02/07/2015

Investigação jornalística revelou segredo de 35 anos da ditadura

Por Pâmela Ellen

Foto: Alice Vergueiro
Foram 12 anos de investigação para que a jornalista Daniela Arbex conseguisse reconstituir os últimos passos do guerrilheiro Milton Soares de Castro no livro "Cova 312". Torturado e assassinado em 28 de abril de 1967, nos porões da Penitenciária Política de Linhares, a história de Milton continuava incompleta 35 anos depois da sua morte.

Milton era pintor, largou a vida humilde que tinha em Porto Alegre para perseguir o ideal de mudar o Brasil depois do golpe militar de 64. Se aliou à guerrilha na Serra do Caparaó (MG), financiada por Cuba e Brizola, foi preso e levado à prisão de Linhares, onde não saiu com vida. "Ele foi o mais valentes dos guerrilheiros. Foi o primeiro a ir para a serra e o último a sair de lá depois que o exército cercou o local", disse Daniela.

O atestado de óbito dizia que Soares cometera suicídio por asfixia. Porém, seu corpo nunca foi devolvido à família para que houvesse um enterro apropriado.

Em 2002, motivada por uma notícia sobre o requerimento de indenização dos militantes torturados na Penitenciária Política de Linhares, começou a procurar uma história diferente para contar e se deparou com a de Milton Soares, único homem que morreu dentro daquela prisão e que, até o momento em que ela iniciou a reportagem, não se tinha informações sobre o paradeiro do seu corpo.  

Daniela decidiu, então, que iria investigar as causas da morte do guerrilheiro. Encontrou arquivos que mostravam que o cadáver fora enterrado na cova 312, na cidade de Juiz de Fora (MG). Além disso, ao falar com amigos e familiares do guerrilheiro, descobriu que, no dia em que ele morreu, havia sido retirado da cela para dar depoimento e não voltou mais. No Guia para Enterramento a data da morte estava rasurada, o local do enterro modificado, várias informações eram contraditórias e ainda informava a contratação de uma cova rasa por um militar da reserva.

Para reconstituir os últimos passos de Milton na Penitenciária de Linhares, a jornalista tirou uma licença de sete meses na redação do jornal "Tribuna de Minas" para poder viajar e entrevistar os personagens chaves da investigação. Preocupada com os detalhes, para ela estar naquela prisão era fundamental. "Queria sentir a atmosfera e o cheiro do lugar. Este é um procedimento muito importante na investigação jornalística, estar no local onde os fatos ocorreram", disse.

De lá, Daniela viajou até o Rio de Janeiro onde conseguiu entrevistar os peritos que realizaram a necropsia do corpo do guerrilheiro e assinaram o seu laudo de morte. "Adorei que um deles se passou por louco, disse que não sabia nem quando foi a ditadura mas continua fazendo autópsias, mas o outro confirmou o assassinato", conta Arbex. Para conseguir esse tipo de confissão, a jornalista ensina que os repórteres devem ter paciência e estar dispostos a ouvir as pessoas, para que elas se sintam à vontade. 

A investigação se intensificou quando Daniela solicitou o inquérito ao Tribunal Superior Militar (TSM). Analisando os documentos, encontrou diversas contradições nos depoimentos das testemunhas. Havia, por exemplo, a informação de que Milton tinha se enforcado com uma tira de pano de 30 centímetros amarrada a uma torneira da cela. "Recortei uma tira de pano no mesmo tamanho e coloquei em volta do meu pescoço. Eu, que tenho 1,58 metro, não consegui dar a volta com o pano no meu pescoço. Imagina um homem de 1,80 metro", relata.

Para realizar essa reportagem de fôlego, Daniela percorreu todos os caminhos de uma reportagem investigativa. Para ela, o trabalho de um jornalista exige muita dedicação. É essencial sair à rua, ter persistência para conseguir acesso a documentos restritos e insistir nas entrevistas com fontes importantes, para que eles confrontem os dados que temos das nossas próprias apurações.

No "Cova 312", Daniela mostra a omissão que existe até hoje sobre os crimes cometidos durante os 21 anos do regime militar. "A força da verdade é avassaladora", afirma. "Quando não se tem um corpo para velar é como se a pessoa morresse todos os dias".

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Universidade e movimentos sociais: estudantes debatem os bastidores das reportagens

Por Camila Alvarenga

Foto: Camila Alvarenga
Foi lendo um especial do jornal cearense, "O Diário do Nordeste", que a estudante Bárbara Rocha, da Universidade Federal do Ceará, conheceu a personagem que iria inspirar o seu primeiro grande desafio: o trabalho de conclusão de curso, essencial para se formar em jornalismo. A história de Pequena, primeira cacique do Brasil, da tribo Jenipapo-Kanindé, localizada na região metropolitana de Fortaleza, foi contada no livro-reportagem "Mulheres da Encantada", que aborda ainda as histórias de outras mulheres da tribo.


