28/06/2019

Jornalismo transnacional é ferramenta importante em casos de corrupção

Colaboração entre jornalistas na América Latina sofisticaram apuração na Operação Lava Jato

Por André Catto
Edição: Leandro Melito


Da esquerda para a direita: Thiago Herdy (O Globo/Época/Abraji), Milagros Salazar (Convoca), Guilherme Amado (Época) e Emilia Diaz-Struck (ICIJ)
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
A colaboração transnacional entre jornalistas é essencial para o esclarecimento de fatos que ultrapassam fronteiras. Essa foi a análise do vice-presidente da Abraji, Guilherme Amado, em painel sobre a atuação da imprensa nas investigações da Operação Lava Jato na América Latina.

“É um modelo importante porque aumenta o impacto e a pressão sobre governos e empresas. Quando as multinacionais praticam corrupção e são denunciadas globalmente, elas se mexem muito mais”, analisou.


Vaza Jato não tem prazo para terminar, diz editor do The Intercept Brasil

Conversas envolvendo Moro e a Força-Tarefa estão em centenas de chats em processo de análise

Por Géssica Brandino e Leandro Melito


Leandro Demori afirmou não saber ao certo quantos gigabytes tem os documentos que o The Intercept Brasil recebeu.
Foto: Gabriela Carvalho
O vazamento de conversas envolvendo o ministro da Justiça, Sergio Moro, quando era juiz da Lava Jato em Curitiba e procuradores da operação não tem prazo para acabar, disse o editor do The Intercept Brasil, Leandro Demori, nesta sexta-feira (28) no 14º Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji. Divulgar o material, ainda que parcialmente, foi uma decisão editorial tomada após avaliar o interesse público envolvido na troca de mensagens, contou.

“Você não senta por um ano em cima do material quando alguém está comendo quentinha na cadeia”, respondeu Demori ao ser questionado pelo editor-chefe do Poder 360, Fernando Rodrigues, sobre porque não fazer a divulgação aos moldes da operação Panamá Papers, que revelou documentos ao longo de duas semanas seguidas.


Bastidores da reportagem que descobriu milhares de covas clandestinas no México

Mago Torres conta como foi trabalhar a distância em uma das reportagens mais completas sobre o tema

Por Emily Santos


Mago Torres (freelancer).
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
Uma reportagem investigativa que identificou e localizou quase dois mil locais usados para desova de corpos clandestinamente no México, entre 2006 e 2016, teve seus bastidores revelados pela repórter mexicana Mago Torres, durante o 14º Congresso da Abraji. O trabalho reuniu milhares de dados e foi publicado por meio do site “A dónde van los desaparecidos”.

Mago foi uma das responsáveis pelo projeto e coautora da reportagem “El país de las 2 mil fosas”. A jornalista revelou os detalhes sobre o processo de investigação, que aconteceu em meio a uma crise humanitária que assola o país.


A força do jornalismo hiperlocal e a representatividade que aproxima os leitores

Elvira Lobato e Ana Terra Athayde descobriram um 'deserto de notícias' em diversas regiões do Brasil

Por Thalita Monte Santo

Da esquerda para direita: Elvira Lobato (Freelancer), Ana Terra Athayde (Freelancer) e Ângela Pimenta (Projor).
Foto: Alice Vergueiro / Abraji
“Eu conversei com os atingidos [da tragédia de Mariana] e muitos não sentiam vontade de ver como suas histórias saíam na grande mídia”, contou a jornalista Elvira Lobato que, ao lado da videorrepórter Ana Terra Athayde,  percorreu seis cidades brasileiras onde a grande mídia normalmente não chega. São os chamados 'desertos de notícias'. 

Mariana (MG), Cidade Ocidental (GO), Novo Hamburgo (RS) e Altamira (PA), Arapiraca e Palmeira dos Índios (AL), com seus veículos mais do que locais, foram os cenários da apuração cujos resultados foram publicados em um especial multimídia produzido como parte do Atlas da Notícia, um projeto de dados do ProJor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo).


Três dicas para não se aventurar no jornalismo investigativo

Conheça ICIJ, GIJN e IPYS, prêmios e instituições que dão apoio para fazer denúncias 

Por Gabriela Neves e Ariádne Mussato 
Edição Cristiane Paião 


Emilia Diaz-Struck (ICIJ)
Foto: Alice Vergueiri / Abraji
As dificuldades para realizar um trabalho relevante e sério no jornalismo investigativo são muitas. Vários jornalistas brasileiros ficam em dúvida sobre como conseguir fontes, como analisar dados e, principalmente, sobre como terem apoio e proteção de instituições maiores no caso, por exemplo, de processos judiciais em decorrência das suas denúncias. Entretanto, algumas dicas podem ajudar.

Emilia Diaz-Struck, coordenadora do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, sigla em inglês) na América Latina, comenta que a plataforma é um canal para jornalistas que se interessam pelo mesmo assunto. “Cada jornalista ajuda de sua forma, alguns sabem melhor dados, outros fontes”, destaca. Por exemplo: às vezes, pode vir aquela dúvida sobre como compartilhar informações sigilosas com outros jornalistas. A ICIJ também pode ajudar com isso, os responsáveis por reunirem documentos da Odebrecht utilizaram plataformas disponibilizadas pela instituição para trocarem documentos. Outra vantagem é que o profissional pode se associar de forma gratuita.


