuradores e fiscais do trabalho que procuraram a Repórter Brasil dizendo que as varas trabalhistas estavam cheias de processos relacionados a frigoríficos", comentou Cavechini.

Nas cidades onde estão localizados esses frigoríficos, o jornalista relata a dificuldade que os moradores têm em encontrar emprego, já que muitos rejeitam o serviço com carnes. "Quando os haitianos chegaram no Brasil, muitos foram trabalhar nesses frigoríficos porque eles oferecem carteira assinada", contou Cavechini, que também é responsável pelo documentário "Jaci – sete pecados de uma obra amazônica", que aborda as hidrelétricas em Rondônia, o poder das empreiteiras e a relação com o governo federal.



O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.




25/06/2016

A missão do jornalismo é impactar a sociedade, afirmam Sakamoto e Torturra


Por Phillippe Watanabe 


Impactar a sociedade é ponto central da atividade jornalística. Segundo Bruno Torturra, coordenador do Fluxo, e Leonardo Sakamoto, fundador da Repórter Brasil, para alcançar isso é necessário apostar no trabalho em rede e esquecer o ego e a fama que podem vir com um furo.

Fotos: Alice Vergueiro
Os jornalistas participaram do painel "O non-profit tem futuro no Brasil?", que discutiu modelos de jornalismo sem fins lucrativos na manhã de sábado (25) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A mediação foi da advogada Ana Valéria Araújo, coordenadora-executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Sakamoto contou os bastidores da denúncia realizada pela Repórter Brasil em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego sobre a atividade análoga à escravidão na Zara, uma das maiores empresas do setor têxtil do mundo, e de como tudo foi pensado para atingir um determinado público e se disseminar pelas redes. "Por que escolhemos compartilhar primeiro com a BBC? Para internacionalizar a denúncia. Por que primeiro com a A Liga? Pela TV, para chegar aos jovens que usam a marca".

Outro exemplo de desapego pela exclusividade foi feito por Torturra. Após reunir uma boa quantidade de imagens sobre mães chilenas que plantam maconha para produzir remédios para os filhos, o Fantástico entrou em contato com ele demonstrando interesse pelo material.

"Se o vídeo fosse muito bem-sucedido no Fluxo, eu teria 20 mil visualizações e o público diria que eu faço um trabalho legal. Preferi que toda a família brasileira visse isso", disse Torturra.

SAÚDE FINANCEIRA

Para causar impacto, as redações precisam ser autossustentáveis. A Repórter Brasil foi fundada como ONG para conseguir pulverização de fontes de renda. Segundo Sakamoto, o financiamento internacional é responsável por cerca de 60% da receita da organização. As principais contribuições vêm da Holanda, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Os recursos estatais nacionais não chegam a 5%.

"Se a gente fosse uma empresa com fins lucrativos, com o que fazemos, seríamos acusados de alguma coisa o tempo todo", disse Sakamoto.

O caso do Fluxo é um pouco diferente. A iniciativa se mantém por doações dos leitores. "Não sou uma empresa com fins lucrativos porque eu não dou lucro mesmo", contou.

Torturra demonstrou preocupação com ofertas de dinheiro de instituições privadas em busca de conteúdo customizado. "É muito perigoso aceitar o dinheiro que está dado a sua frente, podemos virar refém".

Mesmo com as dificuldades de receita enfrentadas dentro do modelo non-profit, as iniciativas do setor se multiplicam. Torturra adiantou que, seguindo esse modelo, alguns de seus amigos estão para relançar a revista Bravo!, encerrada em 2013.

O fundador da Repórter Brasil diz que não tem mais vergonha de ir atrás de financiamento. "Peço dinheiro da mesma forma que dou bom dia", brincou.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.