"Quando resolvi fazer o trabalho, sabia que meu universo era totalmente diferente da questão indígena. Eu sabia que eu queria falar sobre gente que geralmente tem muita coisa pra falar e é esquecida, apesar de ser importante", conta a jovem jornalista.

O resultado norteou o debate da primeira mesa sobre TCC's, logo na estreia do 10º Congresso Internacional de Jornalismo da Abraji, que contou ainda com outro trabalho sobre movimentos sociais: o livro "13 de junho - Histórias de uma noite de guerra em São Paulo", escrito pelo trio Fernanda Ferreira Santos, Bárbara Libório e Nicolas Iory, da Universidade Metodista de São Paulo, que traz 40 entrevistas realizadas com pessoas que participaram, direta ou indiretamente, da manifestação ocorrida no dia 13 de junho de 2013.  "Quando a gente começou a pensar no nosso TCC, a gente queria fazer uma coisa enorme: fazer sobre todos os dias de junho, em todas as cidades e viajar! Mas a gente se viu numa situação em que tivemos que afunilar: fomos então para o mês de junho, em São Paulo, aí percebemos que o dia 13 foi o dia 'D', e decidimos fazer sobre ele", disse Bárbara Libório, uma das autoras do livro.

Em comum, a discussão sobre técnicas de reportagem e entrevista, e os bastidores de toda a trabalheiras das reportagens.

"Encantadas"
Para conseguir levar as particularidades da aldeia aos leitores, Rocha passou por um extenso processo de pesquisa, que durou um ano e meio. A produção incluiu questionar a credibilidade de veículos de comunicação, artigos etnográficos, consultar especialistas, fazer diversas visitas à comunidade - incluindo passar quatro dias dormindo em uma das casas da aldeia - e, claro, realizar longas entrevistas. "Muitas pessoas que sabiam do meu trabalho me perguntavam: 'Ah, mas no Ceará tem índio?', 'Quando você vai pra lá, você dorme em oca?', 'Eles andam pintados?'. E eu falava que não, que não dormiam em ocas, não andavam pintados. E me respondiam: 'Então eles não são mais índios'. Mas eles são", destaca.

Para concluir a obra, ela acabou escolhendo três personagens, todas mulheres, para serem as vozes do grupo. O primeiro capítulo é dedicado à Pequena, considerada a "primeira cacique mulher do país", guardiã da memória da aldeia e atual líder dos Jenipapo-Kanindé. No relato, ela conta como os costumes da tribo foram se perdendo aos poucos, conforme os membros foram entrando em contato com a realidade fora da aldeia. Costumes e tradições que ela luta para recuperar, como lendas e até religião.

Já o segundo capítulo é protagonizado por Juliana, a cacique Irê, uma das filhas e herdeira da cacique Pequena, e o terceiro acompanha Raquel, de 16 anos, neta de Pequena. "Eu acho que o jornalismo tem potencial para levantar debates importantes sobre diversas questões que devem ser discutidas e eu acho que a questão indígena, sobre diversas perspectivas, deve ser discutida", argumenta a autora.

Da polícia aos manifestantes: diferentes visões sobre o mesmo dia

Foto: Camila Alvarenga
Em junho de 2013 surgiram uma série de eventos que acabaram ficando conhecidos como "Jornadas de Junho": foram várias manifestações em protesto contra o aumento da tarifa dos ônibus, não apenas na capital mas em todo o país - de R$ 3,00 as passagens saltariam para R$ 3,20, o que causou grande comoção dentro de todo um contexto de outras demandas, historicamente debatidas pelos movimentos sociais. Lideradas pelo Movimento Passe Livre (MPL), as jornadas ficaram conhecidas, sobretudo, por dois motivos: a ampla adesão popular e a truculência empregada pela polícia para conter o movimento.

