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04/07/2015

Para jornalistas, documentos da Lava Jato na web são exemplo de transparência

Por Camila Alvarenga


Foto: Phillipe Watanabe
Das várias inovações que a investigação da Operação Lava Jato trouxe, uma foi a publicação dos documentos do processo na internet. A mando do juiz do caso, Sérgio Moro, todas as informações referentes ao processo estão disponíveis no site do Tribunal Regional Federal - 4ª Região, algo, até então, exclusivo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso possibilitou à imprensa acompanhar de perto o caso, justamente por possuir muitas e detalhadas informações.

"Existe uma novidade aqui, até muito atacada por quem está sendo investigado de vazamento de informação, mas boa parte das informações vindas a público não são fruto de vazamento", comentou Ricardo Brandt, jornalista do Estado de S.Paulo, que se reuniu ao lado dos repórteres Rubens Valente, da Folha de S.Paulo,e Vladimir Netto, Rede Globo, para comentar os bastidores da cobertura da operação Lava Jato. A discussão aconteceu no último dia do 10º Congresso de Jornalismo da Abraji, um dia após a palestra de Moro no evento. 

A disponibilidade das informações na web também mudou a forma como os jornalistas passaram a fazer suas coberturas, "A gente tem que, no dia a dia, fazer o próprio trabalho de ficar monitorando os e-procs [Processo Judicial Eletrônico]. Quem acha que eu fico na porta da Polícia Federal esperando o delegado sair para falar com ele está errado, na verdade eu fico trancado no quarto, que nem um louco, lendo processos", continuou Brandt, que mantém cinco cadernos e um HD com pastas de tudo de relevante que encontra. Ele afirmou ser um trabalho "mais de suor do que com quem falar". Mas, para ele, não deixa de ser necessário saber com quem falar e no quê acreditar durante a apuração.

Valente, repórter em Brasília, ressaltou a importância de se ter acesso às informações do caso: "A maior ameaça à democracia brasileira é o sigilo judicial, porque acaba tendo uma casta da sociedade que sabe de muitas coisas que o resto da população não sabe. Numa sociedade corrupta como a nossa, isso é uma bomba. É um atentado à democracia". 

Os inquéritos mantidos em sigilo sobre a Operação Lava Jato são exceções e geralmente dizem respeito a investigações em andamento. De acordo com Valente, é trabalho do jornalista encontrar fontes que possuam informações que não estão disponíveis. 

No entanto, na tentativa de conseguir algo exclusivo e dar um furo, corre-se o risco de publicar informações equivocadas ou, como o próprio juiz Moro definiu em sua palestra, tirar os dados de suas devidas proporções. "Algumas pessoas ficam na expectativa, muitas vezes não tem a informação correta e, sob pressão, inventam coisas. Se não tem ninguém para interromper, isso vira uma bola de neve", colocou Brandt. 

O acesso e suas facilidades não significam, contudo, que não existam dificuldades. Os documentos disponibilizados são muitos grandes e, às vezes, apenas um parágrafo de tudo o que está ali é notícia. Sem mencionar informações sigilosas ou incompletas que dificultam o entendimento do caso. "Tem muitas histórias de dificuldade e de luta, mas é uma cobertura da qual dá orgulho de participar", finalizou Netto.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Para Grizotti, uso de câmaras escondidas em reportagens é benéfica para sociedade

Foto: Beatriz Sanz
Para Giovani Grizotti, repórter investigativo do programa jornalístico Fantástico, da Rede Globo, o uso de imagens escondidas em reportagens se justifica pelos benefícios que suas revelações geram à sociedade. Na visão do jornalista, o uso da câmara escondida em uma reportagem de denúncia passou de principal prova de um crime para elemento complementar no processo de apuração jornalística.

"O interesse público que está por trás de uma imagem torna ético o uso da câmara escondida", ressaltou o jornalista em painel do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji, sob moderação de Fernando Molica.

Grizotti relembrou o caso de um acidente de ônibus escolar causado por problemas mecânicos, em 2004, no município gaúcho de Erechim, que resultou na morte de 16 crianças. Uma reportagem produzida pelo jornalista utilizando câmera oculta revelou fraudes em laudos de vistoria para ônibus de excursão envolvendo o engenheiro responsável e resultou na abertura de sindicância pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Sul (DAER).

O repórter conta que em casos de maior repercussão, como no caso da "Máfia das Próteses", ele acompanha o passo a passo das investigações e, geralmente, é chamado para testemunhar no processo. Sua reportagem sobre o esquema, exibida pelo Fantástico em janeiro deste ano, denunciou o pagamento comissões a médicos pela venda de próteses e resultou em duas Comissões Parlamentares de Inquérito no Congresso Nacional.

Neste caso, Grizotti afirma que um dos representantes de uma empresa de próteses já tinha conhecimento sobre a investigação do Ministério Público, que corria em segredo, e sabia sobre a reportagem que viria ser publicada sobre o tema.

