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27/06/2019

Intervenção Federal contribui para impunidade de militares no Rio de Janeiro, apontam repórteres

Palestrantes acreditam que militares envolvidos em casos de abusos no RJ não serão punidos

Por Mariana Soares
Rafael Soares (Jornal Extra) e Natalia Viana (Agência Pública) falam sobre o aumento da impunidade para militares no RJ

A Intervenção Federal e as mudanças na lei que alteram a forma de julgar militares contribui para a impunidade de casos de abusos cometidos no Rio de Janeiro. Essa é a avaliação da jornalista e cofundadora da Agência Pública, Natalia Viana, e do repórter de segurança pública Rafael Soares. "Se vocês me perguntarem o que eu acho que vai acontecer, eu digo nada. Nenhuma punição", aponta Rafael.

A Justiça investiga mais civis por desacato, resistência e obediência que pune agentes por mortes durante as operações da Garantia da Lei e Ordem, como afirma a reportagem de Natalia divulgada hoje pela Agência Pública, que é parte da série Efeito Colateral. Levantamento mostra que, desde 2011, 144 processos que envolvem civis em crimes respondiam na Justiça, enquanto apenas 29 militares respondiam às acusações de invasões de casas, ameaças e até mesmo tortura.



24/06/2016

Jornalismo em quadrinhos é memória oral e subjetiva

Por Phillippe Watanabe


"É impossível que um sobrevivente da bomba atômica tenha um depoimento objetivo sobre Hiroshima. Mas é impossível que o depoimento dele não seja o melhor sobre Hiroshima". Com esse exemplo, André Conti buscou distanciar o jornalismo em quadrinhos -- para alguns, Novo Jornalismo --da busca constante pela verdade factual.

Foto: Alice Vergueiro
O painel "Jornalismo em quadrinhos" ocorreu na manhã desta sexta (24) durante o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. 

Além de Conti, editor de jornalismo da Companhia das Letras, também estava presente o jornalista Robson Vilalba, da Gazeta do Povo. A mediação ficou por conta Piero Locatelli, do Repórter Brasil

Numa tarde fria e chuvosa de Curitiba, uma mulher com luvas de boxe erguia os punhos e falava: "Eu luto pela educação". Ao presenciar essa cena, Vilalba decidiu investir na ideia de contar histórias a partir de imagens. 

O jornalista da Gazeta do Povo, responsável pelas reportagens em quadrinhos do veículo, também acredita no potencial narrativo do "campo do sensível", mas defende a realização de uma apuração meticulosa.  

A pesquisa para quadrinhos, segundo Vilalba, é até mais profunda em alguns casos, por conta da preocupação com ambientação, roupas e outros detalhes.

A possibilidade de escancarar os bastidores da reportagem, inclusive possíveis deficiências de apuração e percepção, é outro trunfo do jornalismo em quadrinhos. Joe Sacco, autor de "Palestina", foi incansavelmente citado como referência no assunto.

"Quando você não tenta disfarçar os problemas, as qualidades do seu trabalho afloram", afirmou Conti.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

23/06/2016

Postura do repórter pode influenciar forma como cérebro compreende e armazena notícias

Por Ariane Costa Gomes


Diariamente temos acesso a uma grande quantidade de notícias. Somos informados sobre o que acontece no mundo dos esportes, da política, da cultura, entretenimento etc. Mas, já parou para pensar como essas informações são armazenadas em nossa memória ou em como despertam nossos sentimentos? 

Essas foram algumas das questões abordadas no painel "O cérebro e a notícia: fatos, versões e interpretações" nesta quinta feira (23) no 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, realizado em São Paulo.
Foto: Alice Vergueiro
Mediado pelo jornalista e professor Marcelo Träsel, o painel foi conduzido pelos palestrantes André Martins, professor da EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e André Palmini, chefe do serviço de Neurologia do Hospital São Lucas da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). 

O modo como interpretamos uma informação envolve uma série de fatores que vão além do que está sendo transmitido, segundo os palestrantes.

A linguagem não verbal e a empatia, capacidade de colocar-se no lugar do outro, presente na mensagem transmitida pode interferir na forma como a compreendemos e sentimos a notícia.