No livro, os estudantes escolheram o dia 13 que acabou se mostrando o mais violento: 241 pessoas foram detidas e pelo menos uma centena de vítimas ficaram feridas, de acordo com o MPL. Dividido em seis capítulos, a reportagem também conta com o prefácio de Lúcio Gregori, Secretário de Transportes de São Paulo durante o mandato de Luiza Erundina, e o primeiro a elaborar um projeto de "Tarifa Zero" na capital, em 1990. "Para falar com o Cabo foi muito difícil. A gente ia no posto onde ele fazia ronda, no MASP, e ele nunca estava. Eu ia numa terça e diziam que ele estaria na quinta, eu ia na quinta, diziam que ele estaria na segunda. Até que eu fui e me disseram que ele ia para São José dos Campos e estava na delegacia, terminando de assinar os papéis e provavelmente já tinha ido embora. Eu fui correndo e, quando cheguei, ele já estava no estacionamento saindo. Mas consegui falar com ele e a gente marcou uma entrevista uma semana depois, em São José", conta Fernanda.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Cobertura do Poder Judiciário é mal explorada pela imprensa, diz fundador do Jota

Por Letícia Ferreira

Foto: Alice Vergueiro
Um poder pouco questionado pelo jornalismo. É assim que Felipe Recondo, jornalista e sócio-fundador do site de notícias jurídicas Jota, vê as pautas de cobertura do Poder Judiciário brasileiro. Para ele, essa área ainda representa um grande desafio não apenas para a imprensa, mas para outros setores da sociedade que pretendem questionar a Justiça.

Recondo relatou o caso de uma jovem advogada que pretendia realizar uma pesquisa sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma das intenções do levantamento era revelar quais juízes demoram mais para julgar determinados casos. No entanto, ela acabou desistindo do trabalho temendo intimidações profissionais futuras.“Um advogado não vai criticar o juiz porque sabe que pode precisar dele”, diz Recondo. 

Ainda na área do direito, a FGV-Rio também teve dificuldade no levantamento de dados para o projeto Supremo em Números, que pretende facilitar a compreensão de grande volumes de informações jurídicas. Depois de analisá-los, a intenção da fundação era disponibilizar os dados brutos em uma plataforma on-line para que fossem acessados por qualquer pessoa. Agora, segundo Recondo, há um risco de as informações não serem publicadas por pressão do Supremo.

“A imprensa não está disposta a comprar a briga [com o Poder Judiciário]”, afirma o jornalista do Jota. De acordo com Recondo, por dois motivos principais: interesses próprios dos veículos e possíveis processos judiciais que podem inviabilizar da empresa ou do jornalista que assinou uma reportagem questionada na justiça. 

Algo próximo do ocorrido com o jornalista Leandro Fortes, condenado a pagar R$180 mil em indenização por danos morais ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ao lado da Revista Capital e de Mino Carta, por três colunas publicadas.

Mesmo assim, a partir da experiência de quase um ano no Jota, Felipe sente que há um interesse crescente da sociedade em entender a atuação do judiciário e como suas atividades influenciam a vida do cidadão. Por outro lado, acredita que a cobertura dessa área é pequena. "Não existe essa cobertura [nos veículos], há poucas pessoas para discutir”.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Como fazer reportagem seguindo rastros das empresas de capital aberto

Por Juliana Domingos de Lima


Foto: Alice Vergueiro
Além de esclarecer termos do universo árido da contabilidade, o jornalista e colunista do Valor Econômico Fernando Torres traçou hoje, no 10º Congresso da Abraji, em São Paulo, caminhos para a cobertura de empresas privadas de capital aberto. O jornalista se dedicou a esmiuçar quais informações divulgadas merecem atenção e quais outras maquiam a situação financeira de uma empresa.

Torres recomenda o site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como fonte para a consulta de dados - ele é mais seguro que os números divulgados pelas assessorias das empresas. Segundo Torres, os documentos para jornalistas são mais mastigados, mas podem conter informações que "douram a pílula" do assessorado.

No CVM é possível verificar o balanço oficial e o documento de informações trimestrais (ITR), ou ainda a demonstração completa oficial, caso a busca seja por valores anuais. Nos releases, valores seguidos do termo "ajustado" requerem cuidado por parte do jornalista, já que fogem do padrão contábil oficial. "Sem ter familiaridade com a empresa, você não tem condições de avaliar se o ajuste é devido ou não", explicou.

No Valor Econômico, disse que o padrão é divulgar o número oficial, aceito pelo auditor. A recomendação, para não se deixar enganar pelo "ajuste", é divulgar ambos (oficial e ajustado). A diferenciação entre ambos também pode ser uma informação importante, que pode valer uma explicação.

Passo a passo

O caminho da apuração indicado pelo jornalista segue o seguinte meandro: primeiro, chama atenção para o parecer do auditor, no qual deve-se verificar ressalvas, sinal de que alguma conta no balanço está errada. Priorizar esse documento garante que não se perca tempo com números equivocados ou distorcidos.

Em seguida, a análise da variação do lucro líquido da empresa, sempre em relação a outras medidas. O crescimento da companhia nunca deve ser analisado isoladamente, sem verificar se houve aumento das despesas, da receita, do pagamento de juros, permitindo buscar, por exemplo, uma variação discrepante entre lucro líquido e receita, ou outras relações que podem indicar informação relevante para o jornalista. Observar esses valores, para Torres, é a chave para fazer perguntas sobre o balanço de uma empresa.