O reconhecimento, no entanto, é um problema para "o repórter sem rosto". Grizotti, que evita ser fotografado para garantir sua segurança, já fora reconhecido e ameaçado por pessoas denunciadas em suas reportagens. Além disso, conta, o vazamento de uma foto sua pode vir a prejudicar futuras investigações. 

Com 19 anos de experiência na cobertura investigativa da RBS, Grizotti ainda explicou sobre as técnicas que utiliza no processo de produção de uma reportagem. O repórter explica que, para evitar cair em eventuais armadilhas, nunca faz contato pessoal com suas fontes, exceto quando envolve recebimento de materiais. "A não ser que seja um funcionário público, só me encontro com fontes em shopping, praças e onde tem alguém observando', concluiu.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Emoção e multiplataformas são as apostas da Globo para Olimpíada do Rio


Por Caroline Monteiro

Foto: Camila Alvarenga
Não são só os atletas que precisam de preparação longa e intensa para um melhor desempenho durante os Jogos Olímpicos. Ainda em 2014, mais de dois anos antes da abertura, que acontece em agosto de 2016,  a equipe de jornalismo das grandes emissoras já está em aquecimento para a cobertura da primeira Olimpíada no Brasil. 

Foi sobre essa preparação que o jornalista Renato Ribeiro, responsável pelo projeto olímpico da Globo, falou em painel que debateu a inovação na cobertura em TV da Olimpíada de 2016, núltimo dia do Congresso da Abraji. "Estamos criando um evento multiplataforma, com três grandes plataformas integradas e trabalhando juntas."
No Brasil, a transmissão do evento será feita por três canais abertos (Globo, Band e Record) e por quatro canais fechados (SporTV, Fox, ESPN e Band Sports). Com exceção das empresas das Organizações Globo, todas as outras têm liberdade apenas para replicar e repetir na Internet o que foi transmitido na televisão. O desafio, segundo Ribeiro, é concorrer com a própria Globo, uma vez que a emissora é a única que pode produzir conteúdo diferente para TV aberta, TV fechada e Internet. "Estamos trabalhando de um jeito que, quando acabar um jogo e começar a novela, o telespectador vá para a web ou para o SporTV, e não para a Record."

Outra estratégia adotada pela emissora é apostar na qualidade do ao vivo. Para isso, foram comprados espaços para câmeras exclusivas nos locais de transmissão, com a intenção de dar foco nos atletas nacionais caso eles não estejam sendo mostrados pelas câmeras da Olympic Broadcasting Services (OBS - organização internacional responsável pela transmissão dos jogos). Na linha editorial, o objetivo é fazer o telespectador entender o esporte, as regras da competição e quem são os grandes atletas. "Nosso desafio é fazer as pessoas se emocionarem com as Olimpíadas e, para isso, elas precisam saber o que está acontecendo". 

Somos Todos Olímpicos. A programação da Globo voltada para a Rio 2016 será intensificada em agosto de 2015, com ampla divulgação dos esportes, da campanha "Somos Todos Olímpicos", e com a criação de séries especiais para o Fantástico e Jornal Nacional e do programa "Balada Olímpica", que estreia em 5 de agosto e será apresentado por Carol Barcellos uma vez por mês após o Jornal da Globo e em todos os dias dos Jogos Olímpicos.

A transmissão será realmente intensa: na TV aberta, serão nove horas de programação esportiva durante os 17 dias de competição, totalizando 160 horas, incluindo 110 horas ao vivo. A grande dificuldade é a montagem da grade da emissora. Esportes coletivos serão transmitidos ao vivo. Atletismo, natação e ginástica, considerados os três grandes pilares dos jogos, também têm grande índices de audiência, mesmo que não tenham atletas brasileiros nas competições, porque são os esportes que mais formam heróis, segundo Ribeiro.

Algumas provas específicas, muito longas ou com muitos atletas competindo ao mesmo tempo, são problemáticas para o planejamento da emissora, que começou dois anos e meio atrás. Apesar da antecedência, nem tudo é previsível. "A segunda semana da Olimpíada é uma incógnita", conta Ribeiro. "As decisões tem de ser tomadas de um dia para o outro."

Além da competição. Para Ribeiro, a relação Copa x Olimpíada é equivalente ao embate entre paixão e amor, respectivamente. Por isso é tão importante defender os quatro pilares que a Globo vem adotando na campanha pré-Rio 2016: emoção, admiração, transformação e educação. Como a diversidade de atletas e esportes é gigante, o tratamento de toda a cobertura é muito diferente, assim como o público atingido. 

"Nas Olimpíadas, as mulheres são tão protagonistas quanto os homens. Isso é muito importante para nós que fazemos conteúdo. Elas são a primazia da audiência e quem mandam no controle remoto. O protagonismo das mulheres faz elas se verem naquela situação", aponta Ribeiro. 

Outra preocupação do jornalista é o tratamento que o esporte receberá após o fim da Olimpíada no Brasil. "Vemos uma política voltada para a área apenas agora. Mas e depois? Rio 2016 vai jogar uma cortina de fumaça no esporte brasileiro. Todo mundo vai achar que é uma maravilha, mas não é. A direção das confederações é catastrófica."

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.