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25/06/2016

A missão do jornalismo é impactar a sociedade, afirmam Sakamoto e Torturra


Por Phillippe Watanabe 


Impactar a sociedade é ponto central da atividade jornalística. Segundo Bruno Torturra, coordenador do Fluxo, e Leonardo Sakamoto, fundador da Repórter Brasil, para alcançar isso é necessário apostar no trabalho em rede e esquecer o ego e a fama que podem vir com um furo.

Fotos: Alice Vergueiro
Os jornalistas participaram do painel "O non-profit tem futuro no Brasil?", que discutiu modelos de jornalismo sem fins lucrativos na manhã de sábado (25) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. A mediação foi da advogada Ana Valéria Araújo, coordenadora-executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Sakamoto contou os bastidores da denúncia realizada pela Repórter Brasil em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego sobre a atividade análoga à escravidão na Zara, uma das maiores empresas do setor têxtil do mundo, e de como tudo foi pensado para atingir um determinado público e se disseminar pelas redes. "Por que escolhemos compartilhar primeiro com a BBC? Para internacionalizar a denúncia. Por que primeiro com a A Liga? Pela TV, para chegar aos jovens que usam a marca".

Outro exemplo de desapego pela exclusividade foi feito por Torturra. Após reunir uma boa quantidade de imagens sobre mães chilenas que plantam maconha para produzir remédios para os filhos, o Fantástico entrou em contato com ele demonstrando interesse pelo material.

"Se o vídeo fosse muito bem-sucedido no Fluxo, eu teria 20 mil visualizações e o público diria que eu faço um trabalho legal. Preferi que toda a família brasileira visse isso", disse Torturra.

SAÚDE FINANCEIRA

Para causar impacto, as redações precisam ser autossustentáveis. A Repórter Brasil foi fundada como ONG para conseguir pulverização de fontes de renda. Segundo Sakamoto, o financiamento internacional é responsável por cerca de 60% da receita da organização. As principais contribuições vêm da Holanda, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. Os recursos estatais nacionais não chegam a 5%.

"Se a gente fosse uma empresa com fins lucrativos, com o que fazemos, seríamos acusados de alguma coisa o tempo todo", disse Sakamoto.

O caso do Fluxo é um pouco diferente. A iniciativa se mantém por doações dos leitores. "Não sou uma empresa com fins lucrativos porque eu não dou lucro mesmo", contou.

Torturra demonstrou preocupação com ofertas de dinheiro de instituições privadas em busca de conteúdo customizado. "É muito perigoso aceitar o dinheiro que está dado a sua frente, podemos virar refém".

Mesmo com as dificuldades de receita enfrentadas dentro do modelo non-profit, as iniciativas do setor se multiplicam. Torturra adiantou que, seguindo esse modelo, alguns de seus amigos estão para relançar a revista Bravo!, encerrada em 2013.

O fundador da Repórter Brasil diz que não tem mais vergonha de ir atrás de financiamento. "Peço dinheiro da mesma forma que dou bom dia", brincou.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

24/06/2016

Especialistas questionam credibilidade de mídias tradicionais e novas

Por Caio Nascimento 

Ao discutir a relação entre novas mídias e mídia tradicional durante o primeiro dia do 11º Abraji (Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo), nesta quinta-feira (23), Dimmi Amora, repórter da Folha de S. Paulo, Bruno Torturra, fundador da Mídia Ninja, e o doutor em Ciência Política Fernando Lattman questionaram a credibilidade da imprensa. 


Fotos: Alice Vergueiro
Para Dimmi Amora, a mídia precisa seguir um Estado Democrático de Direito consolidado para não ser cooptada por interesses de instituições, conseguindo, assim, manter um discurso relevante para seu público. O jornalista disse que a competitividade entre as mídias, uma boa estrutura econômica do veículo e a diversidade de opiniões dentro dele garantem recursos suficientes para aguentar a pressão dos grupos de interesses. 