Por fim, a verificação das muitas notas explicativas costuma render: merecem destaque, para encontrar detalhes que se tornem pautas, a nota que trata de provisões de contingência, onde se pode encontrar os processos contra a empresa, a nota de partes relacionadas, que mostra ações entre empresas de um grupo, onde podem surgir pagamentos suspeitos e questionáveis. A nota de empréstimos e financiamentos, que expõe os bancos e pessoas que emprestam dinheiro para aquela empresa e a quais juros e também as notas de passivo atuarial, que mostram compromisso com fundos de pensão ou pagamento de plano de saúde de funcionários, também relevante em caso de déficit, que no balanço acaba ficando escondido.

Foto: Alice Vergueiro
Torres chama atenção para a divulgação do Formulário de Referência das empresas, pelo CVM. Este formulário é anual e seu vazamento acontece até 31 de maio. O destaque vai para os capítulos 4, que diz respeito aos fatores de risco, onde, segundo ele, é descrito tudo que "pode dar errado" com a empresa no futuro; o 10, que concerne ao comentário dos diretores da empresa, avaliação feita de sua situação financeira em que são forçados a comunicar o endividamento e se há fraudes na contabilidade; e por fim, o 13, da remuneração de administradores, que não emite valores pessoais mas permite calcular uma média salarial útil para estabelecer comparações entre empresas do mesmo setor e até mesmo explicar comportamentos diferentes entre elas: empresas que pagam mais ou pagam grandes bônus tendem a ser muito mais agressivas.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Critério e cuidado: saiba como Fernando Rodrigues e Chico Otávio apuraram o caso SwissLeaks

Por Karine Seimoha

Foto: Phillippe Watanabe
Como apurar e preparar a cobertura de um escândalo do tamanho do SwissLeaks? Afinal, é um trabalho gigante. Os dados vazados por Hervé Falciani – ex-funcionário do HSBC suíço - revelaram informações de contas de 106 mil clientes de 203 países. Mais de cem bilhões de dólares. Só de brasileiros, surgiram mais de 6600 contas bancárias que juntas, somam mais de 7 bilhões de dólares. O país é o 4º com maior número de envolvidos. A resposta dos dois jornalistas brasileiros que tiveram acesso à lista completa é: com critério e cuidado.

Foi montada uma verdadeira força-tarefa internacional. A investigação foi coordenada pelo International Consortium of Investigative Journalism (ICIJ) e envolveu 163 jornalistas de 65 veículos de 55 países.

De acordo com Fernando Rodrigues, integrante do ICIJ e colunista do Portal UOL, que veio ao 10º Congresso da Abraji para dar uma palestra sobre o tema, é importante ressaltar que nem todas essas contas são ilegais, visto que é permitido aos brasileiros manter dinheiro em outros países de forma legal, declarando as remessas enviadas ao exterior no Imposto de Renda.

Rodrigues informou que o governo brasileiro poderia ter pedido acesso aos dados sobre o escândalo através do governo francês, mas não fez nada. Grande parte dos países que tem cidadãos envolvidos no escândalo manifestaram interesse em receber os dados, como Inglaterra e Argentina. O Brasil não faz parte dessa lista de países que solicitou as informações ao fisco francês – órgão que recebeu os dados vazados pelo ex-funcionário do banco suíço - segundo o jornalista, porque não houve interesse. "O governo não fez nada. Eu procurei autoridades brasileiras, mas eles simplesmente não se mexeram."

Mais recentemente, porém, o governo brasileiro solicitou essas informações ao fisco francês, e deve recebe-las em breve. Fernando Rodrigues ressaltou que a Receita Federal já teve acesso aos dados e divulgou-os sem checagem de legalidade, isto é, se todas as contas referidas no documento eram ilegais ou não.

A Receita Federal, por sua vez, afirmou, em nota na época, que não há como cobrar impostos das remessas enviadas ao exterior e não declaradas, pois os dados são de 2006/2007, e esse crime prescreve após cinco anos. Rodrigues afirma que, no escândalo, estão envolvidos dois tipos de crime: sonegação de impostos e evasão de divisas, e este último não prescreve.

Chico Otávio, jornalista do O Globo, tem conduzido as apurações junto com Rodrigues, e afirma que eles têm procedido com muita cautela e divulgam apenas nomes de envolvidos que atendem ao critério de relevância de exposição pública. Além disso, todos os envolvidos foram procurados pela dupla antes de terem seus nomes divulgados. Uma das ferramentas de apuração utilizada (pela grande maioria dos países cujos cidadãos estão envolvidos no escândalo) é a ferramenta conhecida como Linkurious.

