Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

26/06/2016

É pretensioso achar que a imprensa derrubou Dilma, avaliam jornalistas

Por Bianca Baptista

A imprensa não foi responsável pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff. De acordo com Paulo Celso Pereira, de O Globo, e Carla Jiménez, do El País, a mídia teria cometido erros pontuais na cobertura do impeachment, mas culpá-la seria pretensão.  Na palestra "A Mídia e o impeachment: erros e acertos na cobertura da crise política", realizada no sábado (25), no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, os jornalistas fizeram um balanço sobre a cobertura da crise política nacional. 

"Tem setores que avaliam que a imprensa foi parcial e isso teria causado a queda da Dilma. Não se impôs um foco de resistência tão forte a ponto de virar o jogo. Acho pretensioso demais achar que a imprensa teve esse poder de tirar a presidente", disse Carla. "É claro que existem erros pontuais. Mas se olharmos o macro, está todo mundo tentando fazer o melhor trabalho", completou Pereira.

Segundo o coordenador de Politica da sucursal de O Globo em Brasília, trata-se de um assunto muito complexo, e a imprensa falhou ao tentar esclarecer as questões legais do Impeachment. "Fazemos poucos textos técnicos falando das teses que embasavam as decisões tomadas. O processo de explicar a dinâmica de perda do mandato foi falho", admitiu o jornalista. 

Para facilitar o entendimento de temas mais complexos, os jornais recorreram a infográficos. Pereira ressaltou que é preciso cautela ao utilizar recursos visuais,  com cuidados para especificar a atuação de cada um dos envolvidos no esquema de corrupção. "Ao simplificar assuntos complexos, os infográficos acabam juntando pessoas que estão em situações diferentes. Isso tem que ser feito com cuidado para evitar generalizações. Como deixar claro que não é todo mundo igual?", questionou.  

Carla disse que a ansiedade por informações presente nas novas gerações e estimulada pelas redes sociais estaria exigindo da imprensa "uma verdade que não existe": "É nossa legislação que é falha, não o jornalismo".

Fotos: Alice Vergueiro
A editora-executiva do El País Brasil disse que as redes sociais causaram uma desorganização de informações, capaz de criar um distanciamento entre o público e a mídia. Para embasar sua afirmação, citou a matéria publicada pela BBC Brasil durante os dias que antecederam o impeachment, que mostrou que três das cinco notícias mais compartilhadas daquela semana no Facebook eram falsas. "Acho que a gente devia lançar o adesivo 'na dúvida consulte o jornalista'", brincou. 

Pereira afirmou que, no geral, a cobertura da crise foi bem feita. "Quando você analisa tecnicamente as decisões tomadas, foi muito proporcional ao que estava sendo elencado". O jornalista disse que o excesso de espaço dado a casos como a condução coercitiva de Lula é justificável. "Nesse momento de polarização política a gente dá os tamanhos das reportagens com relação à relevância do político".

O jornalista de O Globo também defendeu a publicação de delações premiadas. "O nosso debate precisa ser o mais técnico possível. Você tem que dar a informação, ainda que não tenha a história completa". Carla complementou: "Se é verdade ou não, é responsabilidade também do Ministério Publico determinar". 

Os dois jornalistas, durante o debate, admitiram que a imprensa demorou a perceber que o impeachment seria aprovado na Câmara.  "No começo do ano, as pessoas ainda não acreditavam que esse processo ia andar. Parecia que era só uma ameaça", contou Carla. 

A análise da cobertura, no entanto, não foi conclusiva, ja que o processo de impeachment ainda não foi concluído. "Mais do que as questões da crítica, precisamos debater o que podemos fazer daqui para frente. É isso que a crise política vai nos ensinar no futuro. Devemos refletir e tentar aplicar no dia a dia", conclui Pereira. 


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

23/06/2016

Cobrir política em tempos polarizados é desafiador

Por Tiago Aguiar


O último ano na política nacional foi marcado pela continuidade - se não acirramento - da polarização política, dessa vez entre apoiadores e não apoiadores do impeachment. A mesa "Cobertura política em clima de fla-flu", nesta quinta-feira (23), se propôs a discutir os desafios da cobertura jornalística nessas condições, com a presença de Marcelo de Moraes, jornalista de O Estado de S.Paulo, e Daniel Santoro, editor de política do jornal Clarín, para dar a perspectiva argentina. O país não viveu um processo de impeachment, mas o cenário de radicalização política é análogo.



O primeiro destaque dado - tanto por Santoro, quanto por Moraes - foi às tensões que os repórteres e editores sentem nas redações. "Mesmo com cobertura política e cobertura especializada nas investigações, haviam dias como a semana da condução coercitiva do Lula em que o volume era maior do que uma redação profissionalizada poderia lidar. Trabalhar com tamanho volume de informações com redações cada vez mais enxutas foi e é um desafio para todas as principais redações" afirmou o jornalista do Estadão.