"As redações em geral são poucos diversas. Elas são formadas por grupos da sociedade muito homogêneos e isso reflete no que será publicado e nas fontes que formarão a opinião pública", afirmou Amora.

De acordo com o repórter da Folha de S.Paulo, esses fatores são necessários para a credibilidade do trabalho jornalístico. Amora relaciona a pluralidade do veículo à proximidade que ele tem com o seu público. 

Segundo o profissional, uma causa da falta de confiança do leitor é a mistura entre publicidade, opinião e informação. "Hoje não se separam essas três coisas e isso tem colaborado para que confundamos jornalismo com militância. Duas palavras que devem andar separadas", ressaltou. Para Amora, a militância desequilibra a notícia e não mostra os dois lados da moeda, dando ao leitor um só direcionamento. "Esse desequilíbrio leva ao radicalismo e fica nítido nas redes sociais", salientou.


Torturra reforçou essa posição, afirmando que as empresas da informática, como o Google e o Facebook, estão monopolizando o mercado da informação. Segundo o fundador da Mídia Ninja, essas plataformas quebraram a estrutura do modelo de negócio pelo qual a notícia se dava e modificaram a produção da informação. 

Para Torturra, essa nova arquitetura digital leva à fusão dos departamentos comercial e editorial, visto que os "likes" nas redes sociais funcionam como um endosso e angariam visibilidade ao veículo. "Essa união é o fenômeno mais perigoso pelo qual estamos passando hoje", destacou.

Abordando organização de um veículo, Fernando Lattman ressaltou que a institucionalização e a abertura comercial e empresarial dos meios de comunicação no passado colaboraram na construção de uma ética para o jornalismo. 

Segundo o doutor em Ciência Política, a notícia tem um valor de uso e um valor de troca ligados à credibilidade. "Você compra a notícia ao comprar jornais, assinar canais pagos etc. A notícia só pode ser feita pelo seu valor de uso", afirmou o sociólogo.

Torturra discordou. De acordo com o fundador da Mídia Ninja, a credibilidade não significa valor monetário como no passado. "A confiança não é mais essencial para o sustento financeiro de uma instituição porque, hoje, o valor que se extrai da sociedade não vem necessariamente da credibilidade. Os tempos mudaram", apontou. 

Para o jornalista, as empresas visam a produzir conteúdos interessantes para acessar o leitor, mas não o contrário. "O público compra um veículo porque acha que ele é mais ou menos crível ou por questão de identidade, mas o que a mídia vende ao seu cliente não é a informação, mas o acesso a esse público", ressaltou Torturra.

 'IMPRENSA MONARQUISTA' 

Segundo Torturra, o problema das mídias tradicionais brasileiras é a forma como os veículos que as cobrem são concentradas no país, enquanto que a mídia alternativa é mais diversa. "A República não chegou à grande imprensa, que ainda é monarquista, uma vez que são os sobrenomes que falam mais alto".

Torturra também criticou a radicalidade que a mídia alternativa pode alcançar. "Acho que o problema é que quando se assume uma narrativa com um só foco, se estabelece uma versão da realidade que o repórter da nova mídia leva ao público", disse. "Isso tem implicações muitos sérias; pode gerar discursos radicais."

Para reverter esse quadro, Amora reforça a necessidade de as novas gerações entrarem nos jornais, ocuparem os cargos e pensarem diferente do modo "monárquico" que,  na visão deles, caracteriza o atual jornalismo. 

"A forma monárquica passa dos superiores para os subordinados", apontou Amora. Segundo o repórter, a falta de diversidade faz com que o jornalismo careça de uma visão igualitária sobre o que acontece na sociedade. Além disso, afirma que muitos jornalistas, tanto da nova mídia quanto da tradicional, levam preconceitos do cotidiano para a redação. "É preciso renovar a mídia tradicional. A visão de muitos jornalistas ainda funciona sob o modelo Casa Grande-Senzala", conclui Amora.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.