Uma imagem impactante ou um repórter com expressão assustada transmitindo uma informação, por exemplo, tem um peso significativo em nosso cérebro comparado quando lemos o que está sendo noticiado. 

A expressão, tom de voz e a postura do repórter também influenciam o compreendimento da notícia pelo público. Além disso, a empatia também é capaz de determinar se a informação será algo passageiro ou um conhecimento adquirido. 


Essa relação de empatia e a mensagem que a linguagem não verbal nos transmite é o que faz com que algumas notícias fiquem armazenadas em nossa memória, segundo Palmini. "A capacidade de linguagem não verbal impacta nosso sistema emocional", afirma.

A memória pode ser construída e reconstruída muitas vezes influenciada por aspectos externos e sociais como apontou o neurologista Palmini. Nesse construção da memória, misturam-se aspectos individuais e coletivos a partir das relações estabelecidas em sociedade. 

"O medo de não pertencer ao grupo nos leva a pensar que o julgamento do grupo é mais correto do que o individual", Palmini.

ERROS E ACERTOS

O cérebro possui uma capacidade limitada de armazenar informações com dois sistemas de funcionamento: um que faz uma avaliação rápida com regras simples de aproximação e permite decisões mais rápidas e outro que analisa de forma mais criteriosa e lógica. 

Dessa forma, segundo alerta Martins, é preciso ter cuidado com o nosso próprio cérebro que, às vezes, pode nos levar ao erro. "Confiamos muito mais na cabeça da gente ou de um grupo do que deveríamos".

Martins aponta para o procedimento de escolha de fontes confiáveis para compor uma reportagem.
"Ao escolher uma fonte que reforce o seu posicionamento, o repórter acaba fazendo uma análise incompleta sobre o assunto pois não contrapõem as informações divergentes", diz. Apresentar esses dois lados da informação é importante para que o público possa fundamentar sua opinião considerando os dois lados, segundo o pesquisador.

Martins aponta a importância de analisar cada questão de forma séria e independente de modo que haja mistura de opiniões. "Sempre tem algo que gostamos mais,  mas é inevitável não tomar lados é importante buscar argumentos que sejam contrários a sua posição", sugere o professor.


O 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio de Google, Grupo Globo, Estadão, Folha de S.Paulo, Gol, Itaú, Twitter e UOL, e apoio da ABERT, ANJ, ANER, Comunique-se, Conspiração, Consulado dos Estados Unidos, ETCO, FAAP, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, ICFJ, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Portal Imprensa, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a orientação de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


02/07/2015

Es necesario un mayor esfuerzo para comprender a la Amazonia y sus habitantes, dice Eliane Brum

Por Ángela Reyes*

Foto: Camila Andrade
Para hacer buenos reportajes sobre la Amazonia, lo primero que hay que entender es que “no existe una Amazonia, sino varias” y serían necesarias múltiples vidas para conocerlas todas en profundidad, explicó durante su presentación en Abraji la reconocida periodista Eliane Brum.
Conscientes de esa limitación y de que “la verdad absoluta no existe”, los periodistas deben intentar “comprender cada una de las singularidades” de la región y de los indígenas que la habitan, intentar “descifrar al otro y el mundo del otro”.

Comprender al otro significa, antes que nada, reconocer al momento de iniciar una historia el desconocimiento que tiene cada uno sobre la Amazonia. Y también implica, según Brum, estar dispuesto a cuestionar las propias visiones del mundo. “Si no estamos dispuestos, podemos pasar seis meses en la Amazonia y volver tal como nos fuimos: atados a nuestras propias creencias”, reflexionó la periodista, que ganó durante su carrera más de 40 premios nacionales e internacionales por sus reportajes.

Para lograr la comprensión, la principal herramienta de trabajo es la escucha profunda, explicó Brum. La escucha es la “cualidad que garantiza la calidad del reportaje” y supone estar atento tanto a lo que dicen los entrevistados como a lo que callan, a la voz pero también a los gestos. Es una escucha “que no se hace solo con los oídos sino con todos los sentidos”, agregó.