Otávio afirma que a forma como ele e Rodrigues têm conduzido as apurações e a divulgação dos nomes é correta, pois, até o momento, não receberam nenhum processo, apenas uma notificação extrajudicial.

Foto: Phillippe Watanabe
O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.


Como unir liberdade de imprensa e regulação da mídia


Por Beatriz Atihe

Foto: Isabel Flávia da Silva
Com a aprovação da Lei de Meios no Uruguai em dezembro de 2014, a polêmica em torno da regulamentação da imprensa ganhou fôlego. Enquanto muita gente enxerga a iniciativa de regulamentação como imposição de limites, controle de conteúdo e consequente prejuízo à democracia, os simpáticos à reforma a entendem como um incentivo a mais pela liberdade de expressão, já que o controle ficaria sob a responsabilidade de entidades da sociedade civil, com um processo transparente e flexível.

Mediador do debate, o jornalista e escritor Eugênio Bucci se disse favorável à regulamentação de mídia no Brasil, apesar de reconhecer um viés autoritário no modelo adotado por alguns dos países vizinhos. "Com certeza existem vários elementos autoritários na lei de meios da Venezuela, e a mesma coisa digo para o Equador", falou, pedindo detalhes sobre essas diferenças para os palestrantes.

O editor-executivo do Observacom Gustavo Gómez, que foi conselheiro do ex-presidente uruguaio José Mujica explicou, em palestra realizada no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, que na América Latina existem diferentes modelos sendo adotados. "As pessoas estão enganadas quando acreditam que a regulamentação pode ser feita apenas em países com governos progressistas ou de esquerda. A principal questão é saber qual modelo adotar", disse.

Na opinião de Gómez, a lei adotada no Uruguai tem como objetivo justamente combater a censura. "Dos 200 artigos, apenas cinco regulamentam o conteúdo. A prioridade da lei é assegurar a informação". Ele afirmou que uma das principais diferenças entre os modelos existentes na América Latina é a relação dos mecanismos com o governo. "No Uruguai, os mecanismos são independentes, cada um age de uma maneira. Já na Venezuela e no Equador as decisões são tomadas de acordo com o governo". Dentre as cláusulas da lei uruguaia existe ainda uma que fala sobre a não obrigatoriedade de fazer uma pauta caso ela vá contra a consciência do repórter. "Com isso, conseguimos promover e garantir a diversidade e pluralidade dos meios".

O editor da Associated Press (AP) Thomas Kent endossou a visão de Gómez, e defendeu que o ideal seria uma regulamentação que priorizasse a liberdade de expressão e um código de ética público e bem delimitado. "A principal pergunta que deve ser feita é quem a lei está realmente tentando regular: os veículos que atingem milhões de pessoas, os blogues, as redes sociais. É preciso pensar quem é o jornalista".

Redes sociais

Kent também ressaltou que, atualmente, é necessário discutir sobre o fenômeno das redes sociais. Para ele, a informação está disponível em toda a parte, mas é função do jornalista trabalhar esta informação com os princípios básicos da profissão, como rigor na apuração e confirmação dos fatos. "Hoje todo mundo tem acesso a qualquer informação. O jornalista tem que ter um papel amplo, pois isso também é exercer a liberdade de expressão". Para o editor, a era digital tem um papel fundamental no fortalecimento do jornalismo. "A internet faz com que o poder da notícia sempre volte para a imprensa. Muitos podem não gostar disso, mas é um fato".

Sobre os parâmetros de controle adotados pela AP, Kent explica que um dos maiores problemas que enfrentam são os discursos de ódio propagados pela rede. A AP tem como regra não servir de plataforma para a disseminação desses tipos de discurso. "Quando teve o atentado ao jornal Charlie Hebdo, nós decidimos não publicar as charges, porque entendemos que era uma maneira de atacar uma religião repetidamente. Essa decisão nos custou bastante críticas".

Kent acredita que a ideia de regulamentar a imprensa deve partir da própria imprensa. 'Não conheço um país onde a imprensa esteja totalmente satisfeita. Em conceitos editoriais, eu penso que, para uma regulamentação funcionar de maneira eficiente, precisaria ter pouquíssimas limitações de conteúdo. Um governo bom é aquele que menos atua na liberdade de expressão".

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Totti lista os 5 'truques' para um bom texto jornalístico

Por Caroline Monteiro Araujo

Foto: Alice Vergueiro
O jornalista Paulo Totti abriu sua participação no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, hoje, em São Paulo, dizendo que "um repórter deveria ser pago pelo tempo que consegue manter um leitor lendo a matéria dele". Para ele, os repórteres serão a última raça a ser extinta na Terra. "Ser repórter é a coisa mais importante do jornal. Se ele souber escrever de diversas formas, com bom embasamento intelectual para explorar o fato que encontrou na reportagem, o leitor vai ler todo o texto, por maior que seja", diz.