Como as ‘fake news’ foram usadas pelo governo soviético como arma de guerra

Série de reportagens narra  campanha de 'desinformação' patrocinada pelo serviço secreto soviético

Por Luana Dias e Luísa Cortés
Edição João Paulo Charleaux
José Roberto de Toledo (Abraji)  e Adam Ellick (The New York Times). Foto: Luana Dias
“Antes éramos nós [americanos] contra eles [soviéticos]. Agora, somos nós contra nós”, disse o jornalista do The New York Times Adam Ellick em palestra no 14º Congresso da Abraji, em São Paulo. Ellick é responsável por uma série de vidoedocumentários chamada Operation Infektion [Operação Infecção, em tradução livre].

A série conta a história de uma campanha de desinformação conduzida pelo serviço secreto soviético, a KGB, no período da Guerra Fria - nome dado ao período após a Segunda Guerra Mundial (1945) em que soviéticos e americanos protagonizaram uma corrida nuclear que se prolongou até 1991. 

Descrença na mídia local é terreno fértil para imprensa internacional

Declínio de partidos moderados e desinformação nas redes sociais
durante eleições criaram pano de fundo para crise política

Por Juliana Fronckowiak Geitens, Mariana Soares e Yasmin Oliveira

Andrew Fishman (Intercept), Sam Cowie (Freelancer), Brad Haynes (Reuters), Sarah Maslin  (Economist). Foto: Mariana Soares
“A última ameaça da América Latina”. Foi com essa manchete que o jornal britânico The Guardian expôs suas preocupações em torno da eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), em 2018. E não foi o único. Veículos como o The New York Times, El País, BBC e The Intercept também colocaram o então candidato como uma de suas principais pautas sobre o Brasil.

O cenário era: economia em baixa, desemprego em alta, falta de confiança nas instituições. “Estava muito fácil massacrar a esquerda depois de 13 anos de poder”, afirma Carla Jimenez, chefe da redação da sucursal brasileira do El País, sobre as eleições durante o 14º Congresso Internacional de Jornalismo da Abraji.



Sensibilidade e excessos na cobertura de tragédias

Em Mariana, 19 pessoas morreram, e em Brumadinho foram 246 vítimas fatais

Por Beatriz Santoro e Natalia de Souza
Edição Pâmela Ellen
 Amanda Rossi (BBC Brasil). Foto: Natália de Souza

Veterana em diversos tipos de coberturas, a repórter da BBC Amanda Rossi, afirma que “a sensibilidade é o que aproxima e provoca empatia nos leitores”, em especial nos casos de coberturas de tragédias.

O consenso entre os jornalistas participantes da palestra é de que vítimas como as afetadas pelos rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho, devem ser tratadas com sensibilidade e respeito durante as reportagens. 


Projeto Comprova: Verificação de fatos e transparência do processo no combate à desinformação

A iniciativa analisou mais de 240 mil mensagens de Whatsapp durante a campanha eleitoral de 2018

Por Stéfanie Rigamonti
Edição Ronald Sclavi


Pedro Burgos (Projeto Comprova) Foto: Stéfanie Rigamonti 


As eleições do ano passado trouxeram um componente novo no âmbito das discussões políticas no meio digital: mensagens de Whatsapp. Por meio dessa ferramenta, importantes conteúdos informativos foram veiculados, mas a quantidade de desinformação também compartilhada tornou o aplicativo alvo dos propagadores de notícias falsas. Não à toa, acabou sendo objeto de estudo no Brasil por meio do Projeto Comprova.

A iniciativa, que mobilizou 24 veículos de comunicação e que é coordenado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), foi tema da palestra “O banco de dados do Projeto Comprova: O que 240 mil mensagens de Whatsapp revelam sobre a desinformação na campanha eleitoral”. A mesa teve como palestrante Pedro Burgos, desenvolvedor do projeto Impacto.jor e colaborador no Comprova. A mediação ficou por conta de Sérgio Lüdtike, editor-chefe do First Draft News.


Jornalismo profissional leva visibilidade ao ativismo nas periferias e grupos étnicos

Proximidade pessoal com temáticas cria cobertura com mais representatividade

Por Helena Mega e Vitória Macedo
Edição Ronald Sclavi


Donminique Azevedo, ex-editora-chefe do Correio Nagô. Foto: Vitoria Castro
Eles não querem ser vistos apenas como ativistas, mas sim como quem faz jornalismo profissional. São comunicadores envolvidos em projetos paralelos à mídia dita “tradicional”. O que os diferem é a preocupação em ampliar e vozes e perspectivas de grupos periféricos ou com recortes étnicos específicos.

“Não queremos ser classificados só como ‘uns alternativos’ que estão fazendo algo que ninguém vê”, ressalta a jornalista Donminique Azevedo, ex-editora-chefe do Correio Nagô, portal de mídia étnica da Bahia. O slogan do veículo, “informação do seu jeito”, mostra que o conteúdo é produzido buscando a melhor representação do povo pela mídia.