La escucha permitirá a los periodistas comprender qué significa para los indígenas cada uno de los aspectos de su vida: la casa, la comida, el río y los árboles, por citar ejemplos de elementos que quienes no viven en la selva creen comprender pero en realidad no lo hacen. Las muestras de este desconocimiento se ven todo el tiempo, según Brum, quien citó una encuesta que se realizó tiempo atrás a un grupo de indígenas en la que se les consultaba "¿qué hacen en su tiempo libre"? Esta pregunta refleja una completa ignorancia de la forma en que los indígenas entienden el tiempo. Y, como este caso, hay infinidad de otras ocasiones en que por "ignorancia, mala fe o ambas" se demuestra una absoluta incomprensión del mundo que es la Amazonia.

Una buena cobertura sobre la Amazonia implica también dejar de reproducir los discursos hegemónicos existentes sobre el “pulmón del mundo”, según Brum. La periodista explicó que durante la última dictadura (1964-1985) se generó un discurso vinculado a “la conquista de la Amazonia”, que entiende a la selva como un sitio sin sujeto que por ende se convierte en objeto y es susceptible de ser dominado. Este discurso no se limitó a la dictadura, sino que logró atravesar gobiernos democráticos. Reproducir los discursos hegemónicos es ponerse “al servicio de intereses políticos y económicos”, consideró.

El discurso de “conquista” incluía la suposición de que la Amazonia estaba vacía. Referirse a ella como el “desierto verde” y marcar la necesidad de poblarla suponía no reconocer la existencia de indígenas allí o no reconocer a los indígenas como personas. Con los años esta retórica se modificó, pero no se volvió más amigable hacia los habitantes de la selva: ahora son considerados como opuestos al progreso. A este discurso se enfrenta el de sectores como las organizaciones ambientalistas.

En la Amazonia el conocimiento se transmite de manera oral. Por eso, los periodistas que se dedican a cubrir historias vinculadas a esta región tienen la responsabilidad y a su vez el privilegio de plasmar esa oralidad en documentos escritos. Según Brum, también documentalista, “somos constructores de la memoria de otros, documentamos la historia en movimiento”.

Para la escritora es importante hacer el esfuerzo de mejorar la comprensión y de no reproducir los discursos existentes vinculados a la Amazonia porque “la forma en que se narra influye en la formación del momento histórico”.

* é jornalista uruguaia convidada a acompanhar o Congresso pela Unesco.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Editor de la revista peruana 'Etiqueta Negra' habla de las claves para un buen perfil

Por Ángela Reyes*

Foto: Divulgação
El lector es un enigma, es un traidor, es un infiel. Al finalizar de leer un artículo, sin importar cuál sea el tema o la longitud, solo recuerda uno o dos detalles. Por eso, dice Julio Villanueva Chang, director de la revista peruana Etiqueta Negra, la pregunta fundamental a la hora de elaborar un perfil es: "¿Cómo organizamos el recuerdo de los lectores?".


"Un perfil produce conocimiento y no solo reconstruye información, elige qué contar y qué callar", explica Villanueva durante su conferencia en el Congreso de Abraji titulada (como dice la canción de Caetano Veloso) "De perto, ninguém é normal". La clave, fundamental para el éxito de esta revista especializada en perfiles, crónicas y ensayos, es la elección de los detalles que permiten "captar el carácter esencial" del personaje que se busca retratar, que lo diferencian de cualquier otro de su tipo.

Lo que más le gusta a Messi además de jugar al fútbol es dormir. El ganador del Nóbel de Economía Joseph Stiglitz tiene el reloj con una hora de atraso. Este tipo de detalles prueban que no hay ninguna persona viva o muerta sobre la que esté todo dicho, ni Poncio Pilatos ni Mandela ni Messi. Por eso, el perfil "es un trabajo de excavación (antropológico)", considera Villanueva. "El trabajo de quien hace un perfil es transmitir una experiencia" y "poner una mirada fresca de asombro primitivo" sobre el personaje que está retratando, agrega.

Hacer buenos perfiles, que no se agoten en la narración sino que incluyan además el ensayo de ideas, requiere para Villanueva "dejar de pensar como periodistas", alejarse de todo lo previsible, burocrático o retórico e incluir "cierta locura dentro del orden, cierto pensamiento salvaje". Los periodistas dan en ciertas ocasiones "demasiada importancia" a las noticias en detrimento de las historias que valen la pena.