Foto: Alice Vergueiro
Santoro, destacando a frase na lousa, complementou: "as pressões sobre jornalistas provocam a autocensura", afirmou, e em seguida citou diversos casos de perseguições a jornalistas. Segundo dados do Fopea (Foro de Periodismo Argentino), nos últimos dez anos ataques a jornalistas foram crescentes. Para ele, "a estratégia dos governos era assassinar a reputação de jornalistas", o que geraria uma censura indiretamente.
Jornais governistas também foram problematizados por ambos, inclusive como meio de fazer ataques pessoais, com exemplos citados nos dois países. Os dois concordaram que as críticas devem se limitar à qualidade das informações veiculadas. "Não conteste com a lógica da guerra", foi outra frase escrita na Lousa por Santoro para frisar a importância da disputa pela informação a partir de preceitos éticos.

Ainda sobre a situação política do Brasil, Moraes ponderou  que sempre a situação é mais visada para ataques do que a oposição. "O governo é sempre mais vidraça, não tem jeito. O Temer vive isso agora". Moraes ainda complementou dizendo que a polarização não ajudou nenhum dos dois."E no final o fla-flu deu Vasco", disse se referindo ao governo interino do PMDB e a polarização ser principalmente entre PT e PSDB. O jornalista ainda citou dois cadernos especiais - que foram vencedores do Prêmio Esso - publicados entre 2014 e 2015 como saídas para mudar de assunto e dar um respiro.

Sobre a Argentina, Santoro, que não se considera "macrista" (referência ao atual presidente Maurício Macri), disse que o monopólio de companhias telefônicas é muito mais grave - ao responder sobre a Lei dos Meios, aprovada pelos Kirchner e que tentou acabar com o monopólio dos veículos de comunicação - e que não havia uma preocupação com a sustentabilidade a longo prazo dos veículos (mais de 180, segundo ele) que eram kirchneristas.

Letícia Naísa, jornalista congressista e espectadora da palestra, ponderou que tanto Cristina Kirchner quanto Dilma Rousseff sofreram com sexismo nas coberturas. Ambos os editores concordaram e Moraes ainda citou casos de machismo contra colegas de profissão.

Ao final, Moraes pontuou que um bom modo de evitar a inserção da polarização nas coberturas é através de uso de uma linguagem adequada. "Nós nunca vamos usar a palavra 'golpe' para se referir ao impeachment, pois é uma palavra carregada de juízo de valor. E não usamos 'presidenta' pelo mesmo motivo, até porque não é uma palavra que a maior parte da população adotou", concluiu.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

04/07/2015

Para jornalistas, documentos da Lava Jato na web são exemplo de transparência

Por Camila Alvarenga


Foto: Phillipe Watanabe
Das várias inovações que a investigação da Operação Lava Jato trouxe, uma foi a publicação dos documentos do processo na internet. A mando do juiz do caso, Sérgio Moro, todas as informações referentes ao processo estão disponíveis no site do Tribunal Regional Federal - 4ª Região, algo, até então, exclusivo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso possibilitou à imprensa acompanhar de perto o caso, justamente por possuir muitas e detalhadas informações.

"Existe uma novidade aqui, até muito atacada por quem está sendo investigado de vazamento de informação, mas boa parte das informações vindas a público não são fruto de vazamento", comentou Ricardo Brandt, jornalista do Estado de S.Paulo, que se reuniu ao lado dos repórteres Rubens Valente, da Folha de S.Paulo,e Vladimir Netto, Rede Globo, para comentar os bastidores da cobertura da operação Lava Jato. A discussão aconteceu no último dia do 10º Congresso de Jornalismo da Abraji, um dia após a palestra de Moro no evento. 

A disponibilidade das informações na web também mudou a forma como os jornalistas passaram a fazer suas coberturas, "A gente tem que, no dia a dia, fazer o próprio trabalho de ficar monitorando os e-procs [Processo Judicial Eletrônico]. Quem acha que eu fico na porta da Polícia Federal esperando o delegado sair para falar com ele está errado, na verdade eu fico trancado no quarto, que nem um louco, lendo processos", continuou Brandt, que mantém cinco cadernos e um HD com pastas de tudo de relevante que encontra. Ele afirmou ser um trabalho "mais de suor do que com quem falar". Mas, para ele, não deixa de ser necessário saber com quem falar e no quê acreditar durante a apuração.

Valente, repórter em Brasília, ressaltou a importância de se ter acesso às informações do caso: "A maior ameaça à democracia brasileira é o sigilo judicial, porque acaba tendo uma casta da sociedade que sabe de muitas coisas que o resto da população não sabe. Numa sociedade corrupta como a nossa, isso é uma bomba. É um atentado à democracia". 

Os inquéritos mantidos em sigilo sobre a Operação Lava Jato são exceções e geralmente dizem respeito a investigações em andamento. De acordo com Valente, é trabalho do jornalista encontrar fontes que possuam informações que não estão disponíveis. 