Totti é repórter veterano. Já cobriu polícia, esporte, internacional, economia e política. Trabalhou na Folha da Tarde, ajudou a fundar a revista Veja, foi assessor de imprensa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e permaneceu no Valor Econômico até 2013. Recebeu o Prêmio Esso de Informação Econômica em 2007, com a reportagem China, o império globalizado. Atualmente, trabalha na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom). Totti deu o curso "Como melhorar o texto jornalístico" no Congresso da Abraji. Os cinco principais tópicos apresentados por Totti são:

1. Apurar, apurar e apurar: por melhor que o texto seja, a apuração continua sendo a principal arma de uma reportagem. "Sem apuração, você vai escrever uma crônica, e não uma matéria de jornal, porque vai faltar informação." Totti explica que se o repórter tiver tudo apurado, o material estará perfeito, com todos os lados do tema cobertos. Mas informação não é suficiente para um bom texto jornalístico:

2. Criatividade e ousadia: "Sua informação vai ser a mesma que a do seu concorrente. Para as pessoas escolherem o seu texto, ele tem de ser atraente", diz Totti. A dica é observar e estar atento a tudo: ao ambiente, ao contexto, às pessoas; e usar essas informações para dar elegância ao material. "Esses dados, que parecem acessórios, são ótimos para abrir uma matéria de maneira criativa. Mostre o cenário, o passado, as perspectivas que tem de futuro, leve o leitor com você, se não a matéria fica 'xoxa'", comenta Totti. "É o que dá brilho ao texto. A busca pela criatividade tem que ser permanente." Mas então, como perseguir a criatividade?

3. Livros: leitura é a principal matéria-prima da criação. Lendo bons livros, que contem a história do Brasil ou que sejam ótimos exemplos de reportagens, fica cada vez mais fácil colocar ousadia no texto. Totti indica alguns títulos: "para ser um bom repórter no Brasil, você tem de entender o seu País. Leiam Casa-Grande e Senzala, do Gilberto Freyre, que além de contar a história da formação do Brasil, tem uma texto maravilhoso e muito agradável; Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Holanda, e Formação Econômica do Brasil, do Celso Furtado". Para saborear uma boa reportagem, Totti indica os autores estrangeiros Gay Talese, Tom Wolfe e Truman Capote, e ainda recomenda alguns filmes: "gosto muito do cinema realista italiano e da produção americana até a década de 1980".

4. Relação com fontes e entrevistados: Totti reforça a importância da observação e da percepção do repórter, para notar todas as atitudes de quem está sendo entrevistado. Quanto mais nuances forem captadas na hora da entrevista, mais fácil é deixar o texto com qualidade. E para evitar a influência da fonte no que se está apurando, a dica é não estabelecer nem relações tão próximas nem tão distantes. "A proximidade com a fonte traz muitos interesses e até 'conluios'. A distância extrema atrapalha o acesso às informações."

5. Truques de linguagem: outra dica para um bom texto, segundo Totti, é fugir dos vícios de linguagem, como a expressão "a bola da vez" que, no senso comum, significa algo bom e valioso no momento, mas no contexto da sinuca é a bola que deve ser eliminada, encaçapada. Verbos e adjetivos fortes e marcantes também devem ser evitados, mas substantivos próprios podem ser repetidos, em prol da clareza e da precisão. "Quando você trata de dois personagens do mesmo sexo, os pronomes ele e ela vão confundir o leitor. Ele não vai saber de quem você está falando. Então repita o nome". Totti também cita verbos como verberar, explicar e disparar, que indicam que o jornalista já tomou partido da situação. "Prefira sempre o dizer, que é neutro. Pare de usar o gerúndio. O governo não está planejando nem estudando nada. Ele planeja e estuda. Use o presente", indica Totti.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Nem só de frases se faz um jornal

Por Maria Clara Moreira

Foto: Phillippe Watanabe
O leitor disponibiliza em média 33 minutos por dia para ler um jornal impresso. A informação é do anuário da Associação Mundial de Jornais e Publishers de Jornais, divulgado em junho deste ano. Esse tempo curto reforça a importância de um projeto editorial gráfico que complemente as reportagens e otimize a absorção de informação.

"O design gráfico e o texto impresso não são elementos antagônicos, mas dois mundos que convergem", disse Gil Dicelli, diretor visual do jornal O Povo, durante o 10ª Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. A essa convergência dá-se o nome de jornalismo visual, uma das mais importantes linguagens para transmissão de uma mensagem.