Para reconocer el detalle que vuelve al personaje interesante (una cuestión de talento pero que también requiere semanas, meses y hasta años de trabajo) hay un método que no falla: identificar paradojas o situaciones de conflicto. "Una chica correcta en ropa interior" fue el título de un perfil de Etiqueta Negra sobre la modelo Giselle Bundchen. ¿La paradoja? En palabras del perfil: "La industria de la moda bosteza con escándalos de anorexia, drogas y derroche, Gisele Bündchen no fuma ni va a fiestas, pide las cosas por favor y construye una casa que funciona con energía solar".

Por otro lado está el conflicto: "El hombre que eligió el bosque y lo asesinaron" narra la historia de un electricista convertido en líder amazónico que fue asesinado por denunciar la tala de árboles ilegal. Además de ser la historia del conflicto de Edwin Chota, este perfil es la historia de todos los que pretenden salvar la selva. Aquí está otro secreto de las buenas narraciones según Villanueva: son particulares y universales a la vez.

Para lograr artículos atractivos, otra clave es "suspender la superioridad moral de unos temas sobre otros", considera Villanueva. Un reportaje sobre guerra, miseria o corrupción puede ser mediocre si el tratamiento es poco original, mientras que un perfil sobre un panadero desconocido puede ser apasionante si está bien logrado. Un punto fundamental para que el perfil sea atractivo es el título, no un agregado que se hace cuando se termina de escribir sino un "faro" que orienta al escritor cuando elabora el texto y al lector cuando llega a sus manos.

"No basta con ser ameno. Ser divertido, tener gracia es una conquista, pero una conquista mayor es tener voz: que tú leas o escuches un texto y sepas que fue escrito por una persona sin que digan el nombre", dice Villanueva. Ese es el largo camino a seguir.

* é jornalista uruguaia convidada a acompanhar o Congresso pela Unesco.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Como preservar arquivos digitais

Por Mariana Bananal 


Foto: Alice Vergueiro
Saber organizar informações é fundamental para a realização de uma boa reportagem. No ambiente digital, onde os documentos e dados se espalham de uma maneira acelerada, a prática do arquivamento garante agilidade ao trabalho jornalístico, que se torna também mais eficiente. “O arquivo só é bom quando você consegue mantê-lo íntegro e acessível”, garante Ana Célia Navarro, presidente da Associação de Arquivistas de São Paulo e docente da PUC-SP, durante sua participação no 10º Congresso de Jornalismo Investigativo promovido pela Abraji, em São Paulo.


Quando o assunto são dados virtuais, o arquivamento deve ser feito com mais cautela, devido à fragilidade dos sistemas. Um só baú não resolve. “O correto é ter sempre documentos importantes em três lugares diferentes. Minha dica é manter uma cópia no computador pessoal, outra em um HD externo e também uma cópia na nuvem. Além disso, podem-se usar as mídias óticas. É importante lembrar que nenhum desses meios são permanentes”, ressalta.

A historiadora chama a atenção para a necessidade de manter os registros organizados em séries de documentos de mesmo tipo. Por exemplo, quando o jornalista trabalha em cima de uma determinada pauta, ele deve criar uma pasta específica para o tema e, dentro desta pasta, criar outras para cada tipo de documento arquivado. As séries levam em consideração o tipo do material, como certidões de nascimento ou boletins de ocorrência.

 Para manter os documentos digitais íntegros, é preciso atualizar os arquivos constantemente e fazer a revisão de dados. Para Ana Célia, um prazo ideal para o armazenamento de documentos é de até cinco anos após a publicação de um material. Ainda assim, ela sugere aos jornalistas manterem uma “tabela de temporalidade”, uma espécie de controle para a exclusão de documentos, com informações e datas de conservação. As tabelas estão disponíveis na internet, e também no site do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Neste processo, ainda deve-se levar em consideração a Lei de Arquivos (Lei 8.159/1991), que estipula prazos para a reunião de documentos específicos tanto para os cidadãos quanto para empresas e instituições governamentais.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Totti lista os 5 'truques' para um bom texto jornalístico

Por Caroline Monteiro Araujo

Foto: Alice Vergueiro
O jornalista Paulo Totti abriu sua participação no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, hoje, em São Paulo, dizendo que "um repórter deveria ser pago pelo tempo que consegue manter um leitor lendo a matéria dele". Para ele, os repórteres serão a última raça a ser extinta na Terra. "Ser repórter é a coisa mais importante do jornal. Se ele souber escrever de diversas formas, com bom embasamento intelectual para explorar o fato que encontrou na reportagem, o leitor vai ler todo o texto, por maior que seja", diz.