No entanto, na tentativa de conseguir algo exclusivo e dar um furo, corre-se o risco de publicar informações equivocadas ou, como o próprio juiz Moro definiu em sua palestra, tirar os dados de suas devidas proporções. "Algumas pessoas ficam na expectativa, muitas vezes não tem a informação correta e, sob pressão, inventam coisas. Se não tem ninguém para interromper, isso vira uma bola de neve", colocou Brandt. 

O acesso e suas facilidades não significam, contudo, que não existam dificuldades. Os documentos disponibilizados são muitos grandes e, às vezes, apenas um parágrafo de tudo o que está ali é notícia. Sem mencionar informações sigilosas ou incompletas que dificultam o entendimento do caso. "Tem muitas histórias de dificuldade e de luta, mas é uma cobertura da qual dá orgulho de participar", finalizou Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

03/07/2015

Para advogados, Judiciário usa delação premiada de forma arbitrária

Foto: Beatriz Sanz
Por Pâmela Ellen

Para alguns advogados criminalistas, a delação premiada vem sendo aplicada de forma arbitrária pelo Judiciário brasileiro. O professor de Direito Penal da USP David Azevedo e o advogado Fabio Tofic, representante de três executivos da Engevix no caso Lava Jato, ressaltam que o benefício concedido a políticos e empresários gera distorções e fere os princípios de justiça e igualdade.

Os especialistas participaram do painel "Direito de defesa e delação premiada na Lava Jato", realizado no 10º Congresso da Abraji, que também contou com uma mesa "Combate à corrupção e acesso à informação", com o juiz Sergio Moro.

Apesar de reconhecer a eficácia do instrumento em determinados casos, Tofic apontou que prisões vem sendo decretadas com o propósito de incentivar a delação premiada. Sua afirmação se fundamenta nos casos em que foram suspensos os decretos de prisão a réus que aceitaram denunciar esquemas de corrupção.

O advogado ainda ressaltou que os acordos de delação favorecem somente pessoas em altas posições hierárquicas, que possuem maiores chances que os demais réus por terem informações privilegiadas. "O maior causador da corrupção é a arbitrariedade. Portanto, a pior forma de combater a corrupção é com arbitrariedade", ressaltou.

Para Azevedo, a forma como a delação premiada está sendo aplicada é errada porque ela legalmente é um instrumento democrático que oferece perdão e redução de pena. "A delação premiada é uma estratégia da defesa, mas que está sendo usada para criminalizar", disse.

O professor ainda enfatizou que o jornalismo precisa partir do princípio da defesa e não somente da acusação, afirmando que a imprensa supervaloriza os depoimentos de réus.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

A boa cobertura política deve confrontar quem está no poder, dizem repórteres

Leandro Souza e Rodrigo Rangel. Foto: Isabel Silva
Leandro Souza (à esq.) e Rodrigo Rangel. Foto: Isabel Silva
Por Helena Carvalho Mega 

A boa ​cobertura da política nacional, onde interesses e antagonismos estão constantemente em jogo, depende da capacidade de o jornalista filtrar quais informações merecerem virar notícia e saber questionar quem está no poder.

As conclusões são do repórter da Folha de S. Paulo Leonardo Souza e do editor da revista Veja Rodrigo Rangel, que participaram de painel sobre o tema no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji. A moderação foi realizada por Ricardo Galhardo, do Estadão.


Para Rangel, com longa experiência de jornalismo político do Distrito Federal, "Brasília é uma Torre de Babel, um emaranhado de interesses de todo tipo". Na visão do jornalista, o profissional de imprensa inserido nesse meio deve saber lidar com o bombardeio de informações e denúncias e se manter atento ao que tiver maior relevância pública.

O editor da Veja ressalta a importância de partir sempre do princípio da desconfiança e cercar-se de elementos que ofereçam segurança ao publicar a notícia. A paciência, a seu ver, deve ser a principal aliada durante o processo investigativo. "Não adianta publicar e checar depois", enfatiza.

O repórter da Veja disse que o dever da imprensa é acompanhar criticamente quem está no poder e não ser condescendente.

Para Leandro Souza, o tiroteio de partidos políticos faz o jornalismo viver um período fértil. Porém lembra que, em tal contexto, "o jornalista não deve ter lado certo", mas estabelecer o interesse da sociedade acima de qualquer outro. "A maior vitrine é quem está no poder e o papel da imprensa é escrever sobre eles", conta.

Estratégias sugeridas pelo repórter, como colecionar documentos e gravações antigas e procurar ter uma visão diferenciada da versão que procuram vender, foram utilizadas por ele em uma investigação sobre o caso do então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, através da qual descobriu bens não declarados que o destituíram de seu cargo, em um momento no qual toda a mídia estava à figura de José Sarney, que se lançava como candidato.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.