Segundo Dicelli, a disposição de textos e imagens pode ser responsável pela identificação e comunicação clara entre público e veículo. É o caso também do Extra, jornal carioca capitaneado por Octavio Guedes, duas vezes vencedor do prêmio Esso. A publicação se apoia em elementos visuais para facilitar a transmissão de mensagens complexas em uma publicação notadamente popular. "Para explicar o Mensalão, por exemplo, nós traçamos paralelos com os personagens de Avenida Brasil", contou Guedes.

Cabe à construção gráfica conduzir os olhos do leitor sem se tornar a força maior da página, interferir na qualidade da leitura ou servir de simples adorno. Ela não pode dar vez ao acaso: imagens, tipografia, posicionamento de títulos, retículas e boxes - todos os elementos do projeto devem ser pensados com um objetivo definido. Quando relegado a um papel coadjuvante e negligenciado, o design produz ruídos que dificultam a compreensão e conduzem mal a leitura. "É preciso combater os 'achismos' de editores na hora de montar uma página", explicou Dicelli.

Assim como a prosa é regida pela gramática, a disposição gráfica também tem sua linguagem, como a ordem de leitura das matérias, a rapidez na transmissão da informação, a localização de assuntos e o entendimento pleno da reportagem. No alfabeto do jornalismo visual, as vogais dão lugar à geometrização, gestalt (contraste entre figura e fundo), tipografia, cores e equilíbrio.

Márcia Okida, designer gráfico e membro da Society for News Design, defende que o conjunto gráfico espelha o público-alvo de uma publicação, levando à segmentação da mídia impressa. No Extra, Octavio Guedes aposta em capas que apelem ao leitor pela criatividade, relegando o refinamento a segundo plano. “Às vezes temos fotos sem qualidade suficiente de pixels, mas com informação. Nós somos um jornal popular, damos notícias de jogadores de futebol na noite. São imagens de paparazzi, não tem qualidade mesmo”, comentou. “E aí, não damos? Temos que dar. Mesmo que seja um hectoplasma do Adriano, precisamos dar. É notícia”.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

Texas Tribune mostra que é possível fazer bom jornalismo sem lucrar nada

Por Beatriz Quesada

Foto: Alice Vergueiro
É possível fazer uma boa cobertura de política regional, engajando o público, sem cobrar pelo acesso ao conteúdo e formando cidadãos conscientes, disse o jornalista e co-fundador do Texas Tribune,  Evan Smith, no primeiro dia do 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em São Paulo. 

Na sessão especial "Jornalismo sem fins de lucro, sustentável e próspero - o caso de êxito do Texas Tribune", Smith explicou que o site foi lançado há seis anos e está descobrindo um novo jeito de fazer jornalismo. Ele acredita que uma empresa jornalística que pretenda ter lucro, está obrigada a opferecer uma cobertura menos imparcial. Para Smith, apartidarismo, crítica e independência não são geradores de lucro, mas de valores.

Todo o conteúdo do Texas Tribune é disponibilizado online e repassado para outros veículos gratuitamente. Além disso, são realizados eventos com figuras políticas relevantes no cenário local - um por semana em diferentes regiões do estado - com o objetivo de aproximar o cidadão da política, e criar ferramentas para que ele tome decisões mais acertadas, educando o público a exercer sua cidadania de forma mais ativa.

Além da missão educativa, outro pilar do projeto é o jornalismo de dados, que, segundo Smith, deveria ser chamado apenas de jornalismo, uma vez que atualmente é impossível não utilizar o recurso. Esses dados são disponibilizados por meio de gráficos ou situações interativas, que permitem ao cidadão comparar diversas situações, e assim fazer escolhas mais conscientes.

Todo esse projeto só é possível graças a doações individuais, de fundações e de patrocínio direto de corporações. Porém, para os patrocinadores, não existe nenhuma contrapartida de exibição de anúncio no site. Apesar disso, o Texas exibe o logo de seus apoiadores. Além disso, Smith ressalta que a publicação adota uma postura de "transparência radical", pois cada dólar doado é divulgado em tempo real no site da empresa.

Esses diferenciais fizeram com que a iniciativa tivesse sucesso e esteja crescendo até hoje, com quase um milhão de acessos mensais no site, segundo seu co-fundador. Parcerias como a que foi estabelecida com o New York Times e, atualmente, com o Washington Post, ajudaram a alavancar as visitas.