Totti é repórter veterano. Já cobriu polícia, esporte, internacional, economia e política. Trabalhou na Folha da Tarde, ajudou a fundar a revista Veja, foi assessor de imprensa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e permaneceu no Valor Econômico até 2013. Recebeu o Prêmio Esso de Informação Econômica em 2007, com a reportagem China, o império globalizado. Atualmente, trabalha na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). Totti deu o curso "Como melhorar o texto jornalístico" no Congresso da Abraji. Os cinco principais tópicos apresentados por Totti são:

1. Apurar, apurar e apurar: por melhor que o texto seja, a apuração continua sendo a principal arma de uma reportagem. "Sem apuração, você vai escrever uma crônica, e não uma matéria de jornal, porque vai faltar informação." Totti explica que se o repórter tiver tudo apurado, o material estará perfeito, com todos os lados do tema cobertos. Mas informação não é suficiente para um bom texto jornalístico:

2. Criatividade e ousadia: "Sua informação vai ser a mesma que a do seu concorrente. Para as pessoas escolherem o seu texto, ele tem de ser atraente", diz Totti. A dica é observar e estar atento a tudo: ao ambiente, ao contexto, às pessoas; e usar essas informações para dar elegância ao material. "Esses dados, que parecem acessórios, são ótimos para abrir uma matéria de maneira criativa. Mostre o cenário, o passado, as perspectivas que tem de futuro, leve o leitor com você, se não a matéria fica 'xoxa'", comenta Totti. "É o que dá brilho ao texto. A busca pela criatividade tem que ser permanente." Mas então, como perseguir a criatividade?

3. Livros: leitura é a principal matéria-prima da criação. Lendo bons livros, que contem a história do Brasil ou que sejam ótimos exemplos de reportagens, fica cada vez mais fácil colocar ousadia no texto. Totti indica alguns títulos: "para ser um bom repórter no Brasil, você tem de entender o seu País. Leiam Casa-Grande e Senzala, do Gilberto Freyre, que além de contar a história da formação do Brasil, tem uma texto maravilhoso e muito agradável; Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda, e Formação Econômica do Brasil, do Celso Furtado". Para saborear uma boa reportagem, Totti indica os autores estrangeiros Gay Talese, Tom Wolfe e Truman Capote, e ainda recomenda alguns filmes: "gosto muito do cinema realista italiano e da produção americana até a década de 1980".

4. Relação com fontes e entrevistados: Totti reforça a importância da observação e da percepção do repórter, para notar todas as atitudes de quem está sendo entrevistado. Quanto mais nuances forem captadas na hora da entrevista, mais fácil é deixar o texto com qualidade. E para evitar a influência da fonte no que se está apurando, a dica é não estabelecer nem relações tão próximas nem tão distantes. "A proximidade com a fonte traz muitos interesses e até 'conluios'. A distância extrema atrapalha o acesso às informações."

5. Truques de linguagem: outra dica para um bom texto, segundo Totti, é fugir dos vícios de linguagem, como a expressão "a bola da vez" que, no senso comum, significa algo bom e valioso no momento, mas no contexto da sinuca é a bola que deve ser eliminada, encaçapada. Verbos e adjetivos fortes e marcantes também devem ser evitados, mas substantivos próprios podem ser repetidos, em prol da clareza e da precisão. "Quando você trata de dois personagens do mesmo sexo, os pronomes ele e ela vão confundir o leitor. Ele não vai saber de quem você está falando. Então repita o nome". Totti também cita verbos como verberar, explicar e disparar, que indicam que o jornalista já tomou partido da situação. "Prefira sempre o dizer, que é neutro. Pare de usar o gerúndio. O governo não está planejando nem estudando nada. Ele planeja e estuda. Use o presente", indica Totti.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.