Esse crescimento se mantém pela diversidade de formatos - texto, vídeo, áudio - embora não exista uma grande variedade de conteúdo. Isso ocorre pois o Texas Tribune é uma publicação voltada para um único nicho de um estado americano, enquanto a maioria dos veículos, mesmo os locais, buscam cobrir os mais variados assuntos. Segundo Smith, não importa o quão relevante seja um acontecimento no Texas, ele só será pauta caso envolva política e administração pública.

Embora o assunto não pareça tão atraente, o site surgiu em uma época de crise, na qual havia poucos jornalistas cobrindo política por conta de demissões em massa nos grandes jornais americanos. Isso criou uma demanda por cobertura na área, que pode ser observada no Texas com a constatação de que o estado teve o menor percentual de votos nas últimas três eleições dos Estados Unidos.

Smith acredita que a expressão maior da cidadania se dá através do voto. Ele ressaltou ainda que é dever do jornalismo oferecer as bases e as ferramentas para que a população tenha maior acesso ao governo, tome decisões com mais responsabilidade e para que exista maior transparência no processo político como um todo.

O 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio do Google, O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Gol, Itaú, Oi, TAM, Twitter e UOL, e apoio da ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais), Comunique-se, Conspiração, Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil, FAAP, Fórum de Direitos de Acesso à Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Knight Center for Journalism in the Americas, OBORÉ Projetos Especiais, Textual e UNESCO. Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.

25/07/2014

Jornalistas lembram erros e o que aprenderam com eles

Roberto Bueno | Universidade Metodista de São Paulo

Polícia invade o apartamento, ouve-se um tiro e de dentro sai carregada Eloá Cristina. Ela era refém do ex-namorado que não aceitava o fim do relacionamento. “Ela morreu!”, ouviu pelo telefone a repórter do jornal Folha de S.Paulo de seu interlocutor José Serra, governador do Estado de São Paulo - onde o sequestro se passou.

A secretária de redação decide publicar a informação na internet. Este não era um furo. Era uma barriga, pois a jovem não tinha morrido. Este fato ocorreria, porém, apenas, no outro dia.

Quem assumiu este erro foi Suzana Singer, secretária à época do ocorrido, durante o painel “Ooooops! O que grandes jornalistas aprenderam com seus grandes erros”, nesta sexta-feira (25) no terceiro horário de palestras, durante o 9º Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Também participaram da apresentação o jornalista da Folha, Clóvis Rossi e o âncora e jornalista da RecordNews, Heródoto Barbeiro. Com mediação do jornalista João Paulo Charleaux, os três profissionais da imprensa citaram, cada um, três erros cometidos e o que aprenderam com eles.

Fatores

Entre os fatores que causaram erros citados pelos profissionais, estão a pressa em divulgar primeiro um fato antes dos concorrentes, a confiança em fontes porque a conheciam há muito tempo ou por causa do cargo que ocupavam e deduzir uma informação sem checar.

Abraço

O primeiro a expor seus erros foi Barbeiro. Ele contou sobre a entrevista com um “consultor” que estava divulgando o “abraço corporativo”. Realizada para o programa que o jornalista tinha na rádio CBN, a entrevista não chegou a ir ao ar, mas foi mostrada no filme “Abraço Corporativo”, documentário produzido com o intuito de mostrar a vulnerabilidade dos profissionais de imprensa, durante a produção de notícias.

 “Antes, no passado, a gente errava com pouca velocidade; agora, a gente erra mais fácil, porque a velocidade é muito maior”, alertou Barbeiro.

Pinochet

Rossi trabalhava na revista IstoÉ no final do anos 1970, à época em que o ex-ditador do Chile (1973 - 1990), Augusto Pinochet, falecido em 1996, enfrentava problemas com o empresariado do país.  “Estava louco para que a ditadura caísse e trabalhei o tempo todo me direcionando para a hipótese de que o governo estava realmente enfraquecido”. A hipótese foi estampada na capa de final de semana da revista com a manchete: “Pinochet – Cai ou não cai?”.

Pinochet realmente caiu, mas uma década depois. Clóvis Rossi considera que na ocasião deixou que desejos pessoais fizessem com que ele cometesse um erro. “Não gostava de ditadura e menos ainda da ditadura Pinochet”, conta o jornalista que teve muitos amigos chilenos perseguidos e mortos.

O 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi com o patrocínio da Época, Vale, Google, Estadão, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, Gol, TAM e UOL e apoio de Associação Nacional de Jornais (ANJ), Conspiração Filmes, Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo, Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Revista Piauí, Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Jornalistas & Cia., Comunique-se, Knight Center, Revista Imprensa, Lincoln Institute of Land Policy, OBORÉ Projetos Especiais, Textual, Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER). Desde sua 5ª edição, a cobertura oficial é realizada por estudantes do Repórter do Futuro, sob a tutela de coordenadores do Projeto e diretores da